Por Reinaldo Azevedo
Há mais de três
décadas, democratas e esquerdistas dos mais variados matizes cobravam o
restabelecimento das eleições diretas para presidente da República - a primeira
safra de governadores escolhidos pelo povo havia ocorrido dois anos antes, em
1982.
Era 25 de janeiro,
aniversário de São Paulo. Lembro-me como se fosse hoje. Os petistas estavam na
linha de frente do protesto e, ora vejam, naquele tempo, só seus próprios
integrantes escapavam das vaias da militância. Até Ulysses Guimarães foi alvo
de ofensas. Afinal, o partido não queria conversa com burguês porque "dos
trabalhadores". Estupidez, sim! Mas havia certa dignidade naquele radicalismo
tosco.
Como não observar?
Quase metade desses 32 anos - estamos no 14º -, o país ficou sob os cuidados do
PT. Se, em muitos aspectos, continuamos a ser a terra de desigualdades e
iniquidades, muito se deve, então, à clarividência dos companheiros, não é
mesmo? Nesses 32 anos, ou eles estavam no comando ou estavam sabotando soluções
justas, como a reforma da Previdência, que nunca fizeram nem deixaram que
fizessem.
Ah, era bom gritar
contra o autoritarismo militar, a inflação, a corrupção. Com todo o horror que
uma ditadura sempre traz consigo, é claro que o regime dos generais era um
convento se comparado aos métodos petistas de gestão. E não! Nem assim a
ditadura era desculpável.
Trinta e dois anos
depois, os supostos 40 mil da Praça da Sé, reunidos em pleno dia útil, não
estavam reivindicando mais democracia, não estavam defendendo o estado de
direito, não estavam lutando por mais justiça. Muito pelo contrário.
Os esbirros do
partido tomaram a praça para, na prática, defender o que Wagner Moura chamou "um projeto de poder amparado por um esquema de corrupção". Bem, já não é mais
projeto, mas obra. Não é apenas "amparado" pelo esquema; ele é o próprio
esquema.
Já virou um clichê
citar o Marx (relendo Hegel), segundo o qual os fatos históricos acontecem
duas vezes: a primeira como tragédia; a segunda como farsa. Raramente vi uma
situação em que tal frase se encaixasse com tamanha perfeição: em 1984, a
tragédia da derrota das diretas; em 2016 a farsa do falso golpe.
Em 1984, nós
pedíamos, além das diretas, uma "Constituinte livre e soberana", que foi eleita
em 1986. A Constituição em vigor, aprovada em 1988, é fruto desse processo. E é
contra a Carta Magna que se mobilizaram nesta quinta os petistas e outros
esquerdistas.
A manifestação de
1984 cobrava mais liberdade; a de 2016 quer o regime das milícias partidárias;
a manifestação de 1984 reivindicava um regime pautado pelas leis; a de 2016
pede que a lei seja ignorada em benefício de um partido; a manifestação de 1984
queria alinhar o país com as vanguardas democráticas do mundo; a de 2016
tem como parâmetro a dita "revolução bolivariana"; a manifestação de 1984
considerava a democracia um valor universal; a de 2016 vê em tal regime apenas
uma valor instrumental.
Dilma tem razão
quando diz que, em 31 de março de 1964, chamaram um "golpe" de "revolução". No
dia 31 de março de 2016, ela e seus aliados fizeram o contrário: chamaram a
revolução - a da lei - de golpe.
Fonte: "Blog Reinaldo Azevedo"
Fonte: "Blog Reinaldo Azevedo"
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