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terça-feira, 12 de abril de 2016

"Dilma ladeira a baixo. Impeachment, ladeira acima"

Por Ricardo Noblat
Contas feitas e refeitas ontem à noite, depois da reunião da Comissão Especial do Impeachment, o vice Michel Temer (PMDB-SP) e seus auxiliares mais próximos foram dormir convencidos de que já dispõem dos 342 votos necessários para que a Câmara dos Deputados, no próximo domingo, aprove o afastamento de Dilma da presidência.
"Hoje, já temos algo como 350 votos", revelou o deputado Mendonça Filho (DEM-PE), o coordenador do comitê do impeachment. Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara, é mais otimista. À tarde achava que o impeachment contava com 370 votos. À noite, admitia que o número mais realista talvez fosse de 380.
Faz sentido, sim. Ruiu a barreira construída pelos partidos PP, PDS e PR para reter votos garantidos há mais de uma semana ao governo. O PP, presidido pelo senador Ciro Nogueira (PI), tem 51 votos. Nogueira prometera 40 ao governo para derrotar o impeachment. Talvez não entregue seis. Dois terços dos deputados já apoiam Temer.
O deputado Maurício Quintella (Al) renunciou à liderança do PR para votar a favor do impeachment na Comissão Especial. O PR do mensaleiro Valdemar Costa Neto tem 40 votos. Há uma semana, 25 eram contra o impeachment, 8 a favor e 7 se absteriam de votar. Os 25, no momento, estão reduzidos a 10.
O ministro Gilberto Kassab, de Cidades, presidente do PSD, havia liberado os 30 deputados do partido para votarem como quisessem. Mesmo assim calculava que 20 votariam contra o impeachment. Refez os cálculos: os 20, hoje, não passam de 8. Faz um mês que Kassab se encontrou com Temer em São Paulo. E pôs o PSD à disposição dele.
No meio da tarde de ontem, ainda a bordo do avião que o levou do Recife a Brasília, Humberto Costa (PT-PE), líder do governo no Senado, disse a um amigo que a situação de Dilma estava cada vez mais difícil. Se o impeachment fosse aprovado na Comissão por uma diferença de 5 a 8 votos, ainda haveria esperança de barrá-lo no plenário da Câmara.
Mas se a diferença fosse de 10 ou mais votos, a tendência da Câmara seria dar os 342 votos para aprová-lo no plenário. A diferença foi de 11 votos. Note-se: grande parte da Comissão reuniu os nomes mais confiáveis à disposição do governo dentro dos partidos que dizem apoiá-lo. Ainda assim, 58,7% dela votaram pela aprovação do impeachment.
O que explica o enfraquecimento repentino das chances de Dilma manter-se na presidência? Não foi repentino. Pode ter parecido repentino. Mas o número de deputados favoráveis ao impeachment só tem feito crescer nos últimos 15 dias - antes de forma ainda lenta e gradual e, nos últimos sete dias de forma acelerada.
O governo só tinha uma coisa a oferecer em troca de votos contra o impeachment: cargos. Sim, e liberação de verbas para obras em redutos eleitorais. Ora, isso Temer também pode dar. De resto, ele representa uma expectativa de poder. Dilma? Uma certeza de agravamento das crises que assolam o país. Dilma cheira a fim de festa, farejam os deputados.
A um político, o governo - qualquer governo - pode pedir tudo. Até a honra. Só não pode pedir que se suicide.
Fonte: http://noblat.oglobo.globo.com/

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