DISCURSO DE POSSE DE DIMAS BOAVENTURA DE OLIVEIRA
NA ACADEMIA FEIRENSE DE LETRAS,
EM 10 DE JULHO DE 2026.
"Antes de qualquer palavra desta noite, permitam-me reconhecer a origem de toda boa palavra. A inteligência humana é admirável, mas não é autossuficiente. Todo conhecimento verdadeiro, toda capacidade de pensar, criar e compreender são, em última instância, dons de Deus. Como afirma a Escritura: 'Porque dele, por meio dele e para ele são todas as coisas.'
Se hoje recebo esta honra, faço-o com profunda gratidão, devolvendo a glória Àquele que é a fonte da sabedoria e o Autor de toda verdade."
Senhor Presidente,
Senhores acadêmicos,
Minhas senhoras e meus senhores,
Neste décimo dia do sétimo mês do ano de um dois mil e vinte e seis, este momento ímpar para mim: tomo posse e ocupo a Cadeira Dezesseis como membro efetivo da Academia Feirense de Letras (AFL). Uma data que será sempre lembrada, pois também marca a celebração de bodas de ouro. Há cinquenta anos estou casado com a querida Doralice, aqui presente. Coincidentemente este sodalício completa cinco décadas de atuação.
Estas são as palavras iniciais.
Quero ressaltar neste momento que gratidão é a chave.
Gratidão a Deus pelo talento concedido a mim. Agradecimento pela proteção e sustento diário, mesmo diante de tantos desafios.
Gratidão à minha família. Aqui estão esposa, filhas, filho, genro, nora, netos e netas.
Gratidão ao Professor Doutor João Batista de Cerqueira, presidente desta Academia, pela indicação do meu nome para compor esta instituição.
Gratidão aos confrades e confreiras, que por unanimidade, aprovaram a minha indicação.
Gratidão ao casal amigo João Pereira Lima Filho e Consa, que se deslocaram de Salvador para prestigiar uma amizade de décadas. Agradecimento ao artista plástico Gil Màrio, neto de Áureo de Oliveira Filho, o patrono da Cadeira 16.
Gratidão aos irmãos da Aprisco Church, que se mobilizaram para participar desta celebração.
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Bem, no dia de ontem completei 78 anos de idade e fui contemplado com o presente de integrar este Sodalício.
Permitam-me falar mais de comemoração, pois tem mais. Além da de ontem, data de meu nascimento, e da de hoje, tem a de amanhã. Neste sábado, 11 de julho, completo 32 anos de conversão a Cristo.
E aqui afirmo que sou Dimas Boaventura de Oliveira, um nome carregado com profundo significado espiritual. Dimas é o nome do personagem arrependido e crucificado ao lado de Jesus. Boaventura remete às boas aventuranças relatadas nas Escrituras Sagradas. Oliveira é uma das árvores mais antigas cultivadas pela humanidade.
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De volta a mais agradecimentos. Gratidão à direção da Academia por atender minha solicitação de ter o ilustre Professor Áureo Filho como Patrono.
Assim, quero revelar um fato que remete à Áureo de Oliveira Filho, Patrono da Cadeira Dezesseis que estou assumindo. Ele foi meu padrinho por procuração. Como?
Nasci no distrito de Angico, em Monte Alegre, hoje Mairi. Em 1948, minha mãe, a professora Hilda Pereira Boaventura de Oliveira, estava grávida. Com meu pai, o comerciante Carlos Simões de Oliveira, receberam a visita naquela pequena comunidade do então deputado estadual Jorge Calmon, que foi agradecer o apoio dado na campanha. Vendo minha mãe gestante, logo se interessou em ser padrinho da criança que estava por vir. O que foi concordado pelos meus pais.
A criança veio ao mundo e o tempo foi passando. Advogado, jornalista - foi editor-chefe do jornal A Tarde, entre 1934 e 1995 - e professor, o deputado era muito ocupado. Nos anos 50, fui a Salvador com meu pai, na Assembleia Legislativa e na redação de A Tarde, e não houve o esperado encontro para a marcação da data do batismo.
Naquela época, não havia a comunicação que existe hoje. Tudo era tratado por carta. Algum tempo depois, em 1961, a solução para a questão. Meus pais receberam justificativa de Jorge Calmon e a indicação do então vereador, cirurgião dentista e professor Áureo de Oliveira Filho, que logo depois foi deputado estadual, para me batizar por procuração. Com 13 anos, fui batizado na então Matriz.
Meu sobrenome é Oliveira como o de Áureo Filho. Não tinha aproximação com ele. Mas, era uma figura pública que admirava, principalmente por manter um Colégio como o Santanópolis - onde nunca estudei -, e por dotar Feira de Santana de uma sala de espetáculos de qualidade e excelência, o Cine Santanópolis, inaugurado em 13 de dezembro de 1958, um sábado, com a exibição do clássico drama musical "Sinfonia Interrompida".
Com dez anos, já assistia filmes e era habituê das outras salas de cinema existentes, o Cine Íris e Cine Plaza.
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Mais sobre lembranças, todas relacionadas às Letras. No tempo em que cursava o Primário nas Escolas Anexas à Escola Normal, no prédio onde hoje é o Centro Universitário de Cultrura e Arte (Cuca), que recebi da professora Ivone Sofia Brandão um livro de presente pelo meu interesse em letras: "Espumas Flutuantes", a única obra poética publicada em vida por Castro Alves.
Desde meados dos anos 1950 que a enciclopédia de conhecimentos "Tesouro da Juventude", obra inglesa, editada pela editora W. M. Jackson, Inc., com 18 volumes, fez parte do acervo de minha casa paterna - e agora na minha biblioteca. Foi fundamental a sua leitura para o complemento dos estudos de toda a família. A enciclopédia reúne conhecimentos gerais que todas os jovens necessitavam naquela época possuir. O texto de "Tesouro da Juventude" ainda hoje é admirável.
Além de ajudar no trabalho do meu pai, vendendo balas e doces, em meados dos anos 1960, trabalhei na Livrara Guanabara e na Livraria Jacuípe. Mais tarde, fui habituê da Livraria Leitura.
No ginásio e no colegial, além da faculdade, li todos, ou quase todos, livros recomendados da literatura brasileira e mundial, além de publicações sobre a sétima arte.
Entre os primeiros filmes vistos, lembranças de "O Rei dos Reis", baseado na Vida e Paixão de Cristo; "Robinson Crusoé", inspirado em Daniel Defoe; "Os Três Mosqueteiros", baseado na obra de Alexandre Dumas; "A Volta ao Mundo em 80 Dias", baseado no livro de Jules Verne; "E Agora Brilha o Sol", baseado na obra de Ernest Hemingway, entre outros.
Nos meados dos anos 1960 que participei do movimento teatral de Feira de Santana e faço link com a literatura. Atuei na peça "Viúva, Porém Honesta", do dramaturgo Nelson Rodrigues, encenada no palco do Cine Santanópolis; e fiz parte da equipe técnica da encenação da peça teatral "Os Justos", do escritor e filósofo franco-argelino Albert Camus.
Outra lembrança memorável. E mais recente. Há 38 anos, participei da equipe de Juraci Dórea na Bienal de Veneza, entre junho e julho de 1988. E, tive a oportunidade de acompanhar o artista em um encontro com o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz (1998).
Depois de cerca de 50 anos afastado do teatro, voltei aos palcos em 2022. Integrando-me ao Movimento de Artes Aprisco (Maap) e fiz teatro cristão.
Primeiro, em parceria com Paty de Brito, fiz uma adaptação da passagem do Evangelho de João que trata da Santa Ceia com "Um Grão de Trigo", peça teatral em dois atos, levada ao palco da Aprisco Church, na noite do Domingo de Páscoa, 17 de abril de 2022.
A encenação da Santa Ceia, relevante na montagem do momento emocionante e enlevante da vida de Cristo com seus discípulos, foi um memorial da Ceia do Senhor para que a Igreja recorde continuamente o sacrifício vicário de Cristo na cruz em favor de todos.
Um grão de trigo é apenas um grão de trigo. Mas, assim como Jesus o grão de trigo quando cai na terra necessita primeiro morrer para depois gerar a vida que abençoará a quem dele comer. Sem a morte do trigo não existirá a vida.
Depois, atuei como narrador da peça "O Peregrino: O Destino Final", texto adaptado do clássico da literatura cristã, "O Peregrino", de John Bunyan, escrito há mais de 130 anos, em 1890, que foi encenada uma semana antes do Natal, na Aprisco Church, em 18 de dezembro de 2022.
A peça sintetiza sobre o caminho da salvação, que é estreito e difícil. É a história de Cristão, um homem em necessidade que entendeu que precisa de Nosso Senhor Jesus para transformar sua vida.
Assim, uma alegoria da vida de um peregrino, personagem que enfrenta uma caminhada da Cidade da Destruição para a Cidade Celestial em trajetória de perigos e maldades e
Em 2023, fiz adaptação da parábola d’O Filho Pródigo, contida no livro de Lucas 15: 11 a 32, encenada no Dia dos Pais, mostrando O exemplo maior, que é Deus Pai, Pai misericordioso, bondoso.
Assim, memórias que se referem à minha relação com as letras.
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Agora, vamos a um rápido perfil do político e construtor da modernidade feirense, o Patrono da Cadeira que assumo na Academia Feirense de Letras.
Áureo de Oliveira Filho nasceu em Feira de Santana, no dia 11 de agosto de 1902. Filho de Áureo Olímpio de Oliveira e Dona Catarina Picharra de Oliveira, a qual era de origem libanesa.
Em 1932, formou-se, com distinção, em Odontologia pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). Primeiro, exerceu a profissão em Salvador e depois em Feira de Santana, por muito tempo. Viajando pelo interior da Bahia encontrou a sua amada, Dona Palmyra Sampaio Mascarenhas, em Itaberaba, com quem se casou no dia 11 de novembro de 1926. Deste matrimônio teve cinco filhos: Maria Cristina, Joaquim Manoel, Alberto, Maria Lúcia e Evandro José Sampaio de Oliveira, este que está vivo.
Ele casou-se em segunda núpcias com Ceres Oliveira Matos, com quem teve mais quatro filhos.
Áureo Filho também exerceu a vocação do magistério. Seguindo o exemplo das irmãs Edelvira Oliveira, conhecida carinhosamente como Catuca, e Hermengarda Oliveira, tornou-se professor do Ginásio Donato de Souza. A experiência não durou muito, mas foi um estímulo para a criação do Ginásio Santanópolis (depois, Colégio Santanópolis), em 1933. Junto com o Colégio Taylor Egídio de Jaquaguara, o Ginásio Municipal de Ilhéus e o Colégio de Ponte Nova, em Wagner, na Chapada Diamantina, este estabelecimento foi considerado um dos "principais núcleos irradiadores do conhecimento" que proporcionaram o ensino secundário no interior da Bahia
O Santanópolis foi um marco na Educação de Feira de Santana e por extensão da Bahia. Primeiro com o Curso Ginasial e mais tarde com a Escola Técnica do Comércio. Instalou na Avenida Senhor. dos Passos um internato para receber alunos vindos de toda a parte da Bahia. Construiu um auditório para o Colégio, o qual tendo em vista a sua grandiosidade, transformou-se no Cine Teatro Santanópolis. Também construiu o Hotel Caroá.
Educador, político nato e apaixonado pela educação, trazia no sangue a fibra da terra libanesa, herança materna da qual sempre se orgulhou.
Áureo Filho ingressou na política como Vereador e depois Deputado Estadual, por três legislaturas. Era um orador eloqüente, sempre convidado para proferir palestras e conferências.
Homem de porte aristocrático, possuía uma notável elegância que o distinguia onde estivesse. Tinha o talento de tratar grandes problemas com simples soluções. Nenhum obstáculo era grande demais ou intransponível para ele. Sua inteligência privilegiada, aliada a uma grande sabedoria, fazia com que ele enxergasse a vida sob vários aspectos. Assim, havia sempre mais que uma única maneira de ver as coisas.
Foi com este espírito empreendedor que ele conduziu ao então Governador do Estado Antonio Carlos Magalhjães, o grupo que idealizou a criação de um Observatório em Feira de Santana, o Observatório Astronômico Antares.
Criou o Aeroclube de Feira de Santana, o qual foi seu primeiro presidente. Foi também membro fundador e presidente do Rotary Club de Feira de Santana (ano rotário 1945-1946).
Aliou-se ao grupo que lutou pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), teve seu nome indicado para o primeiro Conselho Administrativo. Ao saber do primeiro vestibular da Universidade, já no leito da dor ele disse; "Agora estou feliz, é irreversível". Faleceu uma semana depois, no dia 21 de junho de 1976 - nos próximos dias, o cinquentanário de sua morte -, durante seu quarto mandato como deputado estadual.
Até o fim da vida, foi um atuante defensor das demandas de Feira de Santana, principalmente da área da educação. Foi um homem que sempre impulsionou o crescimento de Feira de Santana. A partir do Santanópolis, centenas de famílias vieram morar no município, em busca de educação para seus filhos.
De 2 a 9 agosto de 2002, a Câmara Municipal de Feira de Santana realizou uma Semana comemorativa do Centenário de nascimento de Áureo de Oliveira Filho, numa rica programação que incluiu a criação do Troféu Áureo Filho, como principal premiação das Olimpíadas Estudantis Municipais, realização de uma mini-maratona, quando foi sancionada a Lei denominando Praça Áureo de Oliveira Filho no bairro do Tomba, Celebração Eucarística na Catedral Metropolitana de Senhora Santana com assinatura de mensagem, pelo Prefeito José Ronaldo de Carvalho, enviando projeto de Lei à Câmara Municipal para nominação da Escola Municipal Áureo Filho e lançamento do livro "Centenário de Nascimento de Áureo Filho".
Outorgada pela Câmara Municipal de Feira de Santana,existe a Comenda Áureo Filho, que distingue educadores importantes do município.
Em sua terra, o Centro de Educação Tecnológica do Estado da Bahia (Ceteb) foi nomeado em sua homenagem. Atualmente, a denominação é Ceep Áureo de Oliveira Filho. Tem rua que leva seu nome, na Serraria Brasil, e escolas que levam seu nome nos municípios de Anguera, Ipecaetá e Santa Bárbara.
Atuou como primeiro vice-presidente da Assembléia por dois anos seguidos, em 1969 e 1970.
Representou a Assembléia Legislativa em inúmeros congressos educacionais estaduais e nacionais e defendeu a extinção dos exames de admissão e concurso vestibular.
Por fim, lembrar que o ocupante da Cadeira 16, e meu antecessor, foi José Gerson Lordello.
Senhores acadêmicos,
Senhoras e senhores,
Reitero neste momento em que encerro minha fala, a imensa gratidão em participar desta Academia. Assim, estava escrito.
Muito obrigado!