Lembranças de minha avó Marie Laurette Vergnes
Casal André Sylvain Vergnes e Marie Laurette Vergnes Por Jordanna Vergnes
Como era esperado, emocionei-me muito ao transcrever as lembranças que tenho de minha avó, e, dei muitas risadas também. Tenho certeza, que por mais que eu tente, não vou conseguir transmitir inteiramente, com a mesma intensidade que proporcionados a mim, os gestos de uma pessoa tão doce, acolhedora, compreensiva e generosa, como foi minha avó.
Lembro-me muito dos dias em que ficávamos na casa minha avó. Ao voltarmos da escola, por vezes almoçávamos e passávamos à tarde lá. Eu amava almoçar na casa de minha avó! Se há um cheiro que me traz lembranças são as suas batatas gratinadas! Como eu amava! Para merenda, ela ainda nos preparava seu famoso crepe suzzete recheado com açúcar ou Nescau! Há pouco tempo comentei com minha mãe, que me deu vontade de comer um crepe como o de minha avó, e que tinha feito para mim e para minha filha. Mas o de minha avó, comentávamos, era fininho e chegava derreter na boca junto com o açúcar. Não há igual. Como era delicioso.
Entre as recordações mais marcantes, lembro-me também que, durante a semana, ao entardecer, nós íamos a pé para a Padaria Progresso, que ficava próxima a sua residência, para comprar pão de açúcar. Ainda posso sentir o aperto de sua mão, quando, para caminhar melhor, precisava apoiar-se em meu braço direito. E nós duas íamos conversando e eu, ainda não tinha noção de como aquele momento no meu dia, fazia-me bem.
Algumas vezes, ela ainda nos apresentava especiarias francesas, como por exemplo o escargot, trazidos em uma de suas viagens para França. Ela preparou com alho, manteiga e salsa. Eu amo até hoje. Em algumas oportunidades que tive de novamente saboreá-lo, recordei do dia em que minha avó me apresentou essa especiaria pela primeira vez.
Ainda nas recordações de sua casa, lembro-me que minha avó teve dois cachorros, Lesse e Samir. Eram enormes, da raça Doberman e Fila (se não me falha a memória). Acredito que tenha sido meu primeiro contato com esses bichinhos, fazendo crescer um amor enorme por animais, especialmente por cães, na presença dos quais, convivo até hoje. E, recordo que minha avó tratava os cães dela com muito amor. Eles tinham uma casinha enorme e ficavam soltos no quintal. Inclusive, quem me presenteou com minha primeira cachorrinha, a babi, foi minha avó. No colo de minha avó, ela ficava durante toda a viagem de carro, nas férias de verão.
Por falar em férias de verão, recordo-me muito dos veraneios em Cabuçu. No início da manhã, bem cedo, ela nos levava para a praia e eu achava engraçado porque ela passava literalmente a manhã inteira no mar, na parte rasa, onde apenas era possível ver o seu grande chapéu que encobria sua face do sol forte e uma parte daquele maiô preto que ela sempre usava. Eu passava a manhã inteira nadando ao redor dela, e, todos os dias, nós tomávamos picolé! Os sabores preferidos dela eram de manga e amendoim.
Nos finais de tarde ela igualmente também nos levava para brincar na areia da praia. Eu ficava brincando com Ronna e ela ficava nos observando sentada em um banquinho, embaixo de uma amendoeira. Ainda posso sentir o cheiro do hidratante e do perfume que ela passava. Nessas horas sinto uma nostalgia e uma enorme vontade de voltar a ser criança e poder reviver esses dias.
E, em qualquer lugar, com o mesmo amor, sabia também impor limites a nossas traquinices de criança e, até hoje, eu e meus irmão lembramos com risos e com muito carinho de quando ela nos falava "non se faça de interressente", com seu português misturado no seu eternizado sotaque/idioma francês.
Lembro também que minha avó ficava conosco na casa de meus pais. Lá, ela também me levava para passear. Havia um terreno vazio, no qual tinha um enorme cajueiro e uma pedra na qual ela se sentava, e lá, estendíamos longas conversas.
Na noite, recordo de minha avó assistindo uma novela chamada "Terra Nostra". Ela gostava. Acho que em algum ponto se identificava, posto que a novela contava a história de centenas de pessoas, que haviam deixado o seu pais de origem, e cruzado o oceano para fugir da crise e viver uma nova vida no Brasil.
Ainda na casa de meus pais, não raras vezes nas madrugadas, a encontrava sozinha na cozinha, comendo sua manguinha. Ainda hoje, comento todas as vezes que como manga, quase que "no automático": "só lembro-me de minha vó".
Outra recordação é que minha vó sempre se cuidava e se arrumava. Ela era vaidosa, pedia para que eu, com uma pinça, retirasse os pelos de seu rosto. Passava spray fixador nos cabelos e ficava maravilhosa com suas unhas e batom vermelho que ela adorava. Ainda posso sentir o seu Chanel nº 5 no quarto.
Eu poderia passar dias escrevendo sobre minha avó, sobre o amor e doação dela por todos nós, sobre a lembrança da falta que ela me fazia quando ela viajava para França. Recordo-me, que quando ela viajava, à noite, sem que ninguém pudesse me ver, eu cheirava o perfume dela em algumas roupas dela deixadas no quarto, ao mesmo tempo em que eu chorava de saudade.
E assim foi e ainda é minha vó Marie Laurette Vergnes. Presença mesmo em sua "ausência".
Nós sabíamos que minha avó e meu avô haviam aprendido da maneira mais dura e profunda a valorizar e priorizar algumas coisas da vida, como por exemplo, o alimento que nos é ofertado todos os dias. Minha avó nos contava que enfrentou, em certo momento de sua vida, filas enormes para conseguir apenas um pão. Recordo-me que ela não deixava nada no prato e, se sobrasse em algum de nossos pratos, ela nos olhava nos olhos e perguntava delicada “você vai deixar?”, então ela puxava o prato e terminava-o.
E assim fui aprendo com minha avó, que passou para minha mãe, o que pretendo transmitir para minha filha, sua bisneta. Entre tantos ensinamentos, ver o lado bom da vida, ainda que as coisas possam parecer difíceis, pois como ela sempre repetia "pior é na guerra". Dessa forma, minha avó me ensinou a ser forte, seguir em frente e viver um dia de cada vez, sabendo apreciar e ser grata pelo que a vida nos proporciona no de dia hoje.
Assim, espero poder espelhar essa doçura e fortaleza para minha filha, Marcelle Marie, que carrega o "Marie" como uma singela homenagem a minha avó. Fisicamente, acho ela muito parecida com minha vó e com minha mãe. Sempre, através das fotos, comparamos os seus rostos. Por falar em foto, tenho uma que considero especial: eu e minha avó nos meus 15 anos. Entre outras, essa está guardada com muito carinho em nosso álbum, que fica em nossa sala e é "visitado" por Marcelle nos finais de semana.
Dessa forma, aos pouquinhos, vou revivendo essas lembranças e contando para Marcelle a história de minha vó que, acredito, está em algum lugar aguardando nosso reencontro. Por fim, como diz Marcelle Marie "minha bisavó virou estrelinha e me olha todo dia pela janela". Certamente, ela e meu avô estão juntos, olhando por nós.
Jordanna Vergnes, neta, é advogada
Post Scriptum:
O livro "Betina", de Conceição Carvalho, lançado em 31 de julho de 2025, é dedicado, in memoriam, entre outras pessoas, a Marie Laurette Vergnes - sage femme e enfermeira - pelas três mil vidas que vieram ao mundo por suas mãos, menos no Hospital Dão Pedro de Alcântara e incontáveis atendimentos domicilares.