Assim
era Jorge Amado quando morou em Estância
Por Carlos Modesto
Por haver escrito livros mostrando a maneira cruel como os coronéis do
cacau enriqueceram em Ilhéus e Itabuna, no Sul da Bahia, protegidos
pelas espingardas e pistolas dos seus capangas para conquistarem as
terras férteis para o plantio do cacaueiro; por defender os
trabalhadores rurais, vítimas da ferocidade dos donos da terra, e
por ser simpatizante da ideologia da Aliança Nacional Libertadora
(ANL), o escritor baiano Jorge Amado tornou-se vigiado pela polícia.
Assim, seus amigos os aconselharam a afastar-se do Rio de Janeiro para
ficar a salvo da arbitrariedade do governo Vargas. O escritor logo
pensou em ir para a região Sul, no entanto, seu pai João Amado,
filho da Estância-SE., dissuadiu-o de tal pensamento e o convenceu a
abrigar-se no calor da terra dos seus ancestrais, chegando na
Estância no ano de 1936.
Nesta
cidade, passou quase um ano morando no Vitória Hotel, de Juca Nunes,
jogando pôquer por noites inteiras com os amigos Tota, João Lima da
Silveira (Capitão ou Kpitão, como assinava) e Osmar o criador do "Jornal Falado",
impresso na extinta Casa Inglesa, brilhante empreendimento literário
cujas crônicas notáveis eram censuradas por alguns e fartamente
elogiadas pela maioria.
Colaborou
com esse jornal a nata intelectual da Estância: João Nascimento
Filho, Manoel Rodrigues do Nascimento (Nhô Galo), Ribeiro de
Mesquita, João Lima da Silveira, Ernâni Prata e Armando Pacífico
Guerra, todos eles estudados por Jorge Amado e transportados para os
seus livros com fidelidade surpreendente. Os dois primeiros da lista
acima são "João Fulgêncio" e o "Nhô Galo" do romance "Gabriela".
Os demais figuram em "Terra Sem Fim", como
também outros estancianos dos quais seus romances estão cheios - Dr. Jessé Fontes, Tota, Zéca Tripa e até Zinho, o trampolineiro.
Em
março de 1937, Jorge Amado despede-se da Estância através de uma
nota publicada no semanário "A
Razão" e parte com
destino a Salvador, Rio de Janeiro, e depois passa a excursionar pelo
nosso continente, onde dessa viagem, nos fala na série de artigos "Rondas das Américas".
Segunda
visita de Jorge Amado a Estância
Na
data de 23 de junho de 1938, tornou a voltar ao nosso convívio,
exatamente na véspera das festividades de São João, ficando
deslumbrado com as fogueiras acesas no meio das ruas, de tal modo
que, no ano seguinte, encantou os estancianos com uma sensacional
Corrida da Fogueira. Logo que chegou, pretendia ficar por mais tempo
que a vez anterior, então alugou uma casa na Rua Jackson de
Figueiredo e ali escreveu "Capitães de Areia". Nessa
casa, considerada mal assombrada por muitos, só tinha de
sobrenatural a fama que o romancista lhe dera.
Maior
e mais intensiva do que a primeira estadia, a situação sócio
intelectual de Jorge Amado. Nesta segunda permanência na Estância,
fê-lo credor do afeto e admiração de seu povo. Continuou
colaborando com o "Jornal
Falado", fez a Festa
do Livro em benefício da Biblioteca Monsenhor Silveira, que
funcionava na Casa Inglesa (minha mãe Helena contava sempre, que foi
muitas vezes ali pedir livros emprestados), realizou concursos de
beleza e o inesquecível réveillon no Grupo Escolar Gumercindo
Bessa, acompanhado de uma encenação da peça "Sonho
de uma noite de verão".
A escola foi transformada, internamente, no cenário de uma das ruas
de Salvador. Nas extremidades, as orquestras da União Têxtil,
pertencente a Fábrica Senhor do Bonfim, e a de Nonô da Lira
embalavam a representação. A exibição cênica foi um fracasso
financeiro. A renda não cobriu as despesas, e os promotores tiveram
prejuízo. Para cobrir o déficit, a solução encontrada foi montar
pela primeira vez na Estância, no Cineteatro
São João, uma
magnífica revista musical de tema local, intitulada "A
célebre Papelaria Modelo",
texto escrito por Jorge Amado, com um resultado financeiro pífio,
revelando outra vez, que o escritor na época, não era tão bom em
empreendimentos financeiros.
Mas
Jorge Amado não se deu por vencido e insistiu, mais uma vez, no
palco do mesmo cinema, pertencente ao seu amigo Diógenes Freire
Costa, em por em cena "Alô,
Alô Estância",
peça muito mais simples e despretensiosa, utilizando quase
integralmente o mesmo elenco anterior foi um verdadeiro sucesso. Com
o dinheiro apurado nesta última representação, foram saldadas as
dívidas existentes.
O
romancista declarou seu amor por Estância, escrevendo para a revista "Carioca",
edição de 1938 na coluna "Coisas
e aspectos do Brasil",
a matéria "Estância,
cidade de paz e alegria",
contando de uma maneira leve e romântica coisas da nossa cidade.
Nessa
mesma época, ele também escrevia para o jornal "A
Razão" e uma de
suas matérias, publicada nesse hebdomadário sob o título "As
crianças estão morrendo",
foi um grito de alerta que promoveu o movimento oficial para a
construção da Casa da Criança, o primeiro lactário do Brasil, sob
a orientação do Departamento Nacional da Criança.
A
Casa da Criança foi construída na gestão do então intendente
Leopoldo de Araújo Souza, em 1939, com a finalidade específica de
distribuir leite pasteurizado de primeira qualidade às crianças. A
casa mantinha uma nutricionista para promoção de palestras e cursos
de puericultura, resultando daí a redução da mortalidade infantil.
Como complemento dessa instituição láctica, foi instalado, nos
fundos, um parque infantil, com escorrego, gangorras, argolas,
trapézio e outras coisas. Ali, por morar na frente desse paraíso de
entretenimento, quando era criança, deliciei-me, brincando e fazendo
muitas travessuras, recordando-me dele com bastantes saudades e
carinho.
Jorge
Amado nunca esqueceu Estância, Algumas vezes a visitava para rever
os amigos que aqui deixara, entre estes, o criador da Papelaria
Modelo, João Nascimento Filho. Na verdade, para o romancista baiano,
esta cidade representou para ele momentos apaziguantes, que o fizera
esquecer das angustiantes dúvidas do que seria o seu futuro ante a
ditadura Vargas.
Para
quem não sabe, fica agora sabendo, que o famoso escritor morou duas
vezes na nossa cidade, deixando entre nós lembranças maravilhosas.
Cujas palavras marcantes escritas induziram a criação da Casa da
Criança, uma instituição láctea, promoveu a Festa do Livro,
transformou amigos em personagens dos seus livros, levando para longe
o reconhecimento do nome da Estância.
Carlos Modesto é cinéfilo e membro da Academia de Letras e Artes de Salvador