Por Carlos
Modesto
[
Conforme o livro do médico psiquiatra baiano, Dr. José Pinto de Queiroz Filho, em uma das páginas da sua importante obra, "Data Prévia - Encéfalo o Criador de Tudo", cita o seguinte texto sobre o seu copidesque, o escritor/memorialista sergipano, Carlos Modesto
"Para comprovar a
afirmação de que somos o produto de tudo que nos antecedeu iremos
descrever dois exemplos que confirmam a importância de que somos,
sim, o produto dos eventos passados e ao mesmo tempo aproveitamos
para fazer uma constatação de duas diferente biografias que
demonstram o viés do passado e do presente - que significa
tendência, influência, espécie de vetor direcional. O primeiro
exemplo, se refere ao coautor deste livro, Carlos Modesto (1942) e o
impacto do cinema em sua vida como veremos a seguir conforme o seu
próprio relato:
Nasci no pequeno munícipio
do Sul sergipano, Estância. Com quatro anos de idade, pela primeira
vez num domingo, fui levado por minha madrinha a um dos cinemas dessa
cidade para assistir uma matinê. Dentro do salão estranhei tudo
imediatamente, vendo as algazarras das crianças, adolescentes e
adultos conversando e rindo. Certo tempo depois, começou o ritual da
projeção: olhei para à frente do palco, vi as trocas das cores das
luzes, ouvi o rufar de três batidas de um tambor, enquanto a cortina
se abria naquele ambiente brumoso. Fiquei bastante curioso e
fascinado vendo a tela prateada mostrando as primeiras imagens em
preto e branco do cinejornal cinematográfico. Embasbacado, por
aquele momento mágico vi o complemento, o desenho animado e o
trailer do próximo filme a ser visto no outro domingo. Tudo isso ia
rolando ante meus olhos. Mas com a continuidade, o filme principal da
tarde surgiu - com aquelas belíssimas imagens coloridas - que me
encantaram e hipnotizaram-me para sempre. Que maravilha! Assim nasceu
o amor pela primeira projeção cinematográfica. A partir daí,
implorava sempre pra minha mãe deixar eu ir todas as semanas ao
Cineteatro Gonçalo
Prado.
A magia dos fotogramas ficou
latente em meu sensório, meus pensamentos, então, passaram,
exclusivamente, levar da tela para casa as cenas dos filmes que
assistia, e sonhar com elas todas as noites. Fui motivado ainda mais,
através das revistas de cinema, que minha mãe Helena habitualmente
comprava semanalmente, e trazia para casa para ler e comentar com
suas amigas estancianas, que a visitavam. Essas avaliações
cinematográficas me interessavam bastante. Ouvia as fofocas sobre os
artistas da época, bate-papo que me encantava, ampliando o meu
conhecimento sobre a sétima arte. As fotografias dos artistas e das
cenas dos filmes que via nos magazines especializados, principalmente "A Cena Muda", e nos cartazes expostos nas duas casas de
projeções da minha cidade: Cineteatro
São João e o já
citado Gonçalo
Prado, me seduziam
profundamente.
Fui crescendo vendo as
revistas de quadrinhos e as matinês, que não perdia um domingo
sequer. Aprendi a ler e assim ganhei maior cognição, onde procurei
ampliar com esse atributo, mais afinidade com a história da arte que
tanto idolatrava. Tive a sorte de ser uma criança filho de um pai
rico, possuindo bicicleta e tudo de que um menino dessa classe
privilegiada precisava para viver condignamente. Meus folguedos
infantis eram mais direcionados para a fantasia de viver o cinema,
brincando nas ruas da minha cidade natal de "cowboy",
transformando em imaginação, uma vassoura em cavalo e um pedaço de
madeira num revólver.
Procurei criar alguns
projetores caseiro com a minha criatividade infantil sonhadora.
Comecei aproveitando como iluminação para a projeção das fitas
cinematográficas, as réstias do brilho solar enviado pelos cantos
das telhas, depois passei a usar a luz de vela, lamparina de
carbureto, lanterna de mão movida a pilha até o ápice da lâmpada
elétrica. Usava uma caixa de sapatos para essas experiências, como
se as mesmas fossem réplicas do cinematógrafo dos irmãos Lumière.
Utilizei muitas vezes como lente de projeção uma lâmpada comum
incolor, de onde com cuidado, retirava o bocal e a enchia de água.
Eu não encontrei brinquedo mais fascinante durante minha vida
infantil do que meus projetores domésticos.
Tudo relacionado ao cinema
passou a ser parte do meu cotidiano. No Cineteatro
São João via
todos os filmes exibidos nas terças e quartas-feiras à noite. Eram
filmes densos e proibidos para crianças da minha idade, mas entrava
consentido pelo dono desse cinema, o Sr. Diógenes Freire Costa, que
era amigo do meu pai Josias. E, assim, essa casa de projeção passou
a ser o meu arauto cultural, possibilitando uma ampliação pela
minha paixão pelas imagens em movimento, fazendo-me conhecer as mais
belas películas de outros países, além das dos americanos. Adorava
os filmes musicais, os históricos, os dramáticos, "noir", os
galopantes faroestes e os empolgantes seriados da era dourada da tela
prateada.
Em 1952, com dez anos de
idade, devido a falência sofrida pelo meu pai Josias, no seu negócio
comercial, parti com a família para viver proletariamente na Bahia,
na cidade do Salvador. Ali encontrei o ambiente propício para
aumentar os meus conhecimentos de cinéfilo. Percorri todos seus
inúmeros palácios de projeção distribuídos no centro e pela
periferia da cidade. Trabalhei em vários empregos até os 17 anos de
idade em Salvador.
Depois, com essa idade, fui
viver na "Cidade Maravilhosa" do Rio de janeiro, naquele momento
ela ainda era a capital do Brasil (1959). Já anteriormente
influenciado pelo modo do viver opulento do povo americano mostrado
nos filmes de Hollywood, fui seduzido, fazendo-me ter uma vontade
ferrenha de um dia lá viver, mas o destino não permitiu eu realizar
este angustiado anseio. Tentei muitas coisas para ir viver na
América, mas tudo não passou de um sonho irrealizável. No Rio de
Janeiro tive a grande oportunidade de conhecer seus teatros e os
inumeráveis templos de projeção cinematográfica, onde neles tive
a grande oportunidade de conviver pessoalmente com astros e estrelas
do cinema internacional, quando das suas visitas a esses cinemas
durante o lançamento dos seus filmes, como por exemplo: os
americanos John Gavin e Charlton Heston, os franceses Paul Guerry e
Marie Laforet, entre outros.
Quatro anos depois retornei à
Bahia, trabalhei em alguns empregos diversos, casei-me e introduzi-me
na técnica de fotografia e cinema, iniciando minha carreira
profissional como fotógrafo/cinegrafista, tornando-me bastante
conhecido na sociedade soteropolitana. Nos anos de 1970, com o
advento dos filmes Super 8, eu e alguns amigos criamos o Grupo Baiano de Cinema (Grubacin) e na década de 1990 associei-me ao
neuropsiquiatra baiano Dr. José Pinto de Queiroz e criamos uma
revista nostálgica de cinema denominada "Portal Zine". Continuei
com o meu trabalho de fotógrafo/cinegrafista até o momento da minha
aposentadoria. Essas duas profissões proporcionaram-me o prazer de
conhecer pessoas de relevo da capital baiana, adquiri grandes amigos
médicos e advogados, fotografei dezenas de artistas do cinema
nacional e internacional. Viajei para inúmeras cidades do Brasil e
conheci nos Estados Unidos da América, a Flórida, visitando Miami,
Orlando e outros locais desse Estado. Depois da minha inatividade
profissional passei a escrever livros com temas relacionados à sétima
arte. Fui agraciado como membro da Academia de Letras e Artes
da Bahia (Alas). Na verdade, o cinema foi o principal responsável pelo meu
sucesso na vida, graças a ele a minha carreira tomou um impulso sem
precedentes através de uma maneira cativante e marcante, tornando
aquele modesto sergipano, nascido naquela pequenina cidadezinha da
Estância, ter obtido quase 100% dos seus anseios realizados. Felizes
daqueles, que durante a vida conseguem concretizar a maioria dos seus
sonhos."