A ditadura cubana está por um fio. Uma boa notícia para os ilhéus, mas nem tanto para os ativistas que olham para Cuba como se ela não passasse de um charuto.
Por Paulo Nogueira para o Observador:
Em 1978, o compositor e cantor brasileiro Chico Buarque de Holanda foi a Havana pela primeira vez. Na volta, detido no aeroporto do Rio de Janeiro, foi interrogado pela Polícia Federal sobre a viagem durante dez horas. 50 anos mais tarde, muita coisa mudou no mundo, mas não Chico Buarque, que este mês peregrinou de novo à ilha da rumba e do daiquiri.
O Brasil já não vive sob uma ditadura militar de direita, mas sob um governo de esquerda que nutre pela ditadura cubana de partido único (que já dura 67 anos) uma paixão enternecida. A Música Popular Brasileira (MPB), outrora uma das mais requintadas do planeta, vai de mal a pior, usurpada pelos excrementícios "sertanejos" (pastiche do pior "country") e funks (volta e meia misóginos e ligados a facções criminosas). O nome mais proeminente da MPB hoje é Annita, que está para Elis Regina, Gal Costa ou Maria Bethânia como Paulo Coelho está para Machado de Assis.
O próprio Chico, autor de 537 canções registadas, várias de um lirismo esplêndido, agora é sobretudo ficcionista: sete romances (que não são a minha praia), e prêmio Camões em 2019. Apesar disso, fiel a Fidel, nunca deu um pio sobre os seus pares escritores que Havana oprimiu, como Herberto Padilla (forçado a uma degradante "confissão pública"), José Lezama Lima, Reinaldo Arenas (suicidou-se no exílio aos 47 anos) e Guillermo Cabrera Infante, como tantos outros "apagados" da história literária cubana no melhor estilo estalinista.
Como Fidel rugia nos seus paquidérmicos discursos (o mais longo dos quais, em 24 de fevereiro de 1998, durou 7 horas e 15 minutos): "Dentro da Revolução, tudo; contra a Revolução, nada!" É uma boa definição de totalitarismo. Artistas e ideólogos estrangeiros, deferentes e performáticos, reverenciavam o Presidente, o Primeiro-Ministro e o Ministro da Reforma Agrária (ou seja: Fidel). É que Cuba não é um país de verdade, mas um palco e um cenário - e os turistas da Revolução não são testemunhas, mas voyeurs. Há dias, Chico Buarque exumou as bocas do costume contra o imperialismo ianque, a desfilar pelo Malecón num descapotável cor de flamingo.
O Muro de Berlim caiu de podre, mas Cuba continua a ser a Disneylândia da esquerda. Quem precisa de liberdade (incluindo a de expressão), democracia ou prosperidade, quando tem o mefistofélico "embargo" como bode expiatório? Em 1960, Sartre foi a Havana beijar a mão de Che Guevara, que descreveu como "o ser humano mais completo da nossa época". Bem, essa apoteose humana dava ordens para fuzilamentos sumários ("paredón") na prisão de La Cabaña, e criou o primeiro campo de concentração cubano, o de Guanahacabibes, cuja divisa era "O trabalho faz homens", que lembra a frase sádica na entrada de Auschwitz.
Guevara morreu na Bolívia há 59 anos – logo, não pode ser responsabilizado por todas 7.335 mortes atribuídas ao regime castrista desde 1959 até hoje (nem pelos atuais 2000 presos políticos). E o Che só deu o pontapé de saída dos campos de trabalhos forçados – servidão que já ditou três condenações na ONU, quatro no Parlamento Europeu e miríades da Human Rights Watch.
Em 1967, o bilionário editor italiano Giangiacomo Feltrinelli voou para La Paz com uma mala de dinheiro para resgatar o Che (e, de brinde, Regis Debray). Falhou, mas continuou a financiar radicais no mundo inteiro, até ir ele próprio pelos ares quando punha uma bomba em Milão, em 1972, para sabotar a rede de eletricidade – os "apagões" de que os cubanos agora sofrem.
Dois anos depois, Roland Barthes, Julia Kristeva e Philippe Sollers, finíssimos intelectuais parisienses, foram à China apaparicar Mao, em plena Revolução Cultural, que ceifava milhares de professores, autores e artistas. Já durante o Maio de 1968, em Paris, filósofos e meninos maus das boas famílias tinham celebrado "a imaginação ao poder", e se marimbado para o outro lado da Cortina de Ferro, onde os tanques do Pacto de Varsóvia espezinhavam a Primavera de Praga. Nos anos 1970, Noam Chomsky defendeu Pol Pot, que em 4 anos conseguiu exterminar um quarto da população do Camboja. Em 1979, em Teerão, Michel Foucault cobriu o aiatolá Khomeini de piropos e gabou a "espiritualidade política" do teocrata, que dez anos depois condenaria à morte Salman Rushdie por ter escrito… um romance.
Hoje quem está a salivar pela ilha do Caribe é Trump, que ronronou no Salão Oval: "Acredito que terei a honra de libertar Cuba." (Isso foi antes da embrulhada no Irão.) O Secretário de Estado americano, Marco Rubio, é filho de cubanos. Havana fica a mão de semear de Miami: 150 kms (uma horita de voo), distância que Diana Nyad (Annette Bening no bom biopic da Netflix) percorreu a nado em 2013, aos 64 anos, em 53 horas.
Com o fim da URRS, que era uma espécie de multibanco de Fidel, o PIB de Cuba mirrou pela metade na década de 1990. Fidel não se fez de esquisito: legalizou o dólar e uns laivos de iniciativa privada, e tolerou incentivos ao turismo, que desprezava. Não bastou. Em 1994 manifestantes refilaram no Malecón. Naquela noite El Comandante anunciou na TV que qualquer um que quisesse deixar Cuba já ia tarde. Foi um deus nos acuda. Em 3 semanas, 40 mil cubanos precipitaram-se ao mar como tartaruguinhas recém-nascidas, rumo à Flórida. Famílias inteiras empilhadas em jangadas coladas com cuspo. Centenas afogaram-se ou foram devorados por tubarões.
A crise em Cuba só deu um niquinho de sossego com a eleição de Hugo Chávez na Venezuela, em 1998. Chávez fornecia petróleo, Cuba retribuía com médicos, professores, instrutores desportivos e agentes de segurança. Após a morte de Chávez em 2013, Maduro (que jura ter visto o mentor depois de morto, na forma de um pássaro que visitou-o e assobiou, talvez "El Condor Passa") continuou a enviar petróleo para Cuba. Porém, cada vez menos (desde 2025 o principal fornecedor cubano é o México), devido a pane da economia venezuelana – hoje, 9 milhões de venezuelanos vivem fora do país.
O roto já não pode socorrer o nu. Com Maduro a ver o sol aos quadradinhos, a sua sucessora, Delcy Rodríguez, fechou a torneira para Cuba. E a Rússia limita-se a recrutar soldados cubanos: há milhares deles a combater a Ucrânia, atraídos por US$ 3.000 mensais. Enfim, para variar Cuba está com uma mão à frente e outra atrás, numa crise talvez terminal.
O apagão de outubro de 2024, que deixou o país inteiro no escuro por dias a fio, foi só o início de uma série de encrencas energéticas, facilitadas pela infraestrutura da idade da pedra. Há quase um ano e meio os cubanos habituaram-se a ter eletricidade só algumas horas por dia. As companhias aéreas restringiram ou suspenderam os voos para a ilha, pois os aviões não conseguem reabastecer. Os turistas sumiram do mapa.
Na semana passada, os EUA permitiram que um petroleiro russo desembarcasse 730 mil barris de petróleo em Cuba, que produz só 40% do óleo necessário para sua rede elétrica. Emissários norte-americanos em Havana propuseram levar à ilha a Internet via satélite Starlink, de Elon Musk, e viabilizar a conexão à borla.
Entre 2021 e 2024, Cuba perdeu bem mais de 15% de sua população (1 em cada 5 cubanos pirou-se para os Estados Unidos, Espanha ou México). Uma sangria agravada por uma das menores taxas de natalidade da América Latina (cerca de 1,3 filhos por mulher) e uma população que envelhece a galope: 23% dos cubanos têm mais de 60 anos. Pelo menos, à gerontocracia cubana não faltam hierarcas.
O sistema de saúde pena com a escassez de medicamentos, insumos básicos e pessoal. Hospitais não têm antibióticos, analgésicos e equipamentos cirúrgicos, e milhares de médicos emigraram. A anedota de humor negro local é de que os doutores aconselham aos doentes: "Morra que passa!"
Havana está às moscas, por causa do lixo acumulado nas ruas e porque não consegue manter o transporte público a circular. O governo decretou o trabalho remoto, e as universidades operam virtualmente (quando há luz). Nas poucas bombas de gasolina em funcionamento, os carros vegetam em filas de até 26 horas.
Quem manda em Cuba hoje? Díaz-Canel é o Presidente desde 2018, o primeiro em 6 décadas que não é da família Castro. Quando "candidatou-se", a campanha semeou cartazes com fotos dele e dos irmãos Castro – e o slogan "Continuidade". Foi escolhido a dedo por Raúl Castro, que aos 94 anos continua a mandar, apesar de oficialmente reformado. E há Castros novinhos em folha, quem sabe para uma dinastia tipo Kim na Coreia do Norte. Óscar Pérez-Oliva Fraga, sobrinho-neto de Fidel e Raul, anunciou outro dia uma ruptura mirabolante: pela primeira vez desde 1959 os exilados cubanos foram autorizados a ter empresas e a investir em Cuba (a lógica dadaísta do Comunismo…).
Trump tem falado com Raúl Guillermo Castro, neto do matusalémico Raúl, "influencer" no Instagram e notório pela ostentação de riqueza. Quando Diaz-Canel divulgou as conversas com Trump, Raúlito pavoneou-se na TV estatal, repimpado com o mais alto escalão do regime.
O único filho de Raúl, Alejandro Castro, também mete o nariz – em 2014, liderou a delegação cubana nas negociações secretas com Obama, que resultaram num fugaz degelo. Em março de 2016, Obama foi o primeiro presidente dos EUA a visitar Cuba desde Calvin Coolidge, em 1928.
Longe de aproveitar aquela abertura para reformas políticas imprescindíveis, Havana usou o alívio das sanções e a normalização diplomática para endurecer ainda mais o regime, empurrando com a barriga qualquer mudança estrutural. Aliás, o principal efeito prático do embargo americano foi dar um álibi à ditadura comunista. Inúmeros estudos independentes atestam que as sanções foram responsável por uma parcela insignificante (menos de 1/10) da perda dos rendimentos cubanos desde a Revolução. E nunca houve embargo europeu – até o fim da vida (1965), Churchill continuou a fumar os seus charutos Romeo Y Julieta. Ainda hoje a Europa é o maior mercado de exportação de Cuba (seguida da China). Com o rançoso estatismo burocrático depois de 1959, o PIB per capita cubano, antes da Revolução 80% maior que a média da América Latina (Cuba tinha a quarta maior economia da região), caiu para abaixo da média regional.
Nos anos 1950, havia mais cubanos de férias nos EUA que americanos de férias em Cuba. A classe média cubana era uma consumidora tão importante que as lojas da Califórnia, de NY e da Flórida anunciavam promoções nos jornais de Havana. Os cubanos tinham mais aparelhos de TV, telefones e jornais per capita que qualquer outra nação da América Latina. E eram mais escolarizados, com 1.700 escolas privadas e 22 mil públicas. O país dedicava 23% de seu orçamento à educação – de matar de inveja muitos escandinavos contemporâneos.
Com a Revolução, em vez de elevar os pobres, os Castros empurraram os ricos e a classe média para baixo. E com o fim da URRS, foi o prego no caixão. A produção de açúcar, que sustentava a economia, caiu de 8 milhões de toneladas em 1989 para 200 mil toneladas em 2025. Em 1958, os cubanos consumiam em média 2700 calorias por dia, um dos valores mais altos das Américas. Em 2023, o consumo foi de menos de 1900 calorias.
Enquanto Lula chegava a Portugal, Brasil, México e Espanha divulgaram uma nota conjunta (e protocolar) de "apoio à soberania de Havana". Não é de hoje que os governos brasileiros do PT têm sido mais do que uma mãe para Cuba. Em 2014, a presidente Dilma Rousseff inaugurou o porto cubano de Mariel. O banco estatal brasileiro BNDES pagou 70% das obras, executada pela Odebrecht, a principal empresa no escândalo do Petrolão. O prazo do "empréstimo" era de 25 anos, o mais longo da história do BNDS. Parece piada, mas o governo petista aceitou como garantia as receitas de Cuba com a venda de charutos. Só que aquela cifra é controlada sigilosamente pela ditadura cubana, e as autoridades brasileiras jamais fizeram a menor ideia dela – e até agora não viram nem um tostãozinho para o Santo António.
O que não impediu que o BNDS torrasse mais uma pipa de massa com os Castros: a modernização do Aeroporto Internacional José Martí, em Havana, e de aeroportos regionais em Santa Clara, Holguín, Cayo Coco e Cayo Largo. E a construção de uma fábrica de soros e equipamentos de hemodiálise. De novo, as construtoras brasileiras receberam à pronto do BNDES, que engoliu o barrete dos caloteiros (quem paga a fava é o contribuinte brasuca).
Em 2013, Dilma lançou o programa "Mais Médicos", para levar médicos cubanos a regiões brasileiras carentes. O Brasil pagava à Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que transferia os valores a Cuba. O regime abotoava-se com o pilim, e os doutores recebiam uma esmolinha. Inúmeros médicos desertaram e processaram a OPAS nos EUA, acusando-a de envolvimento em trabalho escravo.
Em 2012, foi aprovada no Congresso brasileiro a Lei de Acesso à Informação. Mas o Governo pôs sob sigilo os documentos dos financiamentos a Cuba e a Angola. A desculpinha era técnica: proteger "informações estratégicas". Contratos principescos pagos com dinheiro público foram blindados por até 15 anos.
Lula, em 2023, jurou de pés juntos que "Cuba é boa pagadora". A ditadura é mais sincera: em reunião com o Ministério da Economia brasileiro, representantes de Havana avisaram que estão sem cheta. Em 2023, a dívida vencida era de US$ 671,7 milhões. Com as parcelas a vencer, o total chega hoje US$ 1,1 mil milhões.
Há aquela expressão idiot savant (idiota sábio), que descrevia (foi cancelada por capacitismo) alguém com dificuldades de aprendizagem, mas genial nalguma área, como matemática ou música. Desconfio que há também os sábios idiotas, inteligentes e cultos mas que em política não dão uma para a caixa. Uma clássica sábia-idiota foi a ensaísta americana Susan Sontag, que vociferou : "A raça branca é o cancro da humanidade!" Em 2001, ainda os corpos esfacelados e calcinados de 2753 vítimas de 90 nacionalidades nas Torres Gémeas não tinham sequer arrefecido, Sontag assinava um artigo na "New Yorker": "Onde está o reconhecimento de que isso não foi uma agressão cobarde à civilização e à liberdade, mas contra uma superpotência global?" Traduzindo: que nenhum inocente fique impune.
Numa recente manif em Havana, com 60 VIP globais – como o ex-líder trabalhista britânico Jeremy Corbin e a banda irlandesa Kneecap, cujo nome é uma das formas mais cruéis de tortura do IRA – , os convidados hospedaram-se no suntuoso hotel Royalton, que tem geradores e cuja diária é de 400 euros (10 vezes o ordenado médio do país, 7 mil pesos cubanos ou 247 euros).
A ditadura militar brasileira, que acabou em 1985, cunhou o patriótico lema "Brasil: Ame-o ou Deixe-o!" Ao que os gaiatos replicaram: "O último a sair que apague a luz". Sob a ditadura cubana, a luz já quase não acende, com o obscurantismo dos pseudo-iluministas. Entretanto, em Paris, Chico Buarque é o feliz proprietário de uma casa na mais aristocrática e exclusiva área da Cidade Luz: a ilha de Saint Louis. É que há ilhas e ilhas.
Fonte: https://otambosi.blogspot.com/