Ele fotografou Feira de Santana em "Grito da Terra" e "O Pistoleiro"
Leonardo Bartucci na época em que esteve em Feira de Santana e atualmente (Fotos: Instagram)
Feira de Santana recebeu nos idos de 1964, há 62 anos, o italiano de Roma radicado no Brasil, Leonardo Bartucci, então com 33 anos. Ele foi o diretor de fotografia e operador de câmera em seu primeiro trabalho como fotógrafo em cinema num filme de longametragem: "Grito de Terra", de Olney São Paulo.
Neste mês de agosto, quando o cineasta Olney São Paulo faria 90 anos, no dia 9, se estivesse vivo, muitas homenagens foram e estão sendo feitas para ele, em Feira de Santana e em sua terra natal, Riachão do Jacuípe.
Com a lembrança de Leonardo Bartucci, Instagram, Facebook, Messenger facilitaram o contato entre o jornalista e a fonte.
No encontro inicial, pelo Messenger - que ele não costuma ter acesso -, a solicitação para um depoimento sobre o trabalho com Olney São Paulo.
Para Bartucci, "uma surpresa muito boa, saber que você está resgatando a memória de Olney."
- Infelizmente, não achei as fotos que tinha daquela época - lamentou e se dispôs a dar depoimento. "Apesar dos meus 95 anos, a memória ainda funciona", revelou.
Leonardo Bartucci inicia: "Falar de Olney, não existem palavras de quanto eu o estimava, pela sua inteligência e sinceridade no tratar dos grandes problemas do Brasil. A gente ficava várias horas falando sobre tudo. Inúmeras noites passadas em frente ao bar da Líder Cine, único laboratório do Rio de Janeiro, reduto do movimento do Cinema Novo, onde se encontrava todo mundo do cinema. Conversava com Olney tomando a nossa caipirinha."
"Tocávamos o filme por música"
Diz mais: "Foi conversando da fotografia do primeiro filme dele, que foi o meu também, eu achava que ainda não estava pronto, apesar que já tinha filmado vários documentários em preto & branco. Foi um trabalho lindo, apesar de vários problemas com os atores. Olney e eu tocávamos o filme por música. Foi uma pena que os nossos caminhos não se cruzaram nunca mais."
Finalizando a fala sobre Olney, Bartucci, "com muita saudade de Olney", declarou: "Estou muito emocionado com as lembranças que você, Dimas, está me proporcionando e, não sabe da minha admiração e respeito que tinha e tenho do meu querido amigo."
Um pouco sobre "O Pistoleiro"
Ele disse não ter muitas lembranças sobre o filme "O Pistoleiro", também com locações em Feira de Santana. "Meu relacionamento com o Oscar Santana foi estritamente profissional, tivemos uma boa relação durante as filmagens. Oscar estava muito focado na direção e não dava muita atenção aos atores, que eram todos globais, função que eu assumi, além da fotografia. Fiquei muito amigo dos atores, especialmente Rui Rezende e João Carlos Barroso, e continuamos amigos. Tentei lembrar de mais alguma coisa e não consegui", contou.
No mesmo ano de 1964, foi diretor de fotografia do curtametragem "Brasília: Planejamento Urbano", de Fernando Coni Campos.
Antes, atuou como assistente de som em "Pega Ladrão", de Alberto Pieralisi, 1957; assistente de câmera (de Hélio Silva), não creditado, em "Mandacaru Vermelho", de Nelson Pereira dos Santos, 1961, e decorador de cenário em "O Quinto Poder"de Alberto Pieralisi, 1962.
Em 1969, Bartucci foi diretor de fotografia do drama "Um Homem É Sua Jaula", de de Fernando Coni Campos e Paulo Gil Soares, baseado no romance "Matéria de Memória", de Carlos Heitor Cony; dos documentários "Jornal do Sertão", de Geraldo Sarno, e "Pirenópolis, o Divino e as Máscaras", de Lyonel Lucini; e do curta "Fragmento de Dois Escritores", documentário de João Bethancourt, com conversações de Edward Albee e Nelson Rodrigues.
Outro curtametragem teve Leonardo Bartucci como diretor de fotografia. Foi "O Tempo e o Som", de Walter Lima Júnior, em 1970, sobre a Bossa Nova. Também em 1970, o trabalho como diretor de fotografia na comédia "Minha Namorada", de Armando Costa e Zeliro Viana, e no drama "Em Busca do Su$exo", de Roberto Pires, onde também foi produtor.
Em 1971, mais dois trabalhos: no drama romântico "Romualdo e Juliana", de André Wilième, e na comédia "O Barão Otelo no Barato dos Milhões", de Miguel Borges.
O drama "Na Boca da Noite", de Walter Lima Júnior, baseado na peça "O Assalto", de José Vicente, foi o trabalho em 1972.
Em 1974, trabalhou no drama "Amor & Medo", de José Rubens Siqueira, um filme que teve suas cópias perdidas.
Em 1975, Bartucci foi diretor de fotografia dos dramas "Close Up: Um Dia na Vida", de José Rubens Siqueira, e "Intimidade", de Perry Salles e Michael Sarne.
No ano seguinte, 1976, ele foi muito profícuo, trabalhando no curta "E o Mundo Era Muito Maior Que a Minha Casa", documentário de Eunice Gutman; e nos longas "O Pai do Povo", comédia de Jô Soares, comédia "Tangarella, Tanga de Cristal", de Lula Campelo Torres, e no filme de ação "O Pistoleiro", de Oscar Santana, quando voltou a Feira de Santana para fotografar um filme.
Em 1979, dirigiu e fotografou o drama "Um Certo Manuelzão".
Em 1982, a vez de dirigir o documentário "Via Crucis".
Em 1994, o último trabalho no cinema, fotografando o episodio "Samba do Grande Amor" da comédia musical "Veja Esta Canção", de Carlos Diegues e José Tadeu.
Bartucci também trabalhou na televisão, sendo diretor de fotografia das séries "Confissões de Adolescente", um capítulo em 1994; "Riscos", entre 1997 e 1998; "Anjo Mau", 173 capítulos em 1997 e 1998; mais 201 capítulos em "Torre de Babel", em 1998 e 1999.
Leonardo Bartucci, mesmo com 95 anos, ainda atua como free-lancer. Mora no Rio de Janeiro-RJ, é sócio emérito da Associação Brasileira de Cinematografia. É casado com a maquiadora Edna Soares Bartucci.
No Instagram, a esposa postou um dia: "Nove decadas de Leonardo Bartucci. Sim, mais de 90 anos de olhos apaixonantes que viram de perto os mais importantes fatos históricos das ultimas décadas, de Segunda Guerra Mundial à Covid conseguimos, juntos, ter a melhor familia do mundo que poderiamos ter. O diretor de fotografia que transformou de Brasil, Arte. Obrigada por tanta sabedoria, obrigada por ter sido o pai mais presente do mundo e obrigada por essa energia que trouxe a gente tao longe, como ser humanos, como profissionais e como estudantes. Te amamos ao infinito e além! Feliz dia Leo, de seus filhotes e esposa."