Milton Gaucho e Luiza Maranhão em "A Grande Feira"
Milton Gaucho (C) com Othon Bastos mais Leonardo Villar e Glória Menezes em "O Pagador de Promessas"
Por Carlos ModestoMilton Magalhães, melhor
conhecido como Milton Gaúcho, entrou para o cinema trabalhando no
primeiro filme genuinamente sonoro baiano "Redenção",
dirigido por
Roberto Pires, em 1957. Na época, Milton Gaúcho era bancário e foi
levado para fazer parte do elenco do citado filme pelo ator
radiofônico e de teatro Fred Júnior, que era seu amigo. Mas existe
outra versão, contada pelo cineasta Oscar Santana, criador junto a
Roberto Pires, da empresa cinematográfica Iglú Filmes, que foi ele
que levou o Milton Gáucho para fazer o papel de delegado nesse
filme.
Na verdade, Gaúcho já tinha
conhecimento e certa prática da arte da interpretação, pois, no
ano de 1941 do século passado, ele já tinha feito um debut
como ator teatral
no palco do Cineteatro
Guarani, com a peça "Isto É Amor",
da Cia. de Comédias Gilberto Guimarães.
No cinema, o eclético Milton
participou de quase todas as produções tupiniquins e de algumas
estrangeiras que por aqui passavam. Foi o fascínio da câmara
cinematográfica que lhe seduziu a alma. Apaixonou-se pelo ambiente
de fantasia do mundo de celuloide, que continuou latente até o fim
da sua vida.
Personificando um delegado que
investiga um homicida psicopata, em "Redenção",
Milton Gaúcho se
torna conhecido no meio cinematográfico, passando o seu nome a
figurar nas revistas especializadas como Filmelândia e Cinelândia,
entre outras, mostrando fotografias de cenas dos seus filmes
posteriores.
A partir daí, ele flui
através dos fotogramas trabalhando em "Bahia
de Todos os Santos", "A Grande Feira", "Tocaia no Asfalto", "Festival de
Arraias", "O Pagador de Promessas", "Sol Sobre a Lama", "O Caipora", "O Santo
Módico" (filme francês), "O Canto dos Retirantes", "Les Globbe-Trotters" (série da TV francesa Office de Radiodiffusion Télévision Française - ORTF)), "Os Rios dos Homens Sem Medo", "A Montanha dos 7 Ecos", "O Forte", "Rebelião dos Brutos" (italiano), "A Construção da Morte", "Meteorango
Kid: Heroi Intergalático", "Caveira My Friend", "Queima de Arquivo", "O Profeta" (filme inacabado de Carlos Modesto), "J. S. Brown: O Último Heroi", "3 Histórias da Bahia", "Sobrevivência", "Vicente Ferreira" (documentário sobre Pastinha), "O Pistoleiro", "Os Pastores
da Noite" (francês), "Luar Sobre Parador" (norte-americano) e
outros.
Ligeira biografia
Milton Magalhães, nasceu em
Salvador, Bahia, em 7 de outubro de 1916. Na juventude foi
seresteiro, cantor de óperas, fazendo parte do Coro da Companhia
Lírica Baiana, apresentando-se nas óperas "Tosca", de Puccini, e "Rigoleto",
de Verdi, encenadas no Cineteatro
Jandaia, em agosto
de 1938.
Atuou em algumas emissoras de
rádio em Salvador, onde adquiriu conhecimentos que lhes permitiu
partir para outras empresas radiofônicas de outros estados onde,
demonstrou o seu talento versátil se tornando depois além de
rádio-ator, criador, redator e diretor de programas radiofônicos.
No teatro, o seu trabalho foi
tão vasto que seria necessário um espaço maior para discriminar
todo o conteúdo. Mas não devemos deixar de citar sua memorável
interpretação na peça "O
Auto da Compadecida",
encenada em 1978, encenada no Teatro
Castro Alves.
Na televisão, Milton Gaúcho
participou como teleator em diversas produções baianas e do Sul do
país realizadas aqui na Bahia. Citamos algumas como: "A
Última Folha", de
O. Henry; "Páginas
da Vida",
de Miranda Filho; "Noites de Chuva",
de Péricles Leal; "Rosa
Baiana" e "O
Pagador de Promessas".
Casou-se com Jacira Magalhães,
união esta, cheia de plena felicidade, tornando-se ela sua fiel
admiradora, incentivando-o em seu trabalho artístico, até o final
da sua vida.
Milton nunca pretendeu seguir
carreira em São Paulo ou no Rio de Janeiro, como fizeram seus
colegas Geraldo Del Rey e Antônio Pitanga, preferindo permanecer em
sua terra natal levando uma vida mais calma.
Bom amigo e um grande
espiritualista, sempre procurou ajudar aos jovens iniciantes do meio
artístico, onde muitas vezes participou de produções amadorísticas
apenas com o intuito de estar sempre ativo e de manter aquele
espírito de camaradagem, como quando foi convidado pelo
fotógrafo-cinegrafista, Carlos Modesto para ser presidente vitalício
do Grupo Baiano de Cinema (Grubacin), na fase áurea da bitola Super
8, que perdurou por alguns anos.
Foi destaque em teatro e
cinema, recebendo prêmios que faziam parte da sua coleção que se
encontravam numa estante especial da sua residência em Brotas,
inclusive a Medalha Tomé de Souza, maior láurea oferecida
pela Câmara Municipal de Salvador pelo conjunto dos trabalhos
artísticos em prol do rádio, teatro, televisão e do cinema
nacional e internacional, em 24 de outubro de 1980.
O seu trabalho é mais
conhecido através da arte do cinema, onde Milton Gaúcho nos deu
interpretações inesquecíveis como o agiota de "A
Grande Feira", o
político de "Tocaia
no Asfalto", o
coronel-fazendeiro de "O Caipora",
de Oscar Santana, e o guarda de "O
Pagador de Promessas",
de Anselmo Duarte, que foi premiado em Cannes, em 1962, com a Palma
de Ouro.
Continuamos amigos até com
seus avançados anos nos ombros, o incansável ator, continuava
participando das artes audiovisuais, representando e fazendo
comerciais para a TV, não deixando morrer o dom especial que a
natureza lhe deu, prosseguindo a jornada que deixou rastros e que
jamais será esquecida na história do cinema baiano. Um exemplo que
deve ser seguido pelos artistas atuais, como também, pelos que estão
por vir.
Milton Gaúcho faleceu em 6
de janeiro de 2005, aos 88 anos de idade, vítima de um acidente
vascular cerebral.
Carlos Modesto é cinéfilo