Por Fernão Lara Mesquita
Este texto é parte de um debate que rolou hoje num dos grupos de WhatsApp que frequento:
A crise da democracia é, em grande medida, a crise da imprensa. E a crise da imprensa é Gramsci + internet + lei das SA: a tempestade perfeita.
A imprensa democrática é coisa exclusiva das Américas + Inglaterra onde ela nasceu porque desde 1680 o povo já mandava no rei por lá, e precisava saber o que ele fazia e porque fazia para poder controla-lo com um parlamento…
No resto das Américas, e aqui entre nós, ela nasce do esforço de um divergente - e portanto pobre - lutando contra O Sistema de seu tempo, com grandes riscos e sacrifícios pessoais (prisões, exílios, “cancelamentos” e etc.). Têm portanto um componente essencialmente ético dominando tudo o mais em seu DNA. E graças a isso são aprovados pela população e, eventualmente, se transformam num business.
Na paralela vêm os espertalhões a serviço de e financiados, ou pelos donos do poder (politico e/ou econômico) ou por candidatos a donos do poder, que criam jornais que parecem o que não são ("democráticos", "pluralistas", "éticos", etc) para usufruir do poder que a imprensa séria angaria.
Enquanto sobrevive a imprensa séria e ética, ela serve como referencia e, ao menos nos momentos críticos, pauta a dos espertalhões. Um único jornalista de verdade pode provocar esse contágio meio como está acontecendo agora com a Malu Gaspar x STF x Banco Master. Mas quando não ha nem isso, eles perdem a referência e aí fica mais fácil identifica-los como o que são, como era o caso do Brasil pré-Malu Gaspar.
Só que esses fundadores casam, têm filhos, envelhecem e morrem.
E ai, dois problemas:
1 - raramente os filhos, que ja nascem ricos, têm as mesmas qualidades dos pais ou, muito menos ainda, a disposição de manter as posições heroicas que eles mantiveram a custa de riscos e sacrifícios (perda de dinheiro, prisões, exílios, etc) porque eram regidos mais pela ética que pela ganância;
2 - a lei das SA não combina com o "crescei e multiplicai-vos" do Altíssimo
No Brasil O Globo foi precursor porque, tendo o pai aderido aos militares em 64, os filhos estavam chegando às universidades ali pelas vizinhanças dos 70, e foram fortemente patrulhados e cancelados naquela idade em que é preciso "fazer sucesso" e "pertencer ao grupo".
Eu sei bem o que foi isso. Mas eu curtia resistir…
Mas os Marinho, como já desde o pai, estavam naquela fronteira entre o DNA da esperteza e o DNA da ética, e ninguém ali é propriamente vitima da maldição do intelectual, quando herdaram, entregaram o jornal para a esquerda para se livrar do cancelamento que "sofreram" e ganhar aprovação social e muito dinheiro pelo controle indireto de toda a classe artística. Ela os servia porque eles a serviam.
O jornalismo, para eles, era um subproduto que interessava como instrumento politico para controlar a regulamentação da industria do entretenimento no momento de ouro dessa industria no planeta inteiro. E a contraparte da classe artística "orgânica", em termos gramscianos, tomou conta das redações deles também porque isso lhes garantia blindagem contra criticas no lobby que faziam na regulamentação do setor de telecomunicações e entretenimento e no dumping que praticavam no de publicidade.
O resto dos jornais demorou um pouco mais. Lá pela 3a ou 4a geração de decendentes do fundador, pelo efeito da lei das SA, o comando das empresas foi trocando de mãos, sempre com prevalência da maioria dos herdeiros que, quanto mais ricos e distantes do fundador menos jornalistas tendem a ser, e mais tendem a considerar comportamentos éticos "como o daquele poeta do seu avô" ou do seu pai, coisa de "perdedores".
A maioria dos acionistas não jornalistas acaba por tomar o controle da empresa, e passa a tratar jornalismo como produto corporate. Contratam consultorias e jornalistas saídos das escolas colonizadas pelos PTs da vida através de empresas de head hunters, leram pouco mais que dois ou três gibis ao longo da vida toda, têm pavor de discutir com jornalistas e exibir sua ignorância e não passam nem na porta de suas redações.
Dá no que está aí.
Todos os grandes jornais brasileiros e americanos estão exatamente nessa fase, sendo que entre os americanos, graças à competência gerencial própria do país e à qualidade das escolas, mesmo os de DNA de esperteza, como o NYT foi desde sempre, eles podem ir muito longe, fazendo bom jornalismo em tudo que escapa ao jogo do poder, mesmo sendo nada mais que fraudes do ponto de vista ético.
Jogue por cima disso a destruição pela internet do business que sustentava tudo, e "justificou" a incorporação da picaretagem como meio de sobrevivência, e você tem o admirável mundo novo que está aí...
Fonte: https://vespeiro.com/


Nenhum comentário:
Postar um comentário