Os homens, por sua vez, aparecem como inúteis (na versão benigna) ou psicopatas (na versão maligna), incapazes de ajuda ou empatia.
Por João Pereira Coutinho para a FSP:
Fim de semana em Lisboa. Assisto a três filmes: "Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria", "Morra, Amor" e "Canina".
Ao final da maratona, ligo para a minha mãe e, em lágrimas, peço perdão por ter nascido. Ela pergunta se estou tomando a medicação na hora certa. Minto e respondo que sim.
Não vou fazer um resumo dos filmes. Fico numa apresentação geral: os três pintam a maternidade com as cores do inferno. Ter filhos é difícil? Não. É uma experiência de guerra, cujo desgaste emocional e psicológico só encontra paralelo com conflitos armados.
Os homens, por sua vez, aparecem como inúteis (na versão benigna) ou psicopatas (na versão maligna), incapazes de ajuda ou empatia. Não quero dar "spoiler", mas, num dos filmes, o trauma da mãe é tão profundo que ela acaba virando um cachorro.
Calma, minha gente. Não tenho uma visão romântica do assunto. "A maternidade melhora as mulheres", como dizia Nelson Rodrigues? Nem sempre. Há as que pioram. Há as que transportam para a vida dos filhos as suas ruínas mais pessoais.
Nessas matérias, sou menos Nelson e mais Philip Larkin, que nos deixou um verso que lhe custou o título de "Sir": "They fuck you up, your mum and dad". Traduza quem quiser.
Além disso, o cinema nunca foi justo com a maternidade, apresentando durante décadas quadros delicodoces da experiência, sem qualquer adesão ao mundo real. Os medos, os desafios, os impasses e os desesperos da maternidade (e da paternidade, já agora) ficavam de fora dessas mentiras enjoativas.
O problema é que a nova moda é tão falaciosa quanto a antiga, substituindo a perfeição idílica pelo terror mais patológico.
Desconfio que essa nova moda seja consequência direta da psicologização extrema da experiência. Que significa esse termo? Significa, simplificando, que toda experiência passou a ser tratada como um risco traumático capaz de destruir um ser humano.
Não falo de casos-limite, em que a destruição física ou psicológica é de fato uma possibilidade – como a guerra, precisamente. Falo de experiências banais –estudar, casar, trabalhar, ter filhos – que se convertem num labirinto opressivo e brutal.
O mesmo vale para emoções banais: tristeza, medo, ansiedade. São, em muitos casos, sintomas de doença psíquica séria? Fato. Mas nem sempre. Às vezes são a decorrência normal de estarmos vivos.
Para entender essa psicologização levada ao limite – e ao ridículo –, lembro sempre a história contada pelo sociólogo Frank Furedi sobre os "terapeutas de transição", oferecidos pelo governo de Tony Blair aos pares do Reino Unido que perderiam seus assentos com a reforma da Câmara dos Lordes.
A ideia, ao que parece, era ajudá-los na "adaptação" à vida cotidiana – isto é, longe do bar de Westminster. Pensando melhor, talvez alguma terapia fosse mesmo necessária.
Porque a verdade, como acrescenta o próprio Furedi, é que já ninguém vive; sobrevive-se. A quê? A tudo. À infância, à adolescência, à maturidade, à meia-idade, à velhice. Sobrevive-se aos filhos, aos amores, aos pais, às mães, aos amigos, aos vizinhos, aos chefes. Sobrevive-se ao Natal, à Páscoa, ao verão, ao inverno. Sempre com traumas – mas sobrevive-se.
"A única coisa que devemos temer é o próprio medo", dizia Franklin Roosevelt em discurso inspirado. Inspirado e datado: hoje, ter medo do medo deve ser alguma patologia listada nos manuais da especialidade.
Repito: a maternidade não é para qualquer uma. Não há vocação inata para ser mãe. Nem vocação, nem obrigação: uma vida plena pode até dispensar essa etapa.
Mas seria uma lástima que as mulheres que desejam ter filhos fossem aterrorizadas pela "cultura terapêutica" que nos domina. Nesses assuntos, e como diria o inestimável dr. Winnicott, o mais importante é descer as expectativas e ser apenas uma mãe suficientemente boa. Que significa isso?
Significa cumprir os mínimos olímpicos: passado o primeiro período, em que a dependência da criança é inescapável, a ideia é não estragar demais. Tentar estar presente. Garantir um ambiente estável. Nunca ambicionar a perfeição.
"O amor de mãe é um negócio bastante rude", escreveu Winnicott. "Há nele posse, há apetite, há um elemento de 'droga de criança', há generosidade, há poder, assim como humildade." E conclui o autor: "Mas o sentimentalismo está totalmente fora disso – e é repugnante para as mães".
O cinema do passado pecava na representação da maternidade por sentimentalismo positivo. O cinema do presente peca por sentimentalismo negativo.
Ambos não toleram a banalidade suficientemente boa da vida como ela é.


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