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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Trinca de canastrões

Se o Capitão Nascimento estivesse na ativa, a voz de prisão encerraria a festa. 


Por Augusto Nunes para a revista Oeste:

O que deve fazer um ator para incorporar o personagem que vai interpretar num palco de teatro?, perguntei a Paulo Autran no meio da entrevista na TV Bandeirantes. "No meu caso, a coisa é meio mediúnica", começou a resposta. Durante uma semana, ele lia reiteradamente o texto inteiro da peça. Em seguida, consumia outra semana lendo as falas que lhe cumpria decorar. Simultaneamente, procurava imaginar, em quaisquer situações, como agiria não ele, Paulo Autran, mas a figura que o substituiria no palco.
"Eu ficava espantado com o que acontecia", prosseguiu. Por exemplo: vestir um terno aprisionado no guarda-roupa pela antipatia surgida já no instante da compra. Ou perceber, durante a caminhada, que as passadas se haviam tornado mais ágeis - ou mais lentas. O grande ator se considerava pronto quando ouvia a própria voz dizendo algo que jamais ocorreria ao carioca formado em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco. "Fiquei perplexo quando, ao jantar num restaurante paulistano, escolhi um prato que nunca tinha comido nem pretendia comer", revelou na entrevista. "O pedido foi feito pelo personagem".
Paulo Autran

Até a morte aos 85 anos (e descontadas dezenas de atuações no cinema e em telenovelas), reencarnaram em Paulo Autran criaturas forjadas por Shakespeare, Pirandello, Sartre, Millôr Fernandes, Brecht, Molière e outras sumidades do teatro mundial. Enquanto durava a temporada, eram dois seres num corpo só. Mas ele camuflava a dupla identidade com a elegância discreta de quem parecia ter frequentado a Câmara dos Lordes quando ainda usava fraldas.
Parecia constrangido quando recebia mais um prêmio. Ganhou todos, sem jamais recorrer a leis Rouanet ou financiamentos federais. Inteligente, culto, assertivo, guardava seus pontos de vista para conversas entre amigos e gente que pensa. Evitava perder tempo com canastrões fantasiados de pais da pátria. Nunca se sujeitou a pedir favores, até porque sempre lhe sobrou plateia. Preferia concentrar-se na incorporação de personagens que mostrariam aos espectadores a vida como ela é. O que pensaria Paulo Autran da performance de um Wagner Moura antes, durante e depois do tiroteio pela conquista de um Globo de Ouro?
Wagner Moura posa com o prêmio de Melhor Ator em Filme Dramático por “O Agente Secreto” na 83ª edição do Globo de Ouro em Beverly Hills, Califórnia, EUA (11/1/2026) 

Eufórico com o prêmio de Melhor Filme em Língua Não Inglesa conferido a O Agente Secreto, Wagner foi às nuvens com a conquista do Globo de Ouro reservado ao melhor ator de drama em idiomas falados fora do Reino Unido. No enredo, o ator vive um veterano militante da luta armada que continua sonhando com a derrubada do regime militar instaurado em 1964. Vitorioso, um Wagner Moura todo de branco agarrou o microfone para desandar na discurseira transcrita a seguir:
"Eu acho que temos que continuar fazendo filmes sobre a ditadura. A ditadura ainda é uma cicatriz na vida brasileira. Isso aconteceu há 50 anos apenas. Nós recentemente tivemos, de 2018 a 2022, tivemos um presidente de extrema direita no Brasil, um fascista, que é a manifestação física dos ecos da ditadura.
Então, a ditadura ainda está muito presente no cotidiano brasileiro.
Então temos que continuar fazendo filmes sobre isso".

Nascido em 1976, o ator baiano era ainda um bebê de colo quando a revogação do Ato Institucional nº 5, em 1º de janeiro de 1979, encerrou os anos de chumbo. Não viu o que houve e, pelo jeito, tampouco procurou saber o que aconteceu. Acompanhou já quarentão o governo de Jair Bolsonaro - e nem mesmo uma besta quadrada amestrada nos confins da Coreia do Norte conseguiria enxergar uma ditadura fascista num governo que não prendeu nem perseguiu ninguém por motivos políticos.
Feliz com o palavrório, o presidente da República tratou a conquista de dois Globos de Ouro em data merecedora de feriado nacional, com desfiles de colegiais em todas as cidades do país. É o que mostra a confraternização telefônica entre Lula, Wagner e Kléber Mendonça Filho, diretor do colosso cinematográfico. Confiram os melhores momentos, sem correções nem retoques:
Lula: Wagner, querido, olhe… Olhe, você pode ter certeza, pode ter certeza que você é um orgulho desse país, cara.
Wagner: Desde o seu primeiro governo, sempre, né, o cinema teve um espaço… Eu me lembro que você fazia umas sessões de cinema. É um governo que gosta de cultura, Presidente. E isso é uma diferença muito grande para qualquer país que se queira desenvolver.
Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho

Lula: A gente tem que criar núcleos de cultura em cada município para transformar uma coisa muito forte, sabe? E a gente passar a criar instrumentos da sociedade fiscalizar as coisas, a execução dos recursos, sabe? Porque assim a gente vai conseguir colocar a cultura como uma coisa perene nesse país. Ela ensina as pessoas, ela torna as pessoas mais cultas, torna as pessoas mais politizadas. Ela gera milhões de empregos.
Wagner: E eu acredito mesmo que o Brasil é o país que tem vocação para isso, sabe, Presidente? Assim, vocação para a cultura. Olha, você não sabe a alegria que me dá, Lula, estar falando com você e ouvi-lo falar assim de cultura. É lindo, emociona e faz a gente ter certeza de que a gente está indo para o lugar certo, para o caminho certo. Muito obrigado por essa ligação. Presidente que liga para seus artistas e conversa com eles, isso aí é…
Lula: Acho que foi um espetáculo extraordinário, Wagner e Kleber. Eu acho que para os próximos dias nós vamos anunciar aqui no Brasil, que nós vamos colocar nas redes públicas a obrigatoriedade de ter os filmes nacionais. Sabe, são não sei quantas centenas de filmes que a gente vai passar para todo dia o povo brasileiro ter o direito de conhecer o que que é o cinema brasileiro.
Wagner: É de muita importância isso. Eu acho que a capacidade que nós temos de se ver na tela, seja uma série, um filme, um cinema, é de extrema, extrema importância.
Wagner Moura em cena do filme O Agente Secreto 

Lula: O que eu acho que o papel de vocês e o reconhecimento da qualidade do filme, da qualidade do nosso artista, Wagner, é uma demonstração de que a gente não pode se apequenar diante de ninguém. Sabe, nós temos personalidade, nós temos história, nós temos origem, sabe? Basta que a gente a exercite com toda a dignidade que um ser humano tem que se comportar.
Wagner: Você é o maior exemplo disso, presidente. E é muito importante pra gente ter um presidente que se coloca dessa forma.
Kleber: Eu dediquei o prêmio aos jovens cineastas no Brasil. Que eu acho que é um grande momento de fazer filmes e nós temos instrumentos de apoio. Isso tá muito claro com toda a trajetória do "Agente Secreto" e de tantos filmes brasileiros que foram feitos dentro do sistema de financiamento público.
Lula: E nós vamos continuar financiando, porque a cultura é efetivamente uma das coisas mais sagradas na construção, na construção da personalidade de um país.
Wagner e Kleber, em dueto: Muito obrigado por isso, presidente.

Oito milhões de reais enterrados na realização do filme por um governo em situação falimentar ajudam a entender a euforia da trinca, os delírios patrióticos de Lula e o servilismo rastaquera da dupla laureada. Os dois sabem que Lula nunca rimou com cultura. Não sabe escrever, nunca leu um livro, nunca deu as caras num teatro e só vê filme brasileiro no cineminha do Alvorada por não conseguir decifrar legendas. Na discurseira de todo santo dia, submete a língua portuguesa a medonhas sessões de tortura.
Pena que Wagner Moura tenha incorporado um terrorista sem cérebro em vez do Capitão Nascimento. Se não estivesse aposentado, o herói de Tropa de Elite não perderia a chance de, mesmo por telefone, dar voz de prisão ao único presidente analfabeto da história da República.

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