O que está acontecendo com as mulheres no Irã em sua busca por direitos básicos, como poder mostrar os cabelos e escolher o que vestir, não se alinha ao discurso ideológico da esquerda, cuja aliança com o islamismo não é de hoje.
Por José Fucs para a Gazeta do Povo:
Os gigantescos protestos que varrem o Irã há duas semanas encheram de entusiasmo e esperança todos os que, dentro e fora do país, sonham com o fim do regime fundamentalista islâmico instaurado há quase meio século, sustentado por um aparato de controle social onipresente, com ênfase nas restrições às liberdades das mulheres.
Apesar da brutal repressão desencadeada pelas forças de segurança contra os manifestantes – que já resultou em mais de 500 mortes e em mais de 10 mil prisões, segundo informações divulgadas por fontes independentes que acompanham de perto os acontecimentos - não há sinais até agora de enfraquecimento dos protestos.
Ao contrário do que aconteceu no passado recente em outras manifestações do gênero no Irã, quando a reação sanguinária do regime provocou um refluxo rápido de manifestantes nas ruas, desta vez eles parecem determinados a levar movimento às últimas consequências, até a eventual queda do regime.
Com o sistema debilitado, em decorrência dos ataques dos Estados Unidos e de Israel em junho de 2025, que danificaram o programa nuclear, as instalações militares, os arsenais armamentistas e as refinarias de petróleo do país, muitos analistas enxergam uma oportunidade única no momento para tentar virar o jogo. Isso sem contar a devastação dos principais grupos terroristas apoiados pelo Irã na região, como o Hamas em Gaza, o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iêmen. A queda do ditador Bashar al-Assad em 2024 levou também ao rompimento da aliança estratégica mantida com a Síria, comprometendo ainda mais a posição de Teerã.
Além disso, há a expectativa de que o presidente americano, Donald Trump, deflagre a qualquer momento uma ação para colocar um ponto final no regime islâmico iraniano, que é um fator de instabilidade no Oriente Médio e o maior patrocinador do terrorismo internacional. Uma "mãozinha" de Trump poderá ser decisiva para que, desta vez, o regime não consiga ganhar nova sobrevida.
O que realmente impressiona, porém, é a coragem demonstrada pelos manifestantes, que continuam a desafiar o sistema, causando a morte de cerca de 100 integrantes das forças de segurança até agora, conforme dados oficiais, e queimando mesquitas, seminários teológicos e prédios da Guarda Revolucionária Islâmica pelo país afora.
Embora o regime e seus porta-vozes no Ocidente procurem vender a narrativa de que o movimento se deve essencialmente a fatores econômicos e a influências do "satã" americano e dos "sionistas" de Israel e "não tem nada a ver com as mulheres", como aconteceu em 2022, elas continuam na linha de frente dos atuais protestos. Não é por acaso que as mulheres representam boa parte dos mortos, feridos e presos pelas forças de segurança e pelos mercenários importados para atuar na repressão.
Num país em que as mulheres são tratadas como cidadãos de segunda classe, não surpreende que isso esteja ocorrendo mais uma vez. Como sempre, são elas quem mais têm a ganhar em termos de direitos e liberdades caso a atual teocracia seja derrubada. Se isso se concretizar, será provavelmente a maior revolução feminista da história.
Como nas manifestações de 2022, desencadeadas quando as mulheres iranianas foram às ruas para protestar contra a morte de Mahsa Amini - uma jovem de 22 anos que foi presa e espancada sob custódia policial por não usar o hijab - elas estão arriscando suas vidas ao sair com os rostos descobertos e os cabelos ao vento e queimando hijabs em público, em busca dos direitos básicos que lhes têm sido negados há décadas.
"Em 1979, um bando de autocratas teocráticos do século VII decidiu que todo o Irã se tornaria uma gigantesca prisão a céu aberto. Gerações inteiras de mulheres nasceram em um mundo em que não podiam sentir o ar fluindo livremente por seus belos e exuberantes cabelos", afirmou o psicólogo libanês-canadense Gad Saad, autor do livro A mente parasita, em publicação no X. "Isso, inshallah (se deus quiser), está chegando ao fim. Todo o meu engajamento público visa promover e defender a liberdade para todas as pessoas."
Mesmo em meio ao apagão de internet promovido pelo regime, fotos e vídeos das iranianas envolvidas nos protestos driblaram a censura via satélite - graças à Starlink, ativada pelo empresário Elon Musk para fornecer acesso gratuito aos iranianos, com apoio declarado de Trump. As imagens chegaram ao Ocidente e revelaram mulheres se rebelando contra a opressão e liderando o movimento que pode levar o regime islâmico à derrocada.
Um dos vídeos que mais viralizaram mostrava uma jovem iraniana sem hijab queimando o retrato do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país desde 1989, e acendendo calmamente um cigarro na chama. Outro clipe viral capturou uma mulher em cima de um carro nas ruas, tirando o hijab em desafio à teocracia, que pune tais atos com prisão ou morte.
Uma ilustração que também circulou nas redes trazia uma garota empoderada com a antiga bandeira do Irã (com o leão e o sol) pisando na cabeça decapitada de Khamenei. A imagem representava a defesa do retorno do Irã à monarquia, que prosperou durantes as atuais manifestações, sob o comando de Mohammad Reza Pahlavi, filho do xá que deixou o Irã antes da volta do aiatolá Khomeini, que estava no exílio em Paris, em 1979.
Em outro registro, uma idosa aparece com a boca ensanguentada após ser atingida em confronto com as forças do regime: com voz firme, ela declara "Eu não tenho medo. Eu não tenho medo. Estou morta há 47 anos", em referência aos período de opressão em vigor no país desde a instauração da Revolução Islâmica. Outra cena que ganhou milhares de cliques trazia duas mulheres sem véu no metrô de Teerã rechaçando um agente da polícia da moralidade que tentava forçá-las a cobrir a cabeça, enquanto gritavam "morte a Khamenei" e "Não ao assédio".
É difícil afirmar com certeza se todas essas fotos e todos esses vídeos foram feitos no Irã ou se alguns vieram da diáspora. Uma "nota de comunidade" no X apontou que o vídeo mais compartilhado, da garota queimando a foto de Khamenei, foi filmado no Canadá, com uma jovem iraniana exilada. Mas não importa. Não faz muita diferença. O importante é o espírito da coisa: esse ato representa com perfeição a resistência das iranianas ao regime islâmico e já se tornou até matriz para um pôster gráfico já publicado nas redes.
Diante deste quadro, seria de se esperar que o regime de apartheid de gênero em vigor no Irã, em que o estupro doméstico é permitido e meninas de nove anos já são consideradas aptas para o casamento, que as feministas do Ocidente saíssem em defesa das mulheres iranianas. Mas, em vez disso, o drama das iranianas foi contemplado com um silêncio ensurdecedor, no Brasil e no exterior.
Não teve feminista dizendo "mexeu com uma, mexeu com todas". Nem se ouviu uma palavra sequer do "Me Too" em solidariedade a elas. Ninguém veio a público também gritar "as mulheres iranianas não estão sós". Tampouco houve qualquer apoio das militantes do PT e do Psol. A turma do "meu corpo, minhas regras" igualmente se calou.
Não ouve hashtags, greves de fome, acampamentos em universidades nem manifestos de celebridades em defesa das mulheres iranianas. A ativista Greta Thurnberg sumiu do radar e a atriz Angelina Jolie, outra integrante da turma pró-Pale, também, depois de ter sido vista em Gaza fazendo uma viagem de "caráter humanitário".
Num exemplo emblemático de indignação seletiva, as feministas fizeram mais barulho contra a captura do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro e em defesa da Palestina e do Hamas, que estuprou e matou dezenas de mulheres israelenses durante e após os atentados terroristas de 7 de outubro de 2023, do que fizeram agora, com a morte e a prisão das iranianas nos protestos.
No Brasil, a feminista Biazita Gomes, que se define como professora de filosofia, analista política e especialista em relações internacionais e direitos humanos, foi às redes defender a manutenção do regime islâmico no Irã e atribuir os protestos à "manipulação israelense e dos EUA". Ela não prestou sequer solidariedade às mulheres iranianas que estão se rebelando contra a opressão masculina avalizada pelo fundamentalismo islâmico. Paradoxalmente, dois anos atrás, ela havia feito a seguinte publicação nas redes: "Ou você é feminista ou você protege homem que comete violência contra as mulheres. Os dois não dá para ser".
No estado de Washington, na costa oeste dos Estados Unidos, grupos pró-Pale de mulheres progressistas, que defendem o Hamas e acusam Israel de ter cometido "genocídio" em Gaza, confrontou um grupo de iranianos que se manifestava em favor dos protestos contra o regime islâmico do Irã e seus abusos.
É como diz a escritora britânica J. K. Rowling, autora da série de livros de Harry Potter, num post publicado no X: "Se você diz que apoia os direitos humanos, mas não consegue demonstrar solidariedade com aqueles que lutam por sua liberdade no Irã, você se revelou. Você não está nem aí com pessoas sendo oprimidas e brutalizadas, desde que isso esteja sendo feito pelos inimigos dos seus inimigos".
Esse silêncio das feministas se explica, em boa medida, porque, se elas apoiassem os protestos das mulheres iranianas contra o hijab e o islamismo, colocariam em xeque a própria narrativa que construíram para justificar a máxima da esquerda identitária de que a "diversidade cultural é a nossa força".
Na verdade, o que está acontecendo com as mulheres no Irã em sua busca por direitos básicos, como poder mostrar os cabelos e escolher o que vestir, não se alinha ao discurso ideológico da esquerda, cuja aliança com o islamismo não é de hoje.
Em 1979 o filósofo, historiador e ativista francês, Michel Foucault (1926-1984), queridinho da gauche, já vibrava com a Revolução Islâmica, porque Khomeini se opunha à "civilização ocidental" e ao "imperialismo". O filósofo Jean-Paul Sartre (1905-1980), por sua vez, acreditava que Khomeini comandaria um regime "anticolonialista" e "anti-imperialista".
No fim da contas, é como disse um internauta numa publicação no X, ao resumir a questão: "No fim, as feministas não são feministas. São ativistas da extrema-esquerda".


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