Por
Reinaldo Azevedo
Já
deveria, claro!, ter escrito a respeito do discurso que a presidente Dilma
Rousseff fez na quinta-feira, 6, mas o sistema 3G do País Potência da governanta
não permitiu. Basta que a gente se distancie da cidade 180 quilômetros rumo ao
litoral, lá onde o Brasil começou, e o sistema "não pega". Lembro-me de um
rádio velho que havia em casa, de válvula. Quando esquentava muito, rescendia
ao verniz que cobria a caixa de madeira… De vez em quando, ficava mudo. A gente
dava uma porrada, voltava a funcionar. Pensei em fazer o mesmo com o laptop,
mas fui contido a tempo… Voltemos a Dilma. Eis à presidente retornando à sua
natureza. Não! Falemos de outro modo. Lá estava a presidente em sua real
natureza.
O PT
não reconhece a diferença entre estado, partido e governo. Não é uma disfunção
particular, uma invenção sua, um traço distintivo. É herança de um pensamento.
O partido é herdeiro dos dois grandes totalitarismos do século passado, o
fascismo e o socialismo. Como já escrevi aqui tantas vezes, o primeiro,
seguindo a fórmula de Giovanni Gentile, preconizava "Tudo no Estado, nada fora
do Estado, nada contra o Estado." Os socialistas trocaram o "estado" pelo
partido, mas a essência é a mesma.
Dilma
já havia atravessado o sinal quando emitiu uma nota, com chancela da
Presidência da República, para responder a um artigo de FHC, que, de resto, em
essência, lhe era injustamente elogioso, fazendo dela uma espécie de vítima de
alguns destrambelhamentos do antecessor. Critiquei seu texto. Dilma ajudou a
fabricar a "herança"; é uma das principais responsáveis por algumas
dificuldades que o país enfrenta na área de infraestrutura. Adiante. Aquela
nota, com algumas grosserias desnecessárias desferidas contra o tucano, já era
uma evidência de uso de uma instituição do Estado - o Poder Executivo - e de
uma repartição do governo - a Presidência da República - para fazer um
desagravo de natureza partidária (ao PT) e política (a Lula). Ora, o partido
dispõe de medalhões em penca para responder. Mas a cúpula dos companheiros
praticamente exigiu uma resposta. A imprensa áulica chegou a noticiar que os
petistas "aprovaram" a reação de Dilma… Não me digam! Só não fiquei de queixo
caído com a notícia porque já aprendi a não me surpreender com essa gente.
Muito
bem! Achando que aquela nota havia sido pouca coisa, que não havia se despido o
suficiente do necessário manto do decoro que o cargo lhe impõe - chefe do
governo e representante maior da esfera executiva do estado -, Dilma resolveu
entrar no ar no intervalo da novela "Avenida Brasil" (ela queria Ibope alto!)
para fazer seu suposto pronunciamento oficial sobre os 190 anos da
independência do país.
O que
se viu ali - íntegra do pronunciamento aqui - foi a presidente da República a
usar a estrutura do estado e do governo para fazer proselitismo de natureza
partidária e, é inescapável apontar, dado o período, também eleitoral.
Sim,
sim, como de hábito, a fala oficial veio recheada com aquelas mentiras de tom
grandiloquente, que nos enchem o peito de orgulho cívico. Todos gostaríamos de
morar no país dos presidentes, nos estados dos governadores, nas cidades dos
prefeitos, não é? Eles têm sempre um olhar bastante direcionado para tudo o que
há - e sobretudo para o "a haver" - de bom. Dou de barato que políticos tenham
de usar, de vez em quando, essa linguagem miserável para se comunicar. Assim, a
presidente foi à TV para declarar que estávamos, pasmem!, vivendo uma "nova
arrancada". O país cresceu 2,7% em 2011. Neste ano, deve ficar pouco acima de
1,5% - Guido Mantega anunciava 4% não faz seis meses… Nova arrancada!
Dilma
não teve do medo do ridículo, não! Enfrentou-o com altaneira galhardia e, para
espanto do mundo - se o mundo desse bola para o que ela diz -, anunciou um "um
modelo de desenvolvimento inédito". "Inédito", vocês sabem, mesmo nos tempos
petistas, quer dizer "inédito", jamais vindo à luz. E ela explicou como foi que
o petismos petistas resolveu botar de pé esse ovo de Colombo: esse modelo seria
baseado no "crescimento com estabilidade, no equilíbrio fiscal e na
distribuição de renda".
Parem
as máquinas!
Cesse
tudo o que antiga musa canta!
O
planeta faça alguns minutos de silêncio.
Nunca
antes na história da humanidade - afinal, tratamos de algo "inédito" -, um
governo tinha tido a ousadia de juntar estabilidade, rigor fiscal (quem dera
fosse verdade!) e distribuição de renda. Ainda que o PT tivesse mesmo
conseguido juntar esses três ingredientes em doses apreciáveis, será esse
modelo "inédito"? A Europa - em crise, sim!, hoje - forjou o seu estado de
bem-estar social de que modo? Dilma decidiu recorrer ao diminutivo, certa de
que ninguém perdeu poder, eleição ou dinheiro por infantilizar o povo: "O nosso
bem-sucedido modelo de desenvolvimento tem se apoiado em três palavrinhas
mágicas: estabilidade, crescimento e inclusão."
"Palavrinhas
mágicas"???
Quem
tirou o coelho da cartola?
Lula?
Dilma?
Ela
resolveu atribuir o casamento dessas "palavrinhas" às gestões petistas. Segundo
disse, o "novo ciclo de desenvolvimento" vai "alargar bastante o caminho de
afirmação e independência que nosso país vem construindo, com muita garra, nos
últimos dez anos."
Entenderam?
A "afirmação e independência" vêm sendo construídas nos "últimos dez anos", nas
gestões petistas. Antes, não! No princípio, era o caos. Mas aí se fez a luz.
Foi o pior momento da presidente em dois anos de governo. O que vou escrever
aqui não é novidade, mas não me importo. Se eles podem ficar repetindo mentiras
sem corar, eu posso ficar repetindo verdades sem me constranger. A ESTABILIDADE
BRASILEIRA - OU ISSO A QUE SE CHAMA ASSIM - EXISTE APESAR DO PT, NÃO POR CAUSA
DELE. E O PT EXISTE NO PODER POR CAUSA DA ESTABILIDADE.
Na
oposição, o partido sabotou todas as ações - TODAS, SEM UMA MISERÁVEL EXCEÇÃO -
em favor da estabilidade. Vocês conhecem o elenco: foi contra o Real, foi
contra as privatizações, foi contra as reformas, foi contra a Lei de
Responsabilidade Fiscal. E porque algumas dessas medidas custaram ao governo
desgaste junto à opinião pública, o petismo se construiu como alternativa. No
poder, aproveitou-se das medidas cuja implementação tentou impedir.
A
Dilma que disputava eleições, como todo candidato, podia mentir um pouquinho,
fazer promessas que jamais cumpriria - não vai entregar os três milhões de
casas até 2014 ou as mais de 6 mil creches, só para citar duas. A presidente da
República, no entanto, tem um compromisso com a verdade que lhe é imposto pelo
decoro do cargo. Afirmar que a estabilidade é obra de seu partido é um
sequestro da história, perpetrado em cena aberta pela presidente que criou, ora
vejam!, uma "Comissão da Verdade". Se um grupo a serviço do estado com esse
nome já é um achincalhe à inteligência, depois do discurso do dia 6, virou uma
piada.
Descolada
ainda do compromisso de falar a verdade, anunciou a presidente:
"Ao contrário do antigo e questionável modelo de privatização de ferrovias, que torrou patrimônio público para pagar dívida, e ainda terminou por gerar monopólios, privilégios, frete elevado e baixa eficiência, o nosso sistema de concessão vai reforçar o poder regulador do Estado para garantir qualidade, acabar com os monopólios, e assegurar o mais baixo custo de frete possível."
"Ao contrário do antigo e questionável modelo de privatização de ferrovias, que torrou patrimônio público para pagar dívida, e ainda terminou por gerar monopólios, privilégios, frete elevado e baixa eficiência, o nosso sistema de concessão vai reforçar o poder regulador do Estado para garantir qualidade, acabar com os monopólios, e assegurar o mais baixo custo de frete possível."
Os
fatos
Poucos se lembram, mas eu me lembro, que Dilma anunciou justamente para as estradas federais o seu revolucionário método de concessão. Deu-se em 2007. Elio Gaspari até chegou a ficar encantado, como sabem. Antevi a falência de sua obra no mesmo dia. Tanto é verdade que agora ela decidiu lançar um novo programa. E, como se vê, faz questão de satanizar o passado.
Poucos se lembram, mas eu me lembro, que Dilma anunciou justamente para as estradas federais o seu revolucionário método de concessão. Deu-se em 2007. Elio Gaspari até chegou a ficar encantado, como sabem. Antevi a falência de sua obra no mesmo dia. Tanto é verdade que agora ela decidiu lançar um novo programa. E, como se vê, faz questão de satanizar o passado.
Ora,
ora, ora… As ferrovias também são concessões. E estão submetidas a uma agência
reguladora. O PT está no poder há dez anos. Então assistiu ao insucesso de uma
determinada prática e deixou tudo como está? Por que o governo não usa os
instrumentos legais que têm para garantir a eficiência do sistema? Porque é
incompetente!
Desde
o governo Lula, o país vive engabelado por planos mirabolantes de aceleração
dos investimentos e do crescimento que, não obstante, não saem do papel.Como
informava Fernando Dantas no Estadão de ontem, "a taxa de investimento da economia brasileira caiu quase o
tempo todo durante o governo de Dilma Rousseff, indo na direção contrária ao
objetivo da presidente de levá-la ao nível de 22% a 23% do Produto Interno
Bruto (PIB)." Ou ainda: "Dilma iniciou seu mandato com uma taxa de
investimento acumulada em quatro trimestres de 19,46% do PIB, que caiu para
18,83% em junho de 2012, tornando cada vez mais difícil alcançar o objetivo."
Essa é
a verdade dos fatos.
Não!
Eu não espero que um governante vá à TV dizer verdades incômodas sobre o país
ou sobre a sua gestão. Mas é o fim da picada que ocupe a máquina do estado para
o simples proselitismo, como fez a presidente - esquecendo-se, entre outras
coisas, que exerce seu cargo para todos os brasileiros, inclusive e muito
especialmente para quem não votou nela ou em seu partido. O que distingue a
democracia da ditadura não é necessariamente haver um governo que conte com o
apoio a maioria - todos os facínoras, num dado momento, gozaram de prestígio
popular. O que distingue a democracia da ditadura é o fato de que se respeitam
as vozes da minoria, dos que divergem, dos que dissentem, dos que discordam. Ao
tentar sequestrar, mais uma vez, a história, Dilma se esqueceu de que também é
presidente dos adversários que tiveram sua obra pisoteada.
Dilma
errou no conteúdo, errou no tom, errou até no tempo. Amanhã, anunciou ela
naquele discurso, divulga o pacote para baratear a energia doméstica e das
empresas. Que tenha, nesse ato, o decoro que não teve no pronunciamento do dia
6. E que tome o cuidado ético - será? - de não associar esse anúncio à sua
entrada no horário eleitoral do PT.
Os
petistas, especialmente a ala sindical ligada aos servidores, estão bravos com
a presidente. Ela resolveu acenar para o petismo lulista com aquela nota
atacando FHC e com o pronunciamento desta quinta. Lembrava, afinal, o que
alguns tentam - até o ex-presidente tucano - esquecer de vez em quando: afinal
de contas, ela é um deles, ainda que não seja a preferida da turma.
Fonte: "Blog Reinaldo Azevedo"

Um comentário:
Nem vou dizer que ela foi mal educada e grosseira conosco, porque seria redundância. E ela abusou demais do cargo, nos fez de trouxas e se colocou acima de tudo e todos.
Seria interessante alguém saber se a grana que a oposição paga em impostos é igualmente discriminada...e se bobear, é quem mais paga.
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