A sinopse de "Deus e o Diabo na Terra do
Sol", de Glauber Rocha, 1964: O cangaceiro Manuel (Geraldo Del Rey) e sua
mulher Rosa (Yoná Magalhães) são obrigados a viajar pelo sertão, após ele ter
matado o patrão, Moraes (Milton Rosa). Em sua jornada, eles acabam cruzando com
um Deus negro (Lídio Silva), um diabo loiro (Othon Bastos) e um temível homem
(Maurício do Valle).
A propósito, no próximo dia 10 de julho, 53 anos do
lançamento nacional de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", nos cinemas Caruso,
Ópera e Bruni-Flamengo, no Rio de Janeiro.
No livro que contém o roteiro de "Deus e o
Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha, Civilização Brasileira, 1965, a
constatação de sequência realizada em Feira de Santana, que foi locação do mais
importante filme realizado no Brasil em todos os tempos.
Sequência 8 EXTERIOR. DIA. FEIRA DE GADO EM FEIRA DE
SANTANA (na segunda-feira)
30. PG Fixo
Movimento da rua que leva à Feira do Gado; Manuel e
outros vaqueiros cruzam a rua a trote; vaivém de vaqueiros, bois, cabras,
tangerinos. Ruídos naturais.
31. PG Panorâmica
Feira do Gado. Movimento de bois e vacas. Muitos
vaqueiros. Manuel entra, em companhia de outros, e vem se misturando na feira.
Ruídos naturais; mugidos; ainda sons de violão dispersos; Manuel avança.
32. Panorâmica
Manuel entra pelos currais de gado; aproxima-se de
um lugar onde estão os patrões, na compra e venda de bois; Manuel pára o
cavalo. Um coronel conversa com outros; Manuel fala de cima do cavalo.
MANUEL: Bom-dia seu Moraes... Já trouxe as
vacas... Mas morreu ainda quatro...
MORAES: Beberam no açude do norte?
MANUEL: Sim, sinhô. Era onde tinha água.
Foi mordida de cobra... Trouxe doze vacas, queria fazer partilha prá acertá as
contas...
MORAES: Num tem conta prá acertar... As
vacas que morreram foram as suas...
33. PM
Manuel. Tempo. Ouve últimas palavras de Moraes. O
mugido mais intenso das vacas; as vozes dispersas dos compradores e coronéis;
Manuel desce do cavalo e vai até o coronel Moraes. Caminha lento e fala
humilde; a câmara enquadra Moraes.
MANUEL: Mas, seu Moraes, as vacas tinha era
o ferro do sinhô... Num pode ser logo as minhas que sou um home pobre... Foi
azar é verdade; as cobras mordeu as reses do sinhô...
MORAES: Isso foi descuido seu, preguiça...
Fica dormindo o dia inteiro e não olha o gado direito... Tá acabado e num quero
conversa, que a lei tá comigo...
34. PM
Manuel ouve as últimas palavras do Moraes, como uma
chicotada. Vira-se em PP. Ao fundo, Moraes continua conversando com os amigos;
Manuel se contém um pouco e vira-se; aproimando-se até mais junto de Moraes.
35. PM
Manuel aproxima-se e fala:
MANUEL: Dá licença outra vez, seu moraes...
Mas que lei é essa?
MORAES (fora de campo): Quer discutir?
MANUEL: Não... Só tou querendo saber que
lei é essa que num favorece meu direito...
MORAES (f/c): Quer discutir comigo? Já
disse, tá dito... Você não tem direiro a vaca nenhuma...
MANUEL: Mas, seu Moraes, o sinhô num pode
tirar o meu...
36. PM
MORAES: Tá me chamando de ladrão?
MANUEL (f/c): Quem tá falando é o sinhô...
Moraes subitamente se irrita e pega um rebenque.
Vem até PP maior e grita:
MORAES: Pra você aprender, ordinário, filho
da puta...
E bate violentamente com o rebenque, quatro vêzes.
37. PM
Manuel, como uma pedra, o rosto riscado de sangue,
olhos fixos em Moraes.
38. PM
Moraes com o rebenque
MORAES: Ainda discute comigo?
Manuel, com o rosto riscado de sangue; corte no
quadro; a mão de Manuel suspende um facão; corte, o facão; corte,
Moraes; corte, o facão em crescendo maior, e um GRITO!
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