Por Reinaldo Azevedo
Li em um dos noticiários eletrônicos que as manifestações e
protestos desta quinta foram marcados por "lideranças tradicionais", que
estariam tentando se aproveitar da "energia" (?) das ruas. Parece que essa
expressão compreende os líderes da Força Sindical, da CUT, do MST e de outros
movimentos sociais. A estes se oporiam, então, entendo, as "lideranças não
tradicionais". Não sei direito o que isso quer dizer. Acho que designa os
indignados que falam contra os partidos, contra a política, contra os políticos.
Devem ser os "líderes" do Twitter e do Facebook, os representantes de si
mesmos, que estariam a evidenciar a crise de representatividade ou, sei lá, a
falência dos regimes democráticos tradicionais. ATENÇÃO! VAGABUNDOS
INTELECTUAIS QUE FALAM NA CRISE DA DEMOCRACIA TRADICIONAL ESTÃO É INVESTINDO
NUMA DITADURA CRIATIVA…
Leiam o noticiário do dia e tentem achar um eixo para as
manifestações. Não há. Os sindicalistas dizem querer a redução da jornada de
trabalho de 44 para 40 horas e o fim do fator previdenciário. Os sem-terra vão
reclamar da suposta lentidão nos assentamentos; esse e aquele grupos pedirão
que saúde e educação tenham garantidos, respectivamente, 10% do Orçamento da
União; outros cobrarão a estatização das empresas de transportes públicos; há quem
peça a "desmilitarização da PM"; também existem os que não abrem mão da saída
de Renan Calheiros; o povo de não sei onde quer o fim de uma praça de pedágio;
os médicos rejeitam - por bons motivos, claro! -, o plano do governo para a
área; os pelegos da UNE estão protestando a favor de não sei quê (contra o
governo é que não é, certo?)… Bem, meus caros, cada um pegue a sua bandeira ou
cartolina, vá para a praça e decida cassar de terceiros o direito de ir e vir.
Nos dias em que um lema imbecil e autoritário como "Não me representa" é visto
como verdadeira poesia da cidadania, vale, então, o "eu me represento". Logo,
imporei a terceiros a minha vontade e a minha pauta. Quem não gostar que faça o
mesmo. O espaço público deixa de ser de todo mundo para ser terra de ninguém.
Ah, é claro que acho divertido ver o petismo passando calor. Há 11
anos combato algumas de suas farsas; há muito mais tempo critico seus viés
autoritário e sua concepção totalitária de estado. Mas não me peçam, no
entanto, para vibrar com esse "Je ne sais quoi" que tem levado as pessoas às
ruas e tem imposto ao Congresso o regime da vaca louca. Não vou. Uma coisa é o
PT se defrontar com suas próprias incompetências e ser confrontado com um
discurso racionalmente organizado, que aponte uma saída, uma alternativa;
outra, muito diferente, é o partido, ou seu núcleo duro, perder influência para
a anarquia, de sorte a forçar uma torção à esquerda, como está acontecendo, do
processo político.
Esse era, desde o início, o meu receio. E, por ora ao menos, a
pior perspectiva que eu enxergava está em curso. Peço que vocês tomem especial
cuidado com o discurso de alguns bobocas contra a política. Lembram-se do
movimento "Cansei"? Tinha um alvo, sim: significava "cansei do PT". Ele surgiu
não muito tempo depois do mensalão. Foi impiedosamente ridicularizado até por
humoristas da TV, que hoje estão a conclamar que o povo saia às ruas,
aplaudindo, inclusive, a hostilidade aos políticos.
Isso é má consciência. É preciso que se perceba e se rejeite uma
operação intelectual sutil e perigosa que está em curso: "Apostamos que o PT
faria tudo diferente. Nós nos decepcionamos. Se é assim, então não queremos
mais saber dos políticos". Como assim? Quer dizer que o petismo era a fronteira
possível da política? Quem não quer saber dos políticos quer, então, saber de
quem ou do quê?
Eis a hora em que lideranças realmente fazem falta. A presidente
Dilma, como se percebe, está perdida - é vaiada até quando anuncia que vai
liberar dinheiro para as prefeituras. Quem hoje fala em seu nome é Aloizio
Mercadante, cuja arrogância era detestada por seus pares quando estava no
Senado… Imaginem, então, falando como o homem forte do Executivo. A oposição,
convenham, tenta engrossar a voz das ruas. Ocorre que não temos um coro, mas
uma algaravia. O que aconteceria se um ET baixasse no Brasil e pedisse "Levem-me a seu líder"?
"Ah, Reinaldo, veja lá. O Senado aprovou em segunda votação uma
PEC que permite que projetos de lei de iniciativa popular possam ser
apresentados com a assinatura de apenas 0,5% do eleitorado (700 mil
assinaturas). O texto também prevê que se apresentem emendas à Constituição, o
que hoje não é permitido; nesse caso, será necessário ter a assinatura de 1%
(1,4 milhão). E essas assinaturas podem ser colhidas eletronicamente, por
intermédio da Internet."
É? E por que eu deveria ficar contente com isso? Satisfeito eu
ficaria se o país adotasse, por exemplo, o voto distrital, de sorte que a
população tivesse, aí sim, maior proximidade com seus representantes. Submeter
permanentemente a Constituição a minorias organizadas e barulhentas - e nunca à
maioria, que é sempre desorganizada e silenciosa - não me parece, lamento, uma
boa escolha. A primeira vítima de uma democracia que vivesse sob a tutela de
grupelhos organizados seria a segurança jurídica. Onde ela não existe, os
investimentos despencam, a confiança vai para o brejo, e se entra na espiral
negativa.
"Ah, esse é o discurso apocalíptico dos reacionários, dos que não
querem mudar nada…"
Besteira! É o discurso dos que acreditam que a mudança só é
duradoura quando se investe também na estabilidade. Querem um exemplo do que
não fazer? Se você, leitor, fosse um investidor, escolheria hoje a área de
transporte público, por exemplo? Por quê? A rigor, todos os setores com tarifas
controladas passaram a ser potencialmente perigosos.
Finalmente…
Sim, eu também estou entre aqueles que estranham o silêncio de
Lula. Ninguém ignora que duas são as especulações principais: a) a de que
estaria doente, evitando, então a exposição pública; b) a de que estaria
torcendo para o circo pegar fogo, estimulando no PT o movimento "queremista",
que já está em curso.
Não faço votos no mal de ninguém - nem de Lula. Espero que esteja
saudável. Estranho também, reitero, o seu silêncio, mas não vejo por que se
deva cobrar que fale alguma coisa, como se guardasse alguma verdade oracular. A
democracia lhe garante o direito de falar o que lhe der na telha, mas prefiro a
poesia do seu silêncio.
Encerro lembrando que é pura cascata esse negócio de que é próprio
das democracias a permanente mobilização da sociedade e coisa e tal. Não!
Próprio das democracias é a clareza das regras, democraticamente instituídas,
que funcionem e permitam às pessoas cuidar de suas próprias vidas e planejar o
seu futuro. Se a gente não consegue ir ao barbeiro ou supermercado porque as
vias estão obstruídas, alguma forma de ditadura está em curso…
Ainda voltarei a essas coisas todas. Agora vou ver uma igreja do
século 14. Ontem, uma das filhas me perguntou ao passar em frente ao monumento: "Será que dura mais sete séculos, pai?". Não sei.
Fonte: "Blog Reinaldo Azevedo"

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