Por Reinaldo Azevedo
Micou de maneira retumbante o tal Dia Nacional de Lutas. A CUT, a Força
Sindical, outras centrais e os partidos políticos de esquerda foram
malsucedidos na tentativa de pegar carona da onda de protestos que sacudiu o
país. Houve, sim, muita atrapalhação nas estradas, ocupação em porto,
escaramuças, dificuldades aqui e ali, mas nada nem remotamente parecido com os
protestos havidos no mês passado. ATENÇÃO, LEITOR! Se eu fosse um desses "cientistas sociais" que têm medo dos seus alunos e gostam de posar de
moderninhos - aquela gente, sabe?, que agora deu para falar em "crise da
democracia representativa" -, estaria achando lindo o que aconteceu. Mas eu não
acho, não. Na verdade, o evento desta quinta jogou ainda mais luzes sobre os
havidos no mês passado e só reforçaram alguns temores que eu tinha. O que
significa o micão desta quinta, em contraste com aquele milhão e meio de dias
atrás? Significa que reivindicar o inexequível é bem mais gostoso, o que nos
remete a um dos lemas de Maio de 1968, na França: "Seja realista, peça o
impossível". O evento também expõe uma das forças e, ao mesmo tempo, das
maiores fragilidades da "onda de protestos" no Brasil: a composição social de
quem vai ou foi às ruas. O primeiro passo para responder de forma eficiente à
realidade e admiti-la: os pobres, com raras exceções, preferiram, até agora,
ficar em casa.
Assim, entendam direito o meu ponto: não lamento o fato de o
protesto desta quinta ter sido malsucedido porque gostaria de ver a CUT, a
Força e até os petistas a liderar a massa… Eu não! Deus me livre! Lastimo é que
a pobreza de liderança política no Brasil se reflita também nos sindicatos e
que estejamos sem o fio que possa desatar o nó. Vamos lá. Milhões de
trabalhadores poderiam ter ocupado as praças para cobrar redução na jornada de
trabalho, certo? É uma reivindicação muito mais, como direi?, palpável do que
os tais 20 centavos. Mas aí alguém se lembrou de gritar: "Não é pelos 20
centavos". E estava dada a deixa para uma mobilização que tem, sim, âncoras no
mundo real - corrupção dos políticos, ineficiência do serviço público, gastança
de dinheiro -, mas que se expressa numa espécie de bolha de sensações e de
emoções. Para voltar a Maio de 1968, o que conta é fazer as barricadas do
desejo. A utopia é a da ausência de estado, assuma isso a forma violenta (os
baderneiros) ou pacífica (uma coisa, assim, "faça amor, não faça a guerra").
Cobrar redução da jornada e fim do fator previdenciário, olhem que
coisa!, parece apequenar o movimento e a razão por que se vai às ruas; é, como
diriam os adolescentes hoje em dia (de maneira irritante), "tipo assim" coisa
de pobre, de um pragmatismo incompatível com o sonho e com as evocações
românticas. Os "sonháticos" querem um outro mundo possível… Não! Na verdade,
pretendem um outro mundo… impossível. Nele, não só os políticos não roubam
como, a rigor, não há políticos nem política.
É claro que eu poderia lembrar àqueles valentes cientistas sociais
que têm medo de contrariar os alunos que também as manifestações de junho
levaram às ruas as… minorias!, ainda que tenham mobilizado, sei lá, 20 ou 30
vezes mais gente do que a desta quinta-feira. Huuummm… Então vamos ver: líderes
que efetivamente representam grupos e com os quais se podem fazer acordos
mobilizam meia dúzia de gatos-pingados; não líderes - e que, portanto, não
lideram, mas alçados pela imprensa à condição de estrelas da não representação - conseguem criar eventos que reúnem alguns milhares. Muito bem! O que se
vai negociar com eles? Chamem a Mayara Vivian e os coxinhas radicais do Passe
Livre…
Há quem se deixe cair de encantos por um paradoxo cuja graça,
havendo alguma, é não mais do que literária - e literatura meio velha, da
década de 60: a "juventude" (ah, os tarados pela juventude…) que está nas ruas
tem força, mas não sabe o que quer, e os que sabem o que querem já não têm
força. Mas onde está a virtude desse troço? Se isso produzir algo, tenho minhas
dúvidas, será, no máximo, um impasse. Para o qual ninguém tem resposta.
Dilma está encalacrada? Está, sim, de dois modos distintos: há o
impasse de fundo, que diz respeito ao esgotamento do modelo lulo-petista, do
qual, vamos ser francos, até havia pouco, a esmagadora maioria da imprensa não
havia se dado conta. Ou havia? Leiam os jornais de há dois ou três meses. Com
ou sem "povo" na rua, o país ia mal das pernas. E agora ela enfrenta o descontentamento
com "tudo isso que está aí". Ocorre que esse "tudo isso" pode se voltar contra
qualquer um; ele é dirigido, na verdade, contra o governante de turno. E não
consegue se transformar numa agenda.
Essa conversa mole da "sociedade horizontal", sem hierarquia de
valores, sem eixo e sem centro, sinto muito, é conversa de bêbados. É divertido
e coisa e tal, mas sempre chega a hora de pagar a conta e de voltar para casa -
sem contar a ressaca… Não vai a lugar nenhum e ainda pode produzir alguns
desastres. Boa parte do que o Congresso votou até agora, emparedado pelas ruas,
se querem saber, não é coisa boa e tende a ter efeitos deletérios. Na esfera
econômica, o país vive um congelamento branco de tarifas públicas que pode ter
efeitos desastrosos. Ensaia-se facilitação de mecanismos de democracia direta
que, se efetivados, tornarão a democracia brasileira refém de minorias
organizadas e barulhentas.
Caminhando para a conclusão
Sim, as centrais sindicais e os partidos quebraram a cara ao
tentar, de maneira oportunista, pegar carona no movimento das ruas. Tiveram uma
lição e tanto. Mas isso só nos diz o tamanho do impasse e os riscos que estão
por aí. Não há nada de belo ou de bom numa sociedade sem interlocutores
considerados confiáveis para articular o futuro. Vivemos, nesses dias, sob uma
espécie de ditadura do presente.
Pode dar em quê? No quadro atual, há, sim, o risco de eleger em
2014 alguém que fale em nome da "não política", e aí saberemos o que é crise!
Mas o mais provável é que se tenha mesmo uma saída "conservadora" - no caso,
conservadora do statu quo; vale
dizer: a continuidade do petismo. E isso seria igualmente
desastroso.
Fonte: "Blog Reinaldo Azevedo"

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