Branca Nunes
Em vez dos cartazes de
cartolina com dizeres manuscritos - NÃO SÃO SÓ 20 CENTAVOS, QUEREMOS HOSPITAIS
PADRÃO FIFA, TOLERÂNCIA ZERO PARA A CORRUPÇÃO e várias reivindicações bem
humoradas -, banners, a grande maioria vermelhos, com slogans como "O petróleo é nosso", "Não à
terceirização", e "Pela taxação das grandes fortunas". Em vez das bandeiras do
Brasil e das caras pintadas de verde e amarelo, estandartes da CUT, da Força
Sindical, do Sindicato dos Comerciários, do Psol, da UNE, do PSTU, do MST e de
dezenas de partidos e movimentos sociais. Em vez de palavras de ordem cantadas
em coro, berros individuais vindos do carro de som.
Nesta
quinta-feira, todas as bandeiras que haviam desaparecido - ou sido expulsas -
das ruas nas manifestações que tomaram conta do país desde 6 de junho
reapareceram na avenida Paulista atendendo à convocação das centrais sindicais
engajadas no Dia Nacional de Luta com Greves e Mobilizações. Em
compensação, a população apartidária sumiu - e o 11 de julho foi marcado por
mais do mesmo: os mesmos discursos inflamados contra o capitalismo, a direita
golpista, a Rede Globo e outros inimigos de sempre.
Ao contrário do que se via
nas manifestações anteriores a pretendida greve geral desta quinta-feira teve
mais bandeiras de centrais sindicais e partidos do que manifestantes. Os
discursos no carro de som não provocavam nem aplausos nem vaias. E gritos de
guerra como "eu, sou brasileiro, com muito orgulho", que os dirigentes tentaram
puxar mais de uma vez, morriam antes da segunda frase - nada a ver com os hinos
entoados durante os protestos do Movimento Passe Livre, que contagiavam
multidões.
O acordo intersindical que
excluiu o "Fora Dilma" da pauta de reivindicações parece ter dado certo. Ainda
assim, as bandeiras do PT eram as mais envergonhadas - e tanto Dilma quanto
Lula não escaparam de críticas no asfalto e no palanque. Enquanto Ana Luiza,
que disputou a prefeitura de São Paulo pelo PSTU clamava "contra a política
econômica do governo Dilma, contra Alckmin e contra Haddad", um representante
do recém nascido Partido Pátria Livre (PPL) fez questão de "saudar o PT e saudar
o Lula" nos três minutos a que teve direito no serviço de som. Algumas faixas
chamavam José Eduardo Cardozo de Ministro da Injustiça e exigiam o mesmo
reajuste salarial concedido aos ministros.
Se o objetivo das centrais
era pegar carona na revolta da rua, elas podem considerar-se derrotadas. O
contraste entre as duas manifestações foi tão gritante que apenas escancarou o
abismo entre o que quer a população e o que lhes oferece quem está no poder
(seja nos governos, nos partidos ou nos sindicatos), entre uma forma nova de
expressar-se e outra completamente ultrapassada, entre o autêntico e o
artificial. Embora se apresentem como representantes do povo, povo era o que
menos se via entre as pouco mais de cinco mil pessoas que ocuparam duas quadras
da avenida mais emblemática de São Paulo.
Fonte: Coluna do Augusto Nunes

Nenhum comentário:
Postar um comentário