Por Marco Antonio Villa
As manifestações ocorridas em São
Paulo nas últimas duas semanas permitem algumas reflexões. Que o transporte
coletivo é ruim e caro, para os padrões do serviço oferecido, ninguém discorda.
Mas não é esta a questão que está no centro do debate.
O que se discute é como combinar a
defesa do estado democrático de direito, a liberdade de manifestação e o
direito de ir e vir. O que está ocorrendo em São Paulo não tem qualquer relação
com as manifestações de Brasília ou do Rio de Janeiro. Nestas cidades, o centro
das reivindicações são os gastos abusivos da Copa do Mundo e o abandono daquilo
que afeta o cotidiano da população: saúde, educação etc.
É como em 1968: enquanto no Rio a
passeata dos cem mil defendia a democracia, em São Paulo, no mesmo dia, teve o
atentado terrorista contra o II Exército.
Na busca de paralelos onde eles não
existem, já foi possível ler e ouvir relações entre as manifestações de São
Paulo com o que aconteceu nos países árabes, na Turquia, ou até com 1968.
Os mais exaltados apontaram que nada mais é que o mal-estar da
civilização com a globalização e que o capitalismo vive uma crise terminal
(como profetizado desde o século XIX...). Os jovens seriam emissários desta
nova ordem pós (sempre tem de ter um "pós") globalização, uma continuidade do
falecido movimento Ocuppy Wall
Street. Lembram-se que, em 2011, diziam que o movimento iria se
espalhar pelo mundo inteiro? O que aconteceu semanas depois? Nada.
A tentativa de relacionar com
momentos da nossa História onde inexistiam - como agora - um regime de amplas
liberdades é patética. Neste ritmo, logo veremos algum estudante de 68 gritando - 45 anos depois, já idoso - pelas ruas de São Paulo: "a luta continua." Qual
luta?
A organização efetiva dos atos não é
de um movimento autônomo, apartidário, de jovens insatisfeitos com a política e
desejosos de encontrar alguma forma de participação. Nada disso.
Quem efetivamente dá as ordens são
pequenos grupos ultraesquerdistas. E o fazem para dar alguma satisfação aos
seus exíguos militantes. Estão há anos discutindo e escrevendo sobre a crise do
capitalismo. Falam e não encontram adesão na sociedade. Continuaram só falando.
E foram perdendo o ralo apoio que tinham.
Sem crise econômica e um desemprego
monstruoso, como em vários países europeus, restou a estes grupos encontrar
algum móvel de luta, para que não desaparecessem.
O aumento das passagens de ônibus - abaixo da inflação, registre-se - caiu do céu. Foi o meio que as lideranças
obtiveram para ter a legitimação das bases cansadas de ouvir discursos
revolucionários sem uma efetiva ação.
O ataque aos bens públicos e
privados, a tentativa de linchamento de um policial militar na praça da Sé,
atos que não têm qualquer relação com o aumento das passagens, são vistos como
ação revolucionária, de resistência ao capitalismo e ao seu poder opressor, a
polícia.
O vandalismo é o alimento destes
grupelhos que agem de forma violenta, desprezando os valores democráticos e os
direitos constitucionais. Sonham com um Brasil nos moldes de Cuba, Coreia do
Norte. Não entendem que a liberdade de manifestação não se sobrepõe ao direito
de ir e vir. E este é o desafio da democracia: garantir ambos os direitos. E
agir com energia - dentro dos limites legais - quando qualquer um deles estiver
sendo violado.
Nestes momentos de tensão - inerentes
ao regime democrático - é que são testadas as autoridades. O governador de São
Paulo não se omitiu. Presumo que saiba que tem um custo político a defesa da
lei e da ordem democráticas em um país que valoriza e estimula tudo o que é
ilegal.
Temos uma propensão à marginalidade.
No caso das manifestações há os que justificam o vandalismo como uma forma de
protesto, de insatisfação, de jovens que são incompreendidos pelo que chamam de
sistema. E a ação do estado democrático de direito é demonizada.
Como é possível conter a destruição
de ônibus, lojas, bancas de jornais, bares, liberar ruas e avenidas, sem o uso
da força? E os abusos cometidos pela ação policial deverão ser investigados e
devidamente punidos.
É evidente a tentativa do governo
federal de obter algum dividendo político das manifestações. As declarações dos
ministros José Eduardo Cardozo e Ideli Salvatti visam a desgastar politicamente
o governador Geraldo Alckmin. Os mandriões atacaram quem simplesmente fez
cumprir a Constituição.
A pergunta é: quem vai ganhar,
politicamente falando? Ou será que todos - os partidos constituídos - vão
perder?
Não faltam praças para mostrar
indignação contra tudo e todos. Por que não aproveitam e pedem a prisão dos
mensaleiros, a começar pela do sentenciado José Dirceu? Mas não é esse o
objetivo dos manifestantes em São Paulo, volto a dizer, diferentemente do Rio
ou de Brasília.
Grande parte dos manifestantes - especialmente a liderança que se pronuncia pela imprensa - é da classe média.
Da classe média mesmo, não daquela inventada pelo petismo, a tal "classe C." Nas imagens não encontrei trabalhadores, pobres, negros.
Não vi também, protegendo os próprios
municipais, a Guarda Civil Metropolitana. Foram omissos, como o prefeito
Fernando Haddad - e o aumento das passagens de ônibus é da esfera da
prefeitura. E a Câmara de Vereadores? Mutismo total. Os 55 vereadores servem
para quê?
Pode ser que a luz contra o marasmo
venha do Rio ou de Brasília.
* Marco Antonio Villa é historiador
Fonte: "Blog do Noblat"

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