Por Reinaldo Azevedo
A imprensa brasileira, nessa sua fase
criativo-cidadã-participativa, deu para criar categorias com as quais pretende
corrigir a realidade para justificar a sua militância. Assim, inventa coisas
como "cura gay", "bolsa estupro" e… "maioria pacifica". Já escrevi sobre as
três e vou me ater um pouco mais sobre essa terceira. A "maioria pacífica" designa as pessoas que estão ocupando as ruas contra o aumento da tarifa de
ônibus e que não promovem quebra-quebra, saques nem recorrem a coquetéis molotov
para dizer o que pensam - e sobretudo o quanto… deixam de pensar. Esses seriam
os lhanos, os mansos de espírito, aqueles a quem deveríamos ser gratos,
exaltando as suas virtudes democráticas, com expressões como "Que coisa
emocionante! Que coisa bonita! Que bacana!" Ontem, mais de uma vez, fui tomado
pela vergonha alheia. Raramente ouvi tanta bobagem em prazo tão curto.
As TVs foram tomadas, assim, por um tom missionário. É como se a
Dona Maroca estivesse cobrindo os eventos das praças Tahrir e Taksim. À "maioria pacífica", opor-se-ia a minoria dos baderneiros, os que saem ateando
fogo em tudo o que veem pela frente, depredando prédios públicos, quebrando
aparelhos urbanos, querendo briga e confronto. Esses seriam os maus. E esses
maus, insistem os criadores de categorias, não representariam aquela maioria de
pessoas bem intencionadas.
Trata-se, lamento, de uma fraude intelectual, em primeiríssimo
lugar, e de uma fraude jornalística, dela decorrente, que remete também a uma
questão que diz respeito ao ordenamento jurídico, que está sendo incendiado nas
redações, como o lixo anda a ser incendiado nas ruas.
A distinção bate, de saída, numa questão de lógica elementar. Se a
minoria baderneira não representa a maioria supostamente pacífica que está nas
ruas, esses dois grupos juntos formam uma minoria que, por seu turno, não
representa a maioria das cidades. É simples, é óbvio, é elementar. De resto,
nem maiorias nem minorias podem desrespeitar as leis sem que lhe advenham
consequências.
É estúpido!
Cabe perguntar:
1. Que diabo de "maioria (da minoria!!!)
pacífica" é essa que impede o direito de ir e vir, que se atribui a licença de
paralisar as cidades, que acredita poder impor a milhões de pessoas a sua
pauta, a sua agenda, os seus métodos de luta?
2: Que
diabo de "maioria pacífica" é essa que aceita se reunir com o secretário de
Segurança Pública para conversar, mas jamais para negociar? Que aceita se
reunir com o prefeito para conversar, mas jamais para negociar?
3: Que
diabo de "maioria pacífica" é essa que arranca do secretário Fernando Grella,
por exemplo, o compromisso de que não haveria tropa de choque, de que não
haveria obstrução de ruas pela Polícia, de que não haveria bala de borracha
etc, mas que não deu nada em troca? Não aceitou nem mesmo entregar um
itinerário para facilitar o trabalho de segurança. São pessoas que agem como se
estivessem apartadas da ordem democrática. No Roda Viva, um dos seus
arrogantezinhos sugeriu que o que quer aconteça de ruim em São Paulo é de
responsabilidade de Geraldo Alckmin e Fernando Haddad. Afinal, por que eles não
revogam o aumento? Bem, uma jornalista e dois "inteliquituais" afirmaram o
mesmo ontem…
4: Que
diabo de "maioria pacífica" é essa que atribui toda a violência havida na
quinta-feira passada à Polícia Militar, sem nem mesmo admitir a parcela de
culpa dos vá lá, radicais?
5: Que
diabo de "maioria pacífica" é essa que não concede ao prefeito Haddad nem mesmo
um prazo, então, para estudar planilhas de custos e, eventualmente, fazer uma
sugestão? Não! É tudo ou nada e é agora! Como lembra a professora Janaina
Paschoal, num artigo magistral para este blog, eles não sabem ouvir "não" como
resposta. Na verdade, eles não sabem ouvir um "talvez". Birrentos, querem o
doce na hora. E fim de papo. Ou é a redução já ou, anunciam, é gente na rua,
cidade parada, caos.
Eu tenho uma novidade para os queimadores de Constituição das
redações, tratada como se fosse o lixo das ruas. Os bandidos que saqueiam
lojas, que depredam patrimônio público e privado, que saem por aí metendo fogo
nas coisas incidem numa penca de artigos do Código Penal. Têm de ser presos.
Mas esses que vocês chamam "maioria pacífica" violam cláusulas pétreas da
Constituição, violam direitos fundamentais.
Esses que estão sendo tratados como heróis por uma penca de
más-fés cruzadas (e por muitos inocentes esperançosos) estão estabelecendo novos marcos da luta política no Brasil. Na
verdade, trazem para cá, de forma ainda incipiente, táticas filoterroristas que
vêm sendo objeto de especulação teórica de alguns chamados neomarxistas, que
acreditam que a luta política tem de se dar em duas frentes: a) na
desarticulação dos chamados costumes conservadores - e, nesse caso, os
principais alvos têm de ser família e a religião (o cristianismo, claro!); b)
na desmoralização contínua, permanente, das instituições do estado.
Curiosamente, alguns mal chamados "libertários", ultraliberais em
economia, têm uma agenda muito parecida. Mas isso fica para outra hora.
Eu estou pouco me lixando se essa gente tem ou não consciência do
que está fazendo ou falando. O que me interessa é a consequência de suas
escolhas para o país. Vejo a sua prática e me pergunto: e sr seu método se
generaliza e se consagra? NOTA: Ontem, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, se
propôs a receber o movimento. Resposta: a turma só fala com o prefeito se a
Polícia soltar três pessoas que estão presas, envolvidas naquela tentativa de
linchamento dos policiais na Assembleia Legislativa.
Noto que, até agora, as ditas lideranças de um movimento
supostamente sem líderes não veio a público para condenar o vandalismo. E não
vêm por cálculo. Enquanto essa suposta "maioria pacífica" puder contar com os
ditos "radicais" como seus aliados objetivos, sempre poderá posar de moderados,
ainda que rasgando a Constituição, sob o aplauso quase unânime da imprensa.
A mesma imprensa que está tendo de se esconder para não apanhar.
Ou eles batem, ameaçam, metem fogo.
Isso é fascismo destrambelhado, não democracia!
Fonte: "Blog Reinaldo Azevedo"

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