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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Homenagem a Francisco Pinto e lembranças de Olney São Paulo

Por Dimas Oliveira, que conviveu com o cineasta

A Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) está promovendo o seminário “Chico Pinto - Democracia e Ditadura em Feira de Santana e no Brasil”, sobre a vida e a trajetória política do feirense Francisco Pinto, conhecido nacionalmente pela sua luta contra a ditadura. Durante o evento, nesta quarta-feira, 19, às 19 horas, a exibição do filme “Pinto Vem Aí”, do cineasta feirense Olney São Paulo (1936-1978), realizado em 1976, em 16 mm, com 25 minutos, sobre a vinda do político para esta cidade para participar de campanha eleitoral de Colbert Martins para prefeito, em 1976. “Pinto Vem Aí” foi premiado no V Festival Brasileiro de Curta-Metragem do Jornal do Brasil.
A homenagem à Francisco Pinto é motivo para recordar do “Cineasta do Sertão”, como a jornalista e escritora Ângela José o considerava.
Em Feira de Santana, Olney deu nome a Cine Clube - que não está mais em atividade; seu filme “O Grito da Terra” virou nome de jornal - também extinto; teve mesa com seu nome no Balcão Di Vidros - um bar que já fechou. Também foi nome de premiação, em 1994, do Salão Universitário de Artes Plásticas, do Museu Regional de Arte. Na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) existe o Coletivo Olney São Paulo, entidade formada por professores e alunos para estudar cinema. Na Galeria Carmac, no centro da cidade, tem um espaço chamado praça Olney São Paulo, e no Tomba existe uma extensa rua com seu nome. No Iguatemi, nomina a praça de alimentação do shopping. Ele também foi estudado para uma seleção de mestrado em História da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, por Johny Guimarães, com a proposta “O Sertanejo no Cinema de Olney São Paulo”. Por fim, é tema de livro, “Olney São Paulo e a Peleja do Cinema Sertanejo”, de Ângela José.
No ano de sua morte, a então Secretaria de Turismo (Setur), com Antônio Miranda à frente, promoveu no auditório da Biblioteca Municipal Arnold Silva uma mostra “in memorian” dos filmes “Um Crime na Rua” (fragmentos), “Ciganos do Nordeste” e “Pinto Vem Aí”. O espaço ficou superlotado, mas não por pessoas interessadas na obra do cineasta e sim em ver Francisco Pinto na tela, causando até tumulto. A edição de 1978 da Jornada Baiana de Cinema fez homenagem a Olney. “Muito Prazer”, filme de David Neves, com o filho Ilya São Paulo no elenco, teve lançamento em Feira. Mas, “Pinto Vem Aí” não é o principal trabalho de Olney, sim “Manhã Cinzenta”, de 1969, que foi apresentado em vários festivais internacionais, como Pesaro (Itália), Cracóvia (Polônia), Mannheimm (Alemanha) - onde foi premiado com o Filmdukaten, em 1970, e causou curiosidade nos alemães com sua presença, pois ele foi para o festival de sandálias de tiras de couro cru, naturalmente compradas na feira livre de sua terra -, Londres (Inglaterra), Havana (Cuba), e Viña Del Mar (Chile). “Manhã Cinzenta” (rèalisé par Olney A Sau Paulo) também participou de mostra paralela no Festival de Cannes (França), em 1970. Em 1976, participação no V Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz (Portugal).
Olney foi até elogiado por Orson Welles (realizador do maior filme de todos os tempos, “Cidadão Kane”), para quem “Manhã Cinzenta” era um filme extraordinário. Glauber Rocha chamou Olney de “mártir do cinema brasileiro”, disse mais que ele “é a metáfora de uma alegoria. Alegorias estas que muitas vezes foram barradas mas que nunca deixaram de ser registradas”. Sobre “Manhã Cinzenta”, o crítico e cineasta Rubem Biáfora comentou em “O Estado de São Paulo”: “Uma fita mais abertamente polêmica, que a Censura cometeu o erro e a inutilidade de proibir”. A empresa Dezenove Som e Imagem, em São Paulo, dedicada a “filmes de autor”, tem em seu acervo uma cópia de “Manhã Cinzenta”.
EXIBIÇÃO CLANDESTINA
Poucos conhecem o média-metragem em Feira de Santana. Assistimos ao filme, mais de uma vez, porque conseguimos um projetor de 16mm para que Olney mostrasse a cópia que tinha em mãos, projetada em sessões secretas numa parede de casa de familiares. A exibição clandestina não satisfazia Olney, que morreu tentando uma revisão da Censura.
Com “Manhã Cinzenta”, como disse Adilson Simas, Olney garantiu um lugar na História. “Ele é o único cineasta brasileiro a ser preso, torturado e processado pelo crime de ter feito esse filme”.
No filme, o registro das ruas em um momento histórico: a crise estudantil de maio de 1968 e a atuação da repressão. Tem o fato de que uma cópia acabou nas mãos de um dos seqüestradores do Caravelle desviado para Cuba, em 1969, e Olney foi preso sob a suspeita do filme ter sido exibido aos passageiros como prova da repressão da ditadura.
O filme foi censurado por ser considerado “altamente subversivo”, por “incitar o povo contra o regime vigente”. Assim, Olney viu-se enquadrado na Lei de Segurança Nacional e processado, em 1971. O autor ficou com o rótulo de maldito, ganhando aposentadoria compulsória no Banco do Brasil, onde tinha um emprego conseguido por concurso - ele começou a trabalhar na agência de Feira de Santana e depois foi transferido para o Rio de Janeiro. Na prisão, Olney teve a saúde debilitada e ele morreu aos 41 anos.
LITERATURA
Ainda sobre o cineasta: além de inscrever seu nome - e o de Feira de Santana - no cenário cinematográfico nacional e internacional, Olney São Paulo também era ligado à literatura. Ele escreveu o livro de contos “A Antevéspera e o Canto do Sol”, que teve concorrido lançamento na Livraria Jacuípe. Olney foi diretor da revista “Sertão”, órgão da Associação Cultural Filinto Bastos, exclusivamente cultural. Ele também assinava a coluna Cineópolis no jornal “O Coruja”, do Colégio Santanópolis, onde estudava. Começou escrevendo sobre cinema antes de fazer filmes.

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