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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

"País do Carnaval": o velho entrudo como política de estado"




A evolução tecnológica e o desenvolver das ciências nos elevam a condições de vida cada vez mais sofisticados, mas não se alteraram no homem sua características, desejos e necessidades mais essenciais. Dentre as quais, está a capacidade de confrontar sua condição enquanto integrante de uma sociedade. Tal capacidade é o grande empecilho encontrado pelos aspirantes ao pleno poder político desde os tempos do antigos imperadores até hoje.
Uma das estratégias políticas mais emblemáticas e conhecidas de Roma, a política do "pão e circo" visava conter possíveis distúrbios sociais decorrentes das péssimas condições de vida geradas pelos próprios governantes. Consistia em saciar a fome e conter os ânimos dos cidadãos através do entretenimento em arenas como o Coliseu, com lutas de gladiadores, encenações, corridas de bigas e quadrigas. Cada César que subia ao poder, tinha, dentre suas metas de governo, o patrocínio de mais dias de entretenimento seguidos do que o César anterior. Quem controla a massa, controla o poder e nele se mantém.
Passados os séculos, a manipulação por meio do espetáculo ainda é usada pelo estamento político, que faz uso de antigos e novos entretenimentos coletivos, conjugados com modernas técnicas de persuasão e inoculação anestésica de novos modos de pensar e agir.
Dentre tudo o que o colonizador português legou ao Brasil, consta a tradição europeia do Entrudo, uma série de jogos e brincadeiras populares realizados de forma espontânea pela população nos três dias anteriores à Quaresma. Por volta do século XIX, governantes passaram a tentar acabar com essa festa popular, considerada grosseira, suja e violenta, tendo com isso perdido força nos primeiros anos do século XX.
Não obstante, e como fruto das influências positivistas e iluminsitas que o estamento político brasileiro herdou da Revolução Francesa, houve o reavivamento da tradição portuguesa do Entrudo, sob o nome de Carnaval. O festejo então deixa de ser uma festa do povo para constituir-se parte da política do Estado. Fartamente patrocinada por verbas estatais através dos três entes da federação, a simples manifestação popular torna-se uma ferramenta política para conduzir as massas como gado.
Em Roma, césares patrocinavam com as verbas dos impostos pão e circo; hoje, o Estado Entrudo Brasileiro patrocina camisinhas e circo através do esperado Carnaval. Vale destacar que tanto no Entrudo original quanto na política do pão e circo, o entretenimento estava ligado a jogos e interpretações de situações do cotidiano e da história. No Estado Entrudo Brasileiro, os festejos carnavalescos se estendem por todo o ano, através dos campeonatos de futebol e das novelas que trazem implícita a agenda política. Com uma agenda de entretenimento como essa, o estamento político brasileiro supera os Césares de Roma.
O estamento sabe que a exposição contínua a essa série de entretenimentos induz uma petrificação do imaginário, que anestesicamente retira do cidadão sua ínsita capacidade de, por si, criar, destruir e recriar sua auto-determinação conforme o que a realidade lhe impõe, pois perde o ímpeto de confrontar hipóteses opostas às versões dos fatos que lhe são apresentadas. Seu entendimento fica, a cada dia, menos operado por si mesmo e cada vez mais dependente das agendas da elite política disseminadas pela mídia de massa.
A elite domina o processo tal qual o escritor de um romance direciona e conduz os personagens de sua obra, e sabe que um estado de indignação e de cansaço dos cidadãos para com os desmandos do governo, quando intermediado por um festejo, é revertido: as tendências agressivas são neutralizadas, e o cidadão, após extasiar-se nos folguedos, não só retorna para seus afazeres diários com "ânimo renovado" para enfrentar as dificuldades geradas pelo próprio estamento político, mas tende à conformação, e a julgar que pouca coisa pode fazer para mudar o estado de coisas. Como se já não bastasse o massacre midiático que obstrui sua capacidade de percepção da realidade política - a primeira arma de um cidadão vivendo numa democracia -, e que é exatamente aquilo que pode fazer, num segundo momento, fazer alastrar-se a rede de contrapontos capaz de sanear, aos poucos, uma cultura manipulada pela elite.
O domínio do imaginário e do comportamento da população por parte da elite, que usa Estado Entrudo com o trio carnaval, futebol e novela, chegou ao ponto de não só esses entretenimentos serem tidos como caracterizadores da identidade nacional, mas de influenciar a massa de tal forma que, em muitos ambientes, tudo o que, a essas três coisas e a mais algumas irrelevâncias não se refira, causa instantâneo repúdio. Não se pode pôr em discussão  algum tema mais relevante, ou simplesmente que se critique a desproporcional importância e tempo diário que estão perdendo com tais distrações até mesmo em detrimento do crescimento pessoal. E o fenômeno não se restringe à massa inculta. Acomete também cidadãos letrados.
Nos dias correntes, nada mais eficiente para apaziguar os ânimos exaltados pela corrupção exposta pela Operação Lava Jato e pela calamidade em que se encontra a economia do que festejos e entretenimento.
Ao povo brasileiro, transformado em folgazão através do Estado Entrudo, totalmente representativo do seu atual estado de embriaguez psicológica e moral, cito trecho do livro 'As Ilusões Perdidas', de Honoré de Balzac:
No dia seguinte pela manhã, Lucien, que acabara de compor sua última canção, procurou cantá-la segundo uma música então em voga. Ao ouvi-lo cantar, Bérénice e o padre tiveram medo que tivesse enlouquecendo:
Amigos, a moral na canção
Causa-me e me entedia;
Quando é à Loucura que se serve?
Aliás, diz Epicuro, todos os refrãos são bons
Quando se brinda com folgazões
Não procuremos Apolo
Quando Baco nos entretém;
RIAMOS! BEBAMOS! E ZOMBEMOS DE TUDO O MAIS.
Hipócrates a todo bom bebedor
Prometia cem anos.
Que importa, ao final, se por desgraça
A perna vacilante não mais pode perseguir sua gatinha?
Basta que, para entornar uma garrafa,
A mão seja sempre ágil!
Bebendo e brindando assim
Até os sessenta anos chegaremos.
RIAMOS! BEBAMOS! E ZOMBEMOS DE TUDO O MAIS.
Deseja saber donde viemos,
É muito fácil: Mas, para saber onde iremos,
É preciso ser astuto.
Enfim, sem nos inquietar,
Usemos até o final, da bondade celeste!
É certo que morreremos;
Mas é igualmente certo que vivemos;
Riamos ! Bebamos! E zombemos de tudo o mais.
Não é sem motivo que dizem que "Deus é brasileiro". Para o estamento, ótimo. A elite não quer cidadãos conscientes, e sim folgazões, indiferentes, viciados e amorais: quatro tipos não apenas facilmente maleáveis, mas que também infestam as instâncias de poder e governo no país.
O povo transformou-se num amontoado de pessoas as mais epidérmicas possíveis, sem nenhum valor universal relevante a legar a seus descendentes e ao mundo; o legado é o maior caso de corrupção governamental já constatado na história, sendo esse o maior exemplo do que ocorre quando a população tem suas ações e conclusões substituídas pelas que foram inoculadas pelo estamento.
É difícil saber quando isso vai mudar. Pois depende do insurgir-se de cada um face ao Estado Carnavalesco em que vivemos, dando, cada indivíduo, o devido grau de importância a tudo, e também a formas melhores e mais enriquecedoras de entretenimento.
Até esse dia chegar, infelizmente, continuará a massa agindo como no poema de Balzac, rindo, bebendo e zombando de tudo. Afinal, o carnaval, e, junto com ele, o Estado Entrudo, está aí, para proporcionar a festa que afunda o povo brasileiro cada vez mais no mar da insignificância e da subserviência.
Adalberto Salvador Perillo Kühl Júnior é advogado e reside em São Paulo.
Fonte: "Mídia Sem Máscara"

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