Discurso proferido pelo professor Ruy Espinheira Filho, paraninfo da turma de Letras da Universidade Federal da Bahia, em 2 de setembro deste ano:
Srs. professores, estudantes, autoridades aqui presentes ou representadas, senhoras e senhores.
Meus caríssimos formandos:
Senti-me muito comovido ao ser convidado para fazer parte desta festa. Pensava que, depois de cerca de ano e meio de aposentadoria, já estaria esquecido por todos com os quais trabalhei em sala de aula. Agora, peço perdão por ter-me esquecido - gravíssimo esquecimento! - de como a juventude é generosa sempre, inclusive em sua iluminada memória. Perdoem-me, pois, e muito obrigado pela honra.
A primeira coisa que eu dizia, na aula inaugural de cada semestre, era que minha presença ali como professor de Literatura tinha muito de absurdo - porque a Literatura, sendo uma arte, não pode ser ensinada. De fato, podemos ensinar técnicas de escrita, história da literatura, crítica e teoria literária, mas a Literatura só passa a nos habitar se for vivida. É o que acontece com todas as artes, cuja fruição necessita de um contato direto. Por mais que estudemos arte, através da ótica alheia, não conseguiremos chegar à sua essência. E se nos limitarmos a concordar com o juízo alheio, ficaremos conhecendo apenas o que os outros nos dizem - e não o que nos pode servir a nossa própria sensibilidade.
Vejam que eu disse sensibilidade, não inteligência. Poderia, sim, utilizar a palavra inteligência, mas teria que explicar tratar-se de outra inteligência, bem mais rica e vasta - a inteligência emocional. Muitíssimo além do unicamente intelectual, das racionalizações, da lógica, da lucidez diurna de Animus, a inteligência solar, pois se trata da inteligência, ou alma, profunda, que pertence a Anima, fonte geradora das artes, com a metafísica que as torna de todos os homens, em todos os lugares, em todos os tempos. Artes que não podem ser domadas pela História, nem pela Crítica, imunes a classificações e teorizações, que se processam e nos falam em seu próprio espaço, o qual mereceremos – ou não – de acordo com o que sejamos capazes de ouvir do canto de Anima.
Para tornar mais claras estas palavras, referindo-me agora apenas à Literatura, lembro que não só o autor é artista – mas também o leitor. O autor põe um mundo em movimento, mas sua dimensão, seu significado, dos fatos cotidianos à metafísica, depende de quem lê. Como se sabe, toda leitura é única, pertencendo a cada leitor – e mais: é única mesmo noutras leituras do mesmo leitor. Assim, as qualidades do leitor e da obra se complementam. Às vezes, infelizmente, os leitores de uma geração, ou de várias, não são capazes de merecer certas literaturas, preferindo obras medíocres às que trazem a marca da genialidade – como aconteceu, por exemplo, com "Moby Dick", de Herman Melville, autor que morreu sem o reconhecimento de seus contemporâneos e de muitos que vieram depois.
O reconhecimento tardio das obras é, aliás, comum. No ensino, de um modo geral, o que vemos é um cânone, sempre discutível, e praticamente nada da produção contemporânea. Por quê? Porque, com as devidas exceções, não há acompanhamento, os professores se limitam ao que foram obrigados a ler, há anos, em seus cursos de formação. E que, na verdade, muitas vezes nem propriamente leram – limitando-se a ler o que outros escreveram sobre tais ou quais autores, tendências, características, etc. Ou seja: recebem uma cultura literária de segunda mão, não tendo ouvido diretamente o canto de Anima. Repito: com as devidas exceções.
O que acontece é que muitos dos estudantes - e dos professores – não desenvolvem confiança própria. O que fazem, ou são obrigados a fazer, é repetir o que já foi dito, sem nenhuma contribuição pessoal. É o que se chama de erudição - e pouco ou nada tem a ver com cultura. Muitas vezes encomendei leituras aos alunos e eles me pediram uma bibliografia para ajudá-los. Eu respondia que eles não precisavam de ajuda de nenhuma bibliografia, que eu queria que fizessem uma leitura pessoal. Aí me respondiam que estavam acostumados à cobrança de referência bibliográfica. E eu lhes dizia, então, que a bibliografia eu já conhecia, há muito, mas não conhecia a leitura deles – e esta era o que me interessava. E eles se espantavam com alguém que lhes dava tamanha importância...
Não estou pretendendo fazer críticas a quem quer que seja, mas examinar um comportamento danoso no ensino da literatura que se manifesta no mundo inteiro. Lembro do caso de um poeta, um dos maiores poetas brasileiros de hoje, que não conseguia ter seu projeto de mestrado aprovado pela orientadora porque ela não aceitava nenhum juízo que fosse dele. Lia o texto e perguntava: "Você se baseou em quem para dizer isto?" O poeta respondia que em ninguém, eram idéias suas mesmo. E ela não aceitava. Quer dizer: ele não tinha o direito de desenvolver as próprias idéias. E, se quisesse, poderia, homem culto que era, e é, dar uma espetáculo de erudição, mas tudo o que pretendia era apenas desenvolver o que pensara por si mesmo, com seu talento, sua intuição – coisa não permitida.
Para mim, o mais importante de toda a carreira docente foi sempre o estudante. Ele é que conta, antes de tudo. Por causa dele é que existem todas as escolas, faculdades e universidades do mundo. Nós, professores, devemos ser estudantes mais experientes, mais lidos, que possam clarear para ele certos caminhos. Sem impor nenhum modismo, sem querer que ele pense segundo nosso pensamento. Ao contrário: provocando-o e liberando-o para que encontre seu próprio rumo de cultura e sensibilidade. Para que possa, sozinho, sem muletas – tantas vezes perigosamente tortas -, reconhecer a grandeza ou a inferioridade e a fraude.
A verdadeira iluminação vem da leitura, que exige preparação. Primeiro, a alfabetização; depois, os primeiros textos, simples, em linguagem referencial; e, em seguida, os textos mais complexos, ou seja, de uma linguagem capaz de criar na dimensão do infinito – e que se chama Literatura. Não, ler não é nada fácil, frequentemente encontramos até leitores profissionais que não sabem descobrir o verdadeiro valor de um texto. Certa vez o jornal "The Sunday Times", de Londres, enviou a 20 editores e agentes literários capítulos escritos por grandes autores como se fossem estreantes, entre eles V. S. Naipaul, ganhador do Prêmio Nobel. Resultado: com uma única exceção, todos foram rejeitados. Tais tragédias - tragédias mesmo, pois causam sérios danos à literatura, à cultura de um modo geral – são mais comuns do que pensamos. Ocorrem diariamente rejeições absurdas – como também lastimáveis aceitações de obras inferiores (inclusive por motivações políticas, como hoje tanto se vê). Tudo porque ler um texto que não traz consigo aprovação anterior, referências de apoio, como encontramos habitualmente nas escolas, é muito difícil.
Desculpem-me por estar quase dando uma aula em discurso de noite festiva, mas é apenas para matar a saudade de tantos dos nossos encontros... Permitam-me apenas, para finalizar, ler aqui um breve trecho de Tzvetan Todorov, publicado em seu livro A literatura em perigo: "A literatura tem um papel vital a cumprir; mas por isso é preciso tomá-la no sentido amplo e intenso que prevaleceu na Europa até fins do século XIX e que hoje é marginalizado, quando triunfa uma concepção absurdamente reduzida do literário. O leitor comum, que continua a procurar nas obras que lê aquilo que pode dar sentido à sua vida, tem razão contra professores, críticos e escritores que lhe dizem que a literatura só fala de si mesma ou que apenas pode ensinar o desespero. Se esse leitor não tivesse razão, a literatura estaria condenada a desaparecer num curto prazo."
Se esse leitor não tivesse razão, escreve ele. Porque, de fato, felizmente, tem razão, e a Literatura não vai desaparecer. Os modismos, muitos de tolice inominável, seguirão vindo e morrendo – e a literatura, apesar deles, continuará viva enquanto vivo for o próprio homem. O homem, sim, a espécie que somos – porque não há literatura negra, nem literatura branca, nem literatura feminina, nem literatura hetero ou homossexual: há apenas literatura. Ela só pode ser avaliada por critérios estéticos, já que é uma arte, o que compreende, como há pouco disse, a emoção e a metafísica, que a fazem grande e de toda a gente. E sei que vocês, meus caros formandos, também pensam assim, tanto que me convidaram para estar aqui nesta noite tão significativa.
Sim, encerro com estas palavras de esperança na Literatura. Esperança que também me inspiram vocês, que aqui iniciam uma nova fase da vida. Uma fase que será, na verdade, de existência inteira dedicada à realização dos sonhos. Surgirão grandes obstáculos e desafios, mas de vocês certamente nascerá um mundo melhor. Um mundo de mais e dedicados leitores, guiados por vocês, com a compreensão de que a Literatura é algo vivo e indispensável à formação do homem. Um poeta disse certa vez que a única prova concreta da existência humana é a poesia. O que equivale a dizer: Literatura, pois toda literatura digna deste nome é poesia. Disto, tenho certeza, vocês bem sabem e estará sempre presente em seus estudos, como será partilhado com os que vão ouvir suas palavras nas salas de aula - em que, sem dúvida, ressoará, mais do que tudo, o murmúrio da fonte profunda de Anima.
Sejam felizes, todos vocês, e muito obrigado.
Meus caríssimos formandos:
Senti-me muito comovido ao ser convidado para fazer parte desta festa. Pensava que, depois de cerca de ano e meio de aposentadoria, já estaria esquecido por todos com os quais trabalhei em sala de aula. Agora, peço perdão por ter-me esquecido - gravíssimo esquecimento! - de como a juventude é generosa sempre, inclusive em sua iluminada memória. Perdoem-me, pois, e muito obrigado pela honra.
A primeira coisa que eu dizia, na aula inaugural de cada semestre, era que minha presença ali como professor de Literatura tinha muito de absurdo - porque a Literatura, sendo uma arte, não pode ser ensinada. De fato, podemos ensinar técnicas de escrita, história da literatura, crítica e teoria literária, mas a Literatura só passa a nos habitar se for vivida. É o que acontece com todas as artes, cuja fruição necessita de um contato direto. Por mais que estudemos arte, através da ótica alheia, não conseguiremos chegar à sua essência. E se nos limitarmos a concordar com o juízo alheio, ficaremos conhecendo apenas o que os outros nos dizem - e não o que nos pode servir a nossa própria sensibilidade.
Vejam que eu disse sensibilidade, não inteligência. Poderia, sim, utilizar a palavra inteligência, mas teria que explicar tratar-se de outra inteligência, bem mais rica e vasta - a inteligência emocional. Muitíssimo além do unicamente intelectual, das racionalizações, da lógica, da lucidez diurna de Animus, a inteligência solar, pois se trata da inteligência, ou alma, profunda, que pertence a Anima, fonte geradora das artes, com a metafísica que as torna de todos os homens, em todos os lugares, em todos os tempos. Artes que não podem ser domadas pela História, nem pela Crítica, imunes a classificações e teorizações, que se processam e nos falam em seu próprio espaço, o qual mereceremos – ou não – de acordo com o que sejamos capazes de ouvir do canto de Anima.
Para tornar mais claras estas palavras, referindo-me agora apenas à Literatura, lembro que não só o autor é artista – mas também o leitor. O autor põe um mundo em movimento, mas sua dimensão, seu significado, dos fatos cotidianos à metafísica, depende de quem lê. Como se sabe, toda leitura é única, pertencendo a cada leitor – e mais: é única mesmo noutras leituras do mesmo leitor. Assim, as qualidades do leitor e da obra se complementam. Às vezes, infelizmente, os leitores de uma geração, ou de várias, não são capazes de merecer certas literaturas, preferindo obras medíocres às que trazem a marca da genialidade – como aconteceu, por exemplo, com "Moby Dick", de Herman Melville, autor que morreu sem o reconhecimento de seus contemporâneos e de muitos que vieram depois.
O reconhecimento tardio das obras é, aliás, comum. No ensino, de um modo geral, o que vemos é um cânone, sempre discutível, e praticamente nada da produção contemporânea. Por quê? Porque, com as devidas exceções, não há acompanhamento, os professores se limitam ao que foram obrigados a ler, há anos, em seus cursos de formação. E que, na verdade, muitas vezes nem propriamente leram – limitando-se a ler o que outros escreveram sobre tais ou quais autores, tendências, características, etc. Ou seja: recebem uma cultura literária de segunda mão, não tendo ouvido diretamente o canto de Anima. Repito: com as devidas exceções.
O que acontece é que muitos dos estudantes - e dos professores – não desenvolvem confiança própria. O que fazem, ou são obrigados a fazer, é repetir o que já foi dito, sem nenhuma contribuição pessoal. É o que se chama de erudição - e pouco ou nada tem a ver com cultura. Muitas vezes encomendei leituras aos alunos e eles me pediram uma bibliografia para ajudá-los. Eu respondia que eles não precisavam de ajuda de nenhuma bibliografia, que eu queria que fizessem uma leitura pessoal. Aí me respondiam que estavam acostumados à cobrança de referência bibliográfica. E eu lhes dizia, então, que a bibliografia eu já conhecia, há muito, mas não conhecia a leitura deles – e esta era o que me interessava. E eles se espantavam com alguém que lhes dava tamanha importância...
Não estou pretendendo fazer críticas a quem quer que seja, mas examinar um comportamento danoso no ensino da literatura que se manifesta no mundo inteiro. Lembro do caso de um poeta, um dos maiores poetas brasileiros de hoje, que não conseguia ter seu projeto de mestrado aprovado pela orientadora porque ela não aceitava nenhum juízo que fosse dele. Lia o texto e perguntava: "Você se baseou em quem para dizer isto?" O poeta respondia que em ninguém, eram idéias suas mesmo. E ela não aceitava. Quer dizer: ele não tinha o direito de desenvolver as próprias idéias. E, se quisesse, poderia, homem culto que era, e é, dar uma espetáculo de erudição, mas tudo o que pretendia era apenas desenvolver o que pensara por si mesmo, com seu talento, sua intuição – coisa não permitida.
Para mim, o mais importante de toda a carreira docente foi sempre o estudante. Ele é que conta, antes de tudo. Por causa dele é que existem todas as escolas, faculdades e universidades do mundo. Nós, professores, devemos ser estudantes mais experientes, mais lidos, que possam clarear para ele certos caminhos. Sem impor nenhum modismo, sem querer que ele pense segundo nosso pensamento. Ao contrário: provocando-o e liberando-o para que encontre seu próprio rumo de cultura e sensibilidade. Para que possa, sozinho, sem muletas – tantas vezes perigosamente tortas -, reconhecer a grandeza ou a inferioridade e a fraude.
A verdadeira iluminação vem da leitura, que exige preparação. Primeiro, a alfabetização; depois, os primeiros textos, simples, em linguagem referencial; e, em seguida, os textos mais complexos, ou seja, de uma linguagem capaz de criar na dimensão do infinito – e que se chama Literatura. Não, ler não é nada fácil, frequentemente encontramos até leitores profissionais que não sabem descobrir o verdadeiro valor de um texto. Certa vez o jornal "The Sunday Times", de Londres, enviou a 20 editores e agentes literários capítulos escritos por grandes autores como se fossem estreantes, entre eles V. S. Naipaul, ganhador do Prêmio Nobel. Resultado: com uma única exceção, todos foram rejeitados. Tais tragédias - tragédias mesmo, pois causam sérios danos à literatura, à cultura de um modo geral – são mais comuns do que pensamos. Ocorrem diariamente rejeições absurdas – como também lastimáveis aceitações de obras inferiores (inclusive por motivações políticas, como hoje tanto se vê). Tudo porque ler um texto que não traz consigo aprovação anterior, referências de apoio, como encontramos habitualmente nas escolas, é muito difícil.
Desculpem-me por estar quase dando uma aula em discurso de noite festiva, mas é apenas para matar a saudade de tantos dos nossos encontros... Permitam-me apenas, para finalizar, ler aqui um breve trecho de Tzvetan Todorov, publicado em seu livro A literatura em perigo: "A literatura tem um papel vital a cumprir; mas por isso é preciso tomá-la no sentido amplo e intenso que prevaleceu na Europa até fins do século XIX e que hoje é marginalizado, quando triunfa uma concepção absurdamente reduzida do literário. O leitor comum, que continua a procurar nas obras que lê aquilo que pode dar sentido à sua vida, tem razão contra professores, críticos e escritores que lhe dizem que a literatura só fala de si mesma ou que apenas pode ensinar o desespero. Se esse leitor não tivesse razão, a literatura estaria condenada a desaparecer num curto prazo."
Se esse leitor não tivesse razão, escreve ele. Porque, de fato, felizmente, tem razão, e a Literatura não vai desaparecer. Os modismos, muitos de tolice inominável, seguirão vindo e morrendo – e a literatura, apesar deles, continuará viva enquanto vivo for o próprio homem. O homem, sim, a espécie que somos – porque não há literatura negra, nem literatura branca, nem literatura feminina, nem literatura hetero ou homossexual: há apenas literatura. Ela só pode ser avaliada por critérios estéticos, já que é uma arte, o que compreende, como há pouco disse, a emoção e a metafísica, que a fazem grande e de toda a gente. E sei que vocês, meus caros formandos, também pensam assim, tanto que me convidaram para estar aqui nesta noite tão significativa.
Sim, encerro com estas palavras de esperança na Literatura. Esperança que também me inspiram vocês, que aqui iniciam uma nova fase da vida. Uma fase que será, na verdade, de existência inteira dedicada à realização dos sonhos. Surgirão grandes obstáculos e desafios, mas de vocês certamente nascerá um mundo melhor. Um mundo de mais e dedicados leitores, guiados por vocês, com a compreensão de que a Literatura é algo vivo e indispensável à formação do homem. Um poeta disse certa vez que a única prova concreta da existência humana é a poesia. O que equivale a dizer: Literatura, pois toda literatura digna deste nome é poesia. Disto, tenho certeza, vocês bem sabem e estará sempre presente em seus estudos, como será partilhado com os que vão ouvir suas palavras nas salas de aula - em que, sem dúvida, ressoará, mais do que tudo, o murmúrio da fonte profunda de Anima.
Sejam felizes, todos vocês, e muito obrigado.

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