Na primeira semana do mês vindouro, o Cine Clube Mário Gusmão, em Cachoeira, vai projetar o filme "Comunidade do Maciel, Há uma Gota de Sangue em Cada Poema", de Tuna Espinheira, 1973. Esse trabalho, na época, sofreu interdição da Censura Federal, durante longo tempo. Mesmo assim, levado em mãos pelo saudoso diretor da Cinemateca do MAM-Rio, Cosme Alves Neto, recebeu o troféu de Melhor Filme, no Festival Nacional de Cinema de Curitiba, assim como, inscrito pelo mesmo Cosme, representou oficialmente o Brasil no Festival Internacional de Obenhausen, na Alemanha. Inserido na Caixa dos 100 anos do Cinema Baiano, volta a chamar a atenção.
Leia luminoso artigo "Fotograma infravermelho", do cineasta José Umberto, sergipano-feirense:
"A análise (do desconhecido ao conhecido) e a síntese (do conhecido ao desconhecido) não se encontravam aqui em contradição mas, pelo contrário, encontravam-se indissoluvelmente ligadas entre si."
Dziga Vertov (1896-1954)
É longo e controverso o percurso da estirpe dos cineastas engajados neste mundo. Dziga Vertov ensaiou a estética da revolução, na então União Soviética, com o manifesto "O Homem da Câmera de Filmar" (Tchelovek S Kinoapparatom), 1929; Luis Buñuel lançou a estética da fome, na Espanha, com "Las Hurdes, Tierra Sin Pan", 1932, depois do desencanto com os surrealistas burgueses europeus; e o baiano Tuna Espinheira desfraldou a estética do brega, com "Comunidade do Maciel, Há uma Gota de Sangue em Cada Poema", 1973, estimulado pela veia da indignação que transgride o paradigma do "belo", assume o compromisso com a ética e manifesta senso político com radicalidade irônica.
É possível à beleza desinteressada cruzar-se ao miserabilismo crítico? – interpõe-se o litígio fastidioso.
O documentário elege um espaço da marginalidade na urbe mais antiga do Brasil – o Pelourinho, símbolo do poder colonial assentado no regime escravocrata. O passado, 24 fotogramas por segundo, entra em conúbio com a atualidade: o regime da ignomínia congela-se no tempo, fétido. E não importa o ontem ou o amanhã; interessa o hoje amalgamado e posto miséria nas raias do escândalo surreal.
(A servidão humana como espetáculo da víscera cinematográfica)
Ultrapassar a fronteira da torre de marfim consiste na subversão do conceito de arte pela arte e sua ânsia em insuflar o sexo dos anjos celestiais. Equilíbrio sobre a navalha afiada que se afirma com bruteza, mas sem perder jamais a meada da generosidade, numa posição de homem decidido no âmbito complexo da sua circunstancialidade. Assumindo a linguagem, sem veleidade autoral, como pretexto verticalizante de uma operação materialista da existência no contexto histórico.
A câmera se engaja nas ladeiras do mangue entre cinzentos sobrados e mocambos em ruína. A arquitetura da decadência revela-se nua e crua. O cineasta orgânico nega o beletrismo da imagem: o ser visto de frente, objetiva e secamente. À sombra deste pequeno universo subterrâneo pagão trágico/melodramático/sentimental repousa a chaga do cinismo social. E é a partir desse deslocamento crítico que o filme se expõe com secura solidária. Putas, gigolôs e crianças circulam pelos fotogramas infravermelhos. A poesia brota da flor perfumada dentro da lama podre.
Feiúra, sujeira e micróbios contaminam as lentes da filmadora. Tuna Espinheira deixa-se possuir pela transparência do real. "Comunidade do Maciel, Há uma Gota de Sangue em Cada Poema" não esconde a estrutura panfletária. A língua escolhida é o grito, solto ao vento. As mazelas se expõem desavergonhadas. É o cinema a serviço da verdade. A arte tomando partido diante do seu semelhante abandonado à sorte das injustiças sociais. Filme feio na medida exata da realidade horrorosa. Desta simbiose nasce a raiz do documentário realizado sem culpa em cartório.
Não há um convite à piedade lírica. Senão, um estímulo à revolta. Paroxismo cinematográfico composto de humanismo revolucionário. Distante da contemplação e próximo do estímulo à reação. Uma estética, portanto, engajada na necessidade da fina urgência. O espectador envolvido no que brota da tela sem anteparo, sem filtro, tampouco elipse e afastado do ângulo oblíquo. O canto de cisne atende ao chamado de pura e simples participação. Não havendo espaço, desse modo, à ilusão. A propaganda explícita não engana com rótulo de sedução imagética. Ao contrário, incita a reflexão sem subterfúgio. Severo método de agressão em busca do livre despertar da consciência. Num exercício de cidadania. Ou quando o artista despe a máscara do individualismo exacerbado e acena para a possibilidade solidária no redemoinho do cosmo.
A tradição dramática sempre recomenda a eleição do herói individual, prenhe de psicologismo esquemático. Quando o foco deposita luz sobre o herói coletivo – muito raro – então a sintaxe provoca um desassossego à leitura. O filme de Tuna dedica-se em cheio ao núcleo de uma comunidade e suas tensões. As partes dissolvem-se no geral.
As dicotomias emergem dos becos estreitos forrados por pedras em formato "cabeça de nêgo" ou dos fantasmagóricos casarios despedaçados com seus cômodos divididindo a privacidade por tabiques de meia altura. Mijo, esperma e lixo emolduram o quadro trágico. Expressivos rostos anônimos desfilam sob sombras no reboco de toscas paredes arruinadas, congeladas no tempo.
As vozes da servidão propagam-se pelas frestas de uma alegria de lupanato estimulada pela aguardente. Boleros de Nelson Gonçalves, tangos de Gardel, promíscuo samba-canção ao baile de putas&machões, merengue, guarânia ou a pungente "Ave Maria" de Schuman sobre perebas purulentas circulam como bolhas de vácuo fúnebre numa paisagem de desolamento. Trilha sonora regada pelo romantismo gonorrágico duma gente sem pátria/mátria, virtualizada ao limite do non sense, apendicite aguda do estamental donos de poder indiferente ao suplício do povo paciente, dócil e cordial - estúpido! - , soneto parnasiano a rimar irresponsavelmente pus com cuscuz, uma vez que pimenta da Índia no cu do outro é refresco atômico.
Esse circuitos dramáticos dão o tom hierático do patético. No intervalo melancólico dessa estufa marginal, imprime-se à dor uma alternativa de insubmissão, sob a perspectiva de uma linguagem de deslocamentos que promove a subversão e destila o arejamento das transformações. Num mergulho vertical de metáfora sempre atento para a decifração do símbolo como método de devoração do enigma.
"As marcas do puteiro não se apagam, jamais", ouve-se a narração que pontua as imagens dessa ópera barroca baiana imersa nas contradições da cultura de dependência. O mercado desvalorizado da Sodoma & Gomorra cabocla, tropical, esponja lúdica, lazer do oprimido, útero patológico e fabuloso câncer de uma mundana democracia cicatrizada por lágrimas de aleijados, choro de mendigos, histerismo de viados, turismo de marinheiros, orgasmo de polícia, paraíso de tóxicos e velhos olhando da janela as horas mortas.
Toda essa degradação, absorvida pelo mofo social, fora no passado zona elegante de riqueza econômica proveniente sobretudo do recôncavo canavial. As nobres casas de família abastadas e respeitadas tornaram-se "castelos" de meretrício. Os telhados que no passado abrigavam os fidalgos, sinhás e mucamas passaram a abrigar putas de bordéis que, com os seus peitos decaídos, dão de mamar aos filhos de dia e saciam o desejo do macho de noite com a vil força do amor venal.
O ontem e o hoje operam o intercruzamento da memória protogênica em promíscua atividade cívica. Uma antecedência de elite conservadora, sustentada na tradição de regime escravocrata, em êxtase com o fausto do produto monocultural de exportação, à véspera de declínio, dando passagem a uma desavergonhada e doméstica fauna humana que coloca a sexualidade como pilar da sobrevivência econômica. Reversão de valores de um volátil sistema geopolítico acentuada pela hipócrita flutuação de concentrado capital globalizado. A síntese, na contemporaneidade, apontou para o DNA social da perplexidade atônita. Enquanto a despojada narrativa do cinema documental de Tuna Espinheira testemunha e disseca o nervo dessa potência da crueldade.
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Ficha Técnica
Título: "Comunidade do Maciel, Há uma Gota de Sangue em Cada Poema"
Leia luminoso artigo "Fotograma infravermelho", do cineasta José Umberto, sergipano-feirense:
"A análise (do desconhecido ao conhecido) e a síntese (do conhecido ao desconhecido) não se encontravam aqui em contradição mas, pelo contrário, encontravam-se indissoluvelmente ligadas entre si."
Dziga Vertov (1896-1954)
É longo e controverso o percurso da estirpe dos cineastas engajados neste mundo. Dziga Vertov ensaiou a estética da revolução, na então União Soviética, com o manifesto "O Homem da Câmera de Filmar" (Tchelovek S Kinoapparatom), 1929; Luis Buñuel lançou a estética da fome, na Espanha, com "Las Hurdes, Tierra Sin Pan", 1932, depois do desencanto com os surrealistas burgueses europeus; e o baiano Tuna Espinheira desfraldou a estética do brega, com "Comunidade do Maciel, Há uma Gota de Sangue em Cada Poema", 1973, estimulado pela veia da indignação que transgride o paradigma do "belo", assume o compromisso com a ética e manifesta senso político com radicalidade irônica.
É possível à beleza desinteressada cruzar-se ao miserabilismo crítico? – interpõe-se o litígio fastidioso.
O documentário elege um espaço da marginalidade na urbe mais antiga do Brasil – o Pelourinho, símbolo do poder colonial assentado no regime escravocrata. O passado, 24 fotogramas por segundo, entra em conúbio com a atualidade: o regime da ignomínia congela-se no tempo, fétido. E não importa o ontem ou o amanhã; interessa o hoje amalgamado e posto miséria nas raias do escândalo surreal.
(A servidão humana como espetáculo da víscera cinematográfica)
Ultrapassar a fronteira da torre de marfim consiste na subversão do conceito de arte pela arte e sua ânsia em insuflar o sexo dos anjos celestiais. Equilíbrio sobre a navalha afiada que se afirma com bruteza, mas sem perder jamais a meada da generosidade, numa posição de homem decidido no âmbito complexo da sua circunstancialidade. Assumindo a linguagem, sem veleidade autoral, como pretexto verticalizante de uma operação materialista da existência no contexto histórico.
A câmera se engaja nas ladeiras do mangue entre cinzentos sobrados e mocambos em ruína. A arquitetura da decadência revela-se nua e crua. O cineasta orgânico nega o beletrismo da imagem: o ser visto de frente, objetiva e secamente. À sombra deste pequeno universo subterrâneo pagão trágico/melodramático/sentimental repousa a chaga do cinismo social. E é a partir desse deslocamento crítico que o filme se expõe com secura solidária. Putas, gigolôs e crianças circulam pelos fotogramas infravermelhos. A poesia brota da flor perfumada dentro da lama podre.
Feiúra, sujeira e micróbios contaminam as lentes da filmadora. Tuna Espinheira deixa-se possuir pela transparência do real. "Comunidade do Maciel, Há uma Gota de Sangue em Cada Poema" não esconde a estrutura panfletária. A língua escolhida é o grito, solto ao vento. As mazelas se expõem desavergonhadas. É o cinema a serviço da verdade. A arte tomando partido diante do seu semelhante abandonado à sorte das injustiças sociais. Filme feio na medida exata da realidade horrorosa. Desta simbiose nasce a raiz do documentário realizado sem culpa em cartório.
Não há um convite à piedade lírica. Senão, um estímulo à revolta. Paroxismo cinematográfico composto de humanismo revolucionário. Distante da contemplação e próximo do estímulo à reação. Uma estética, portanto, engajada na necessidade da fina urgência. O espectador envolvido no que brota da tela sem anteparo, sem filtro, tampouco elipse e afastado do ângulo oblíquo. O canto de cisne atende ao chamado de pura e simples participação. Não havendo espaço, desse modo, à ilusão. A propaganda explícita não engana com rótulo de sedução imagética. Ao contrário, incita a reflexão sem subterfúgio. Severo método de agressão em busca do livre despertar da consciência. Num exercício de cidadania. Ou quando o artista despe a máscara do individualismo exacerbado e acena para a possibilidade solidária no redemoinho do cosmo.
A tradição dramática sempre recomenda a eleição do herói individual, prenhe de psicologismo esquemático. Quando o foco deposita luz sobre o herói coletivo – muito raro – então a sintaxe provoca um desassossego à leitura. O filme de Tuna dedica-se em cheio ao núcleo de uma comunidade e suas tensões. As partes dissolvem-se no geral.
As dicotomias emergem dos becos estreitos forrados por pedras em formato "cabeça de nêgo" ou dos fantasmagóricos casarios despedaçados com seus cômodos divididindo a privacidade por tabiques de meia altura. Mijo, esperma e lixo emolduram o quadro trágico. Expressivos rostos anônimos desfilam sob sombras no reboco de toscas paredes arruinadas, congeladas no tempo.
As vozes da servidão propagam-se pelas frestas de uma alegria de lupanato estimulada pela aguardente. Boleros de Nelson Gonçalves, tangos de Gardel, promíscuo samba-canção ao baile de putas&machões, merengue, guarânia ou a pungente "Ave Maria" de Schuman sobre perebas purulentas circulam como bolhas de vácuo fúnebre numa paisagem de desolamento. Trilha sonora regada pelo romantismo gonorrágico duma gente sem pátria/mátria, virtualizada ao limite do non sense, apendicite aguda do estamental donos de poder indiferente ao suplício do povo paciente, dócil e cordial - estúpido! - , soneto parnasiano a rimar irresponsavelmente pus com cuscuz, uma vez que pimenta da Índia no cu do outro é refresco atômico.
Esse circuitos dramáticos dão o tom hierático do patético. No intervalo melancólico dessa estufa marginal, imprime-se à dor uma alternativa de insubmissão, sob a perspectiva de uma linguagem de deslocamentos que promove a subversão e destila o arejamento das transformações. Num mergulho vertical de metáfora sempre atento para a decifração do símbolo como método de devoração do enigma.
"As marcas do puteiro não se apagam, jamais", ouve-se a narração que pontua as imagens dessa ópera barroca baiana imersa nas contradições da cultura de dependência. O mercado desvalorizado da Sodoma & Gomorra cabocla, tropical, esponja lúdica, lazer do oprimido, útero patológico e fabuloso câncer de uma mundana democracia cicatrizada por lágrimas de aleijados, choro de mendigos, histerismo de viados, turismo de marinheiros, orgasmo de polícia, paraíso de tóxicos e velhos olhando da janela as horas mortas.
Toda essa degradação, absorvida pelo mofo social, fora no passado zona elegante de riqueza econômica proveniente sobretudo do recôncavo canavial. As nobres casas de família abastadas e respeitadas tornaram-se "castelos" de meretrício. Os telhados que no passado abrigavam os fidalgos, sinhás e mucamas passaram a abrigar putas de bordéis que, com os seus peitos decaídos, dão de mamar aos filhos de dia e saciam o desejo do macho de noite com a vil força do amor venal.
O ontem e o hoje operam o intercruzamento da memória protogênica em promíscua atividade cívica. Uma antecedência de elite conservadora, sustentada na tradição de regime escravocrata, em êxtase com o fausto do produto monocultural de exportação, à véspera de declínio, dando passagem a uma desavergonhada e doméstica fauna humana que coloca a sexualidade como pilar da sobrevivência econômica. Reversão de valores de um volátil sistema geopolítico acentuada pela hipócrita flutuação de concentrado capital globalizado. A síntese, na contemporaneidade, apontou para o DNA social da perplexidade atônita. Enquanto a despojada narrativa do cinema documental de Tuna Espinheira testemunha e disseca o nervo dessa potência da crueldade.
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Ficha Técnica
Título: "Comunidade do Maciel, Há uma Gota de Sangue em Cada Poema"
Pesquisa, Montagem e Direção: Tuna Espinheira
Assessores de Pesquisa: antropólogo Vivaldo da Costa Lima e sociólogo Gey Espinheira
Diretor de Fotografia: Roberto Gaguinho
Assistente de Produção: Carlos Gilberto (Tatá)
Som ao vivo: Pedro Juraci de Almeida
Letreiros: Vellame
Apoio: Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Estado da Bahia
Laboratórios: Rex Filmes S/A e Tecnisom
Bitola: 16mm
Preto & Branco
Som Ótico
Duração: 20'34"
Origem: Salvador, Bahia, Brasil
Ano: 1973.

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