Por Moacir Cerqueira
O "Bar de Seu Pedro" foi um espaço de lazer que existiu na Rua Cícero Dantas, ao lado da Coelba no bairro Ponto Central. Conheci este espaço através da minha prima Margarida que residia na localidade, vizinha ao referido bar. Ela nos convidava, a mim e a minha esposa Ana Maria, já que o ambiente era familiar. A prima era uma pessoa muito animada e gostava de tomar um gole de cerveja ouvindo uma boa música ou rindo a valer ao ouvir uma boa piada. Algum tempo depois mudou-se dali. Já familiarizados, por lá continuamos.
Dava-se ali o encontro de amigos de boa conversa, intelectuais, poetas, músicos, cantores, boêmios e de quebra havia uma mesa especial reservada para o carteado. Passei a frequentar o ambiente, o que me serviu de acalanto num momento de minha vida quando me desliguei da militância política, das lides esportivas e do intenso labor comercial por mais de 50 anos.
Os bate-papos, às vezes acalorados, o carteado de buraco e as cantorias aconteciam aos sábados, domingos e feriados. Os donos do bar, Sr. Pedro e sua esposa Dona Cleonice, gostavam de cantar e conversar. Bons recepcionistas, eram também muito animados.
Conhecia Irma Amorim de nome. Seu marido o arquiteto Amélio Amorim tinha escritório no Edifício Áureo Filho na Avenida Senhor dos Passos, em frente à Casa das Canetas. Era nosso cliente de canetas e lapiseiras de linha e grafites especiais.
Num ensolarado dia de sábado chegando àquele local de encontro de amigos, deparei-me com uma senhora sentada ao lado de Dona Cleonice que me fez a devida apresentação à professora Irma Amorim, informando de pronto que ela estava naquela rua à procura da casa de uma amiga ali residente. Dirigí-lhe respeitosa saudação e ela agradecida observou com um sorriso contido: "- Conheço o Senhor, Sr. Moacir, sou cliente de sua Casa das Canetas". Agradeci a boa e honrosa preferência. Dona Cleonice, de sua parte fez questão de afirmar ter sido aluna da professora Irma no Curso Pedagógico do Gastão.
Naquele sábado os primeiros contumazes frequentadores começavam a chegar, alguns conhecidos e amigos de Irma Amorim dirigiam-se a ela surpresos, felizes e admirados pela sua presença ali. Foi o bastante para que Irma se afeiçoasse ao local. Indagada sobre sua presença naquele bar, com simplicidade e meiguice respondia: "- Para afugentar a solidão".
Todos sabiam de sua viuvez, mas nenhuma indagação lhe foi feita a respeito. Já beirando o meio-dia levantou-se, agradeceu a recepção que considerou calorosa e disse que certamente viria muitas vezes, só aos domingos, em virtude de compromissos familiares aos sábados.
Voltou várias vezes. Numa destas trouxe-lhe uma publicação em forma de caderno, que produzi após receber da Câmara Municipal o Título de Cidadão Feirense e noutra data a Medalha do Mérito Municipal. No corpo da publicação o meu discurso, no verso da capa uma poesia de Irma Amorim na qual realça o seu amor à Feira clamando pelos "- Traços esquecidos/Nas tradições perdidas". Com minha publicação em mãos, alegre e emocionada agradeceu.
Simpatia, educação, fino trato e bagagem cultural foram marcas deixadas pela Poetisa, entre nós. O tempo, implacável, passou. Sr. Pedro Guerreiro morreu. O bar acabou. Algum tempo depois Irma Amorim também se foi. Ficou a lembrança, a amizade, a saudade de todos os que passaram ali, naquele recanto tão prazeroso, simples e acolhedor.
*
"... Traços esquecidos
nos belos casarões desaparecidos
Nas tradições perdidas
No pôr do sol dos dias
no luar de agosto nas noites frias
Minha Feira de Santana minha cidade
Choro quando te sinto em erros
Canto com anjos
te vendo em vôos e pés no chão
flor cabocla do meu sertão."
Irma Amorim
Moacir Cerqueira é Cidadão Feirense e detentor da Ordem Municipal do Mérito de Feira de Santana


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