Cultura e identidade latino-americanas estão em evidência em mostra que conta com obras de brasileiros como Bispo do Rosário, Estela Sokol, Cildo Meireles, Hélio Oiticica, Anna Bella Geiger, Rosana Paulino, Alfredo Volpi, Mira Schendel e Lina Bo Bardi
Exposição é considerada uma das mais relevantes em torno da obra do artista uruguaio
Fotos: Renato ParadaA exposição Joaquín Torres García - 150 anos, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo até 9 de março, reúne um dos maiores conjuntos de obras do artista uruguaio já exibido no mundo, em diálogo com trabalhos de mais de 70 artistas modernos e contemporâneos, brasileiros e internacionais. A mostra propõe uma ampliação do percurso histórico de Torres Garcia e reafirma sua importância na arte latino-americana e na construção de um pensamento artístico global no século XX.
A curadoria articula a produção do artista com a arte moderna brasileira, a produção contemporânea, a cultura indo-americana, a arte africana e as vanguardas europeias. A seleção propõe uma revisão crítica para além das leituras consagradas do Universalismo Construtivo - ideia de usar formas simples e universais para criar uma arte que também represente a cultura e a identidade da América Latina.
"Celebrar 150 anos de um artista da dimensão de Torres García exige pensar necessariamente em uma ampliação do percurso histórico", afirma o curador Saulo di Tarso. "Ele foi amplamente exposto no Brasil, mas ainda sofremos de uma espécie de síndrome da lusofonia, que nos afasta culturalmente do nosso legado espanhol e dos países vizinhos da América do Sul", completa.
Dois fatores centrais influenciaram a escolha dos artistas participantes da mostra. O primeiro, segundo o curador, foi o incêndio ocorrido em 1978 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), que marcou profundamente a história museológica brasileira e teve repercussões internacionais duradouras. O segundo foi a intenção de provocar uma reflexão crítica sobre a persistência simbólica do Tratado de Tordesilhas na cultura contemporânea e nas relações culturais sul-americanas.
No caso do incêndio do MAM Rio, a curadoria buscou transcender qualquer ressentimento existente no Uruguai, trazendo as comemorações de 150 anos do artista para o território brasileiro: "Essa ferida permaneceu especialmente viva no Uruguai, apesar das inúmeras exposições de Torres García realizadas posteriormente no Brasil, em instituições como a Bienal de São Paulo, o MASP, a Pinacoteca, o MAM, o Museu Oscar Niemeyer, a Fundação Iberê Camargo e a Biblioteca Mário de Andrade", aponta o curador.
Muitas dessas exposições se dedicaram a reafirmar um Torres García bastante conhecido em termos de linguagem. "A responsabilidade histórica desta mostra exigia compensar o nosso cenário cultural e enfrentar essa fatalidade sem medo curatorial. Era fundamental mostrar algo novo, não repetir o Torres García de sempre."
Nesse sentido, a curadoria também buscou inspiração em exposições internacionais que ampliam a leitura da obra do artista, como a realizada pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Reconhecendo que Torres García integra as principais coleções do mundo, a exposição no CCBB SP apresenta uma narrativa para além da iconografia mais difundida, despertando o interesse por um artista fundamental do século XX, que conseguiu estender as experiências da vanguarda europeia — ao lado de grandes nomes da arte moderna - a um retorno singular ao Uruguai, em 1934. Esse retorno, segundo a curadoria, tornou sua obra ainda mais original e profundamente comprometida com a defesa da civilização sul-americana.
Relações diretas e indiretas
A decisão de convidar artistas modernos e contemporâneos para a mostra obedeceu ao critério de "abraçar" o legado de Torres García por meio de produções que mantêm relações diretas ou indiretas com seu pensamento, estabelecendo encontros no tempo e no espaço. A proposta busca reconhecer a atualidade da "América invertida" - a obra tem presença marcante na exposição, é uma oportunidade rara ser vista fora do Museo Torres García - e ir além de sua recorrente utilização, frequentemente apropriada por discursos que tendem a partidarizar o pensamento do artista.
Foram selecionados mais de 70 artistas que ajudam a integrar um percurso que articula uma visão ampla da arte sul-americana. Nesse contexto, a presença de exemplares da arte Chancay, provenientes da coleção Profilli, reforça a pertinência do pensamento de Torres García quando defende a arte indo-americana no mesmo patamar de importância das culturas antigas de outros continentes.
Os brasileiros
Mais de 40 artistas brasileiros participam da mostra e essa predominância se justifica tanto pelo encerramento das comemorações dos 150 anos de Torres García no Brasil quanto pela necessidade de superar definitivamente qualquer divisão entre o país e a cultura da América do Sul, especialmente no âmbito do Mercosul.
"A arte brasileira teve uma contribuição fundamental no século XX", afirma o curador. "Desde o Modernismo, assim como a antropologia dos trópicos, ela influenciou profundamente a cultura europeia e norte-americana, embora ainda insistimos em ler essa história apenas no sentido inverso. Por isso, foi lógico adensar a presença da arte brasileira ao redor de um artista que afirmou que 'o nosso norte é o Sul'."
Entre os artistas brasileiros presentes na mostra estão Cecília Meireles, Antonio Cabral, Paulo Nenflídio, Ernesto Neto, Willys de Castro, Bispo do Rosário, Estela Sokol, Rubens Gerchman, Marcone Moreira, Carlos Zilio, Ronaldo Azeredo, Luiz Sacilotto, Cildo Meireles, Hélio Oiticica, Emanoel Araújo, Arnaldo Ferrari, Montez Magno, Leonilson, Flávio de Carvalho, Tuneu, Jac Leirner, Anna Bella Geiger, Sérgio Camargo, Rivane Neuenschwander, Sofia Borges, Rosana Paulino, entre muitos outros. Volpi, Mira Schendel e Lina Bo Bardi também integram o percurso, reconhecidos como indissociáveis da história da arte brasileira, apesar de não terem nascido no país.
Embora Torres García não tenha vindo ao Brasil para difundir suas ideias, sua influência atravessou os territórios por onde passou e encontrou forte ressonância no país. A exposição evidencia diálogos diretos entre sua obra e artistas como Ronaldo Azeredo, Arden Quin, Sacilotto e Volpi, além de relações conceituais com Tuneu, Ernesto Neto, Bispo do Rosário, Emanoel Araújo e Willys de Castro, especialmente no entendimento do objeto como elemento ativo. O percurso se encerra com um diálogo excepcional entre Torres García e Rosana Paulino, em uma das salas finais da mostra.
"Em um mesmo segmento da exposição, encontram-se obras de Luiz Sacilotto, Sérgio Camargo, Estela Sokol e Rosana Paulino - esta última a caminho da Bienal de Veneza. Ao propor esse encontro, a exposição não apenas articula trajetórias e contextos distintos, mas também provoca o olhar crítico. Sem essa provocação, a complexidade da proposta pode passar despercebida", aponta o curador.
Torres García antecipou em décadas questões centrais da arte concreta brasileira. Foi pioneiro ao propor um horizonte verdadeiramente global da história da arte, sem hierarquizar culturas ou separar tradições, visão que orienta toda a concepção curatorial da exposição.
A mostra apresenta ainda centenas de escritos e trabalhos gráficos inéditos no Brasil, exibidos pela primeira vez em conjunto fora do Museu Torres García, sediado em Montevidéu. Muitas das obras nunca haviam sido expostas anteriormente e todas foram emprestadas diretamente pelos artistas ou por coleções privadas, além de importantes acervos brasileiros, suíços e espanhóis, com destaques para o Institut Valencià d'Art Modern (IVAM), e o MACBA, que contribuíram com peças fundamentais.
Fora do Brasil
No núcleo internacional, destacam-se obras de Carmelo Arden Quin, Gyula Kosice, documentos de Mondrian, Theo van Doesburg e Vantongerloo, além de trabalhos de Alfredo Jaar, Carlos Garaicoa, um desenho de Nijinsky, arte africana de diversas coleções e obras de Robert Kelly, Pablo Uribe, Jacqueline Lacasa, Agustín Sabella e Fernando López Lage.
Sob o ponto de vista do ineditismo, da densidade histórica e da amplitude conceitual, a comemoração promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil se afirma como uma iniciativa única, propondo não apenas uma homenagem, mas uma revisão crítica profunda sobre o legado de Joaquín Torres García e o reconhecimento de sua atualidade nas questões latino-americanas da arte, da vida e da cultura. A mostra foi selecionada no Edital CCBB 2023-2025, viabilizada através da Lei Rouanet, tem patrocínio da BB Asset, e organização e produção da Cy Museum.
Sobre o curador
Um dos idealizadores do projeto, curador da mostra Joaquín Torres García – 150 anos, com a colaboração com o Museu Torres Garcia, Saulo di Tarso (Foto: Julio Kohl) foi considerado pelo poeta Haroldo de Campos e pelo artista plástico Luiz Sacilotto como um dos artistas mais talentosos de sua geração. Em 2022, atuou como museógrafo, produtor e coordenador de multimídia da mostra "Marc Chagall: sonho de amor" - prêmio APCA de melhor exposição internacional de 2023, ano em que traduziu a obra completa dos poemas de Marc Chagall para o português.
Fez, em 2023, a curadoria da mostra "Para falar de amor" no antigo Noviciado Nossa Senhora das Graças, com a participação de 125 artistas, tendo recebido a menção de segunda melhor exposição de 2023 pela Revista Das Artes. Foi curador da Casa do Olhar Luiz Sacilotto, coordenador de arte-educação e espaço expositivo da Casa das Rosas, ação educativa e difusão do Paço das Artes e curador independente de diversas mostras e projetos no Paço Imperial do Rio de Janeiro, A7MA, Galeria da Unicamp, Galeria Olido, Galeria Marta Traba, Museu Afro Brasil, Instituto de Artes do Pará, entre outros.
Em 2006, idealizou a Trienal Internacional de Grafias percorrendo o Brasil através do Memorial da América Latina, como curador e pesquisador de arte gráfica e digital na produção contemporânea. Em sua trajetória interagiu com Renato Cohen, Edson Zampronha, Francisco Alambert, Wollner, José Roberto Aguilar, Daniela Bousso, Mario Gruber, Wesley Duke Lee, Emanoel Araújo, Alexandre Wollner, além do compositor e educador musical Hans-Joachim Koellreutter com quem esteve no Japão em 1998. Foi também coordenador de cultura e redator do programa de governo na campanha presidencial de Eduardo Campos e Marina Silva, em 2014. Fundador da Tangram Museologia e filiado ao ICOM-CIMAM e vive atualmente no Brasil e na Itália.
CCBB SÃO PAULO
O Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, iniciou suas atividades há mais de 20 anos e foi criado para formar novas plateias, democratizar o acesso e contribuir para a promoção, divulgação e incentivo da cultura. A instalação e manutenção de nosso espaço, em pleno centro da capital paulista, reflete também a preocupação com a revitalização da área, que abriga um inestimável patrimônio histórico e arquitetônico, fundamental para a preservação da memória da cidade. Temos como premissa ampliar a conexão dos brasileiros com a cultura, em suas diferentes formas.
Essa conexão se estabelece mais genuinamente quando há desejo de conhecer, compreender, pertencer, interagir e compartilhar. Temos consciência de que o apoio à cultura contribui para consolidar sua relevância para a sociedade e seu poder de transformação das pessoas. Acreditamos que a arte dialoga com a sustentabilidade, uma vez que toca o indivíduo e impacta o coletivo, olha para o passado e faz pensar o futuro. Com uma programação regular e acessível a todos os públicos, que contempla as mais diversas manifestações artísticas e um prédio, que por si só, já é uma viagem na história e arquitetura, o CCBB SP é uma referência cultural para os paulistanos e turistas da maior cidade do Brasil.
SERVIÇO
Exposição: Joaquín Torres García - 150 anos
Local: CCBB São Paulo
Endereço: Rua Álvares Penteado, 112 - Centro
Data: Até 9 de março de 2026
Horário: das 9 às 20 horas, exceto às terças
Gratuito
Itinerância
CCBB SP (10 de dezembro de 2025 a 9 de março de 2026)
CCBB Brasília (31 de março a 21 de junho de 2026)
CCBB BH (15 de julho a 12 de outubro de 2026)
Ficha técnica
Realização: Ministério da Cultura
Patrocínio: BB Asset
Curadoria: Saulo di Tarso em colaboração com o Museo Torres García
Organização e Produção: Cy Museum
Apoio Institucional: Museo Torres García
Coordenação Geral: Cynthia Taboada
Coordenação Executiva: Paula Amaral
Coordenação Editorial e Pesquisa: Helena Eilers, Andrea Sousa e Xênia Bergman.
Projeto expográfico: Stella Tennenbaum
Assessoria de imprensa: Agência Galo
Informações CCBB SP
Funcionamento: Aberto todos os dias, das 9 às 20 horas, exceto às terças
Contato: (11) 4297-0600 | E-mail: ccbbsp@bb.com.br
Estacionamento: O CCBB possui estacionamento conveniado na Rua da Consolação, 228 (R$ 14,00 pelo período de 6 horas - necessário validar o ticket na bilheteria do CCBB). O traslado é gratuito para o trajeto de ida e volta ao estacionamento e funciona das 12 às 21 horas.
Van: Ida e volta gratuita, saindo da Rua da Consolação, 228. No trajeto de volta, há também uma parada no metrô República. Das 12 às 21 horas.
Transporte público: O CCBB fica a 5 minutos da estação São Bento do Metrô. Pesquise linhas de ônibus com embarque e desembarque nas Ruas Líbero Badaró e Boa Vista.
Táxi ou Aplicativo: Desembarque na Praça do Patriarca e siga a pé pela Rua da Quitanda até o CCBB (200 m).
Entrada acessível CCBB SP: Pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida e outras pessoas que necessitem da rampa de acesso podem utilizar a porta lateral localizada à esquerda da entrada principal.
Enviado pela Agência Galo - Assessoria de Imprensa
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