Ana Paula Henkel para a Oeste:
No último domingo, na Marquês de Sapucaí, a escola de samba Acadêmicos de Niterói transformou seu desfile no Grupo Especial em um gesto político explícito. O enredo homenageava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e tentou exaltar sua trajetória, mas trouxe consigo um espetáculo marcado pelo desrespeito e pela caricatura de adversários políticos.
Na avenida, uma das alas mais comentadas foi batizada de "neoconservadores em conserva", com integrantes fantasiados como latas estampadas com imagens que remetiam a famílias tradicionais, evangélicos e outros grupos associados ao conservadorismo.
O Carnaval sempre foi espaço de crítica e irreverência. A tradição das escolas de samba inclui sátira política, denúncia social e provocações simbólicas - nada disso é novo. A ala foi apresentada como "crítica, ironia ou sátira". Símbolos, contudo, nunca são inocentes.
A caricatura transforma complexidades humanas em rótulos simplificados. Uma lata sugere algo fechado, ultrapassado, homogêneo. A metáfora visual comunica mais do que ironia; estabelece um enquadramento moral. Ao reduzir adversários políticos a objetos embalados, consolida-se a ideia de um grupo uniforme, impermeável ao diálogo e destituído de interioridade. Quando cidadãos passam a ser representados como coisas, o debate deixa de ser mera divergência e adentra a esfera da desumanização. O impacto dessa representação ultrapassa a avenida. Não se trata de melindre ideológico. Trata-se de algo mais profundo: o reconhecimento da dignidade do outro como cidadão.
A política contemporânea vive de símbolos. Eles moldam percepções, organizam emoções e influenciam comportamentos. A desumanização raramente começa com atos extremos; ela costuma surgir em imagens aparentemente leves, que retiram do outro a condição de sujeito complexo.
As latinhas americanas
A história recente oferece um paralelo eloquente. Em 2016, durante a campanha presidencial norte-americana, Hillary Clinton descreveu parte dos eleitores de Donald Trump como um "basket of deplorables" - um cesto de deploráveis. A expressão marcou o debate público não apenas pelo conteúdo, mas pelo tom. Milhões de cidadãos perceberam-se classificados como moralmente inferiores.
A reação não se limitou à indignação momentânea. Ela se converteu em mobilização política. Naquele mesmo ano, Donald Trump venceu a eleição de 2016 em um movimento amplo, surpreendente e inesperado para grande parte do establishment político e da imprensa. Anos depois, retornaria à Casa Branca com uma vitória robusta em 2024, também impulsada por um aumento significativo dos eleitores cristãos. O episódio demonstrou que o desprezo possui força mobilizadora própria. Ele cria coesão entre aqueles que se percebem alvo de escárnio.
O voto tem dimensão programática, econômica e ideológica. Mas também possui dimensão simbólica. Ele afirma pertencimento e dignidade. Pessoas podem tolerar derrotas políticas. Podem suportar reformas com as quais discordam. O que não suportam indefinidamente é serem tratadas como caricaturas descartáveis.
No Brasil contemporâneo, atravessamos algo semelhante. A polarização deixou de ser apenas divergência programática e passou a assumir contornos morais absolutos. De um lado, iluminados; de outro, atrasados. De um lado, conscientes; de outro, ignorantes. O espaço intermediário, onde a maioria silenciosa costuma habitar, vem sendo comprimido.
Para milhões de brasileiros, essa dinâmica ganha contornos específicos. A caricatura de famílias tradicionais como latas de conserva foi vista por muitos como insulto não só político, mas religioso e moral - um ataque à própria noção de fé e valores que sustentam amplos segmentos da sociedade. Essa reação levou muitos a questionarem se o Carnaval foi utilizado como palanque antecipado, não apenas para um candidato, mas contra uma identidade cultural.
Esse enquadramento simplifica um país plural. O Brasil abriga milhões de cidadãos que valorizam família, fé, tradição, autoridade, e que participam da vida democrática com convicções legítimas. Tratá-los como caricatura reforça uma percepção de exclusão cultural.
Retratar conservadores como latas não é apenas uma piada carnavalesca. É parte de um método mais amplo. Nos últimos anos, tornou-se comum descrever o conservador como retrógrado, anticientífico, autoritário, moralmente suspeito. A caricatura substitui a complexidade. É mais confortável combater um estereótipo do que dialogar com um ser humano real.
Quando instituições culturais - escolas, universidades, meios de comunicação, entretenimento - passam a tratar um grupo inteiro como objeto de escárnio, deixam de exercer crítica e passam a promover exclusão simbólica. E exclusão simbólica costuma preceder fraturas mais profundas.
Parlamentares publicaram fotos com a família estampando latas em resposta à provocação do desfile da escola Acadêmicos de Niterói A juventude como termômetro
Observa-se, nos últimos anos, um movimento geracional interessante. Parte da juventude, exposta a discursos radicais e a uma atmosfera cultural marcada por permanente desconstrução, demonstra fadiga. Em diversos países ocidentais, jovens têm buscado referências mais estáveis, inclusive religiosas. Igrejas que vinham registrando declínio prolongado passaram a observar sinais de renovação entre segmentos juvenis.
A busca por sentido, ordem e pertencimento revela inquietação diante de um cenário percebido como instável. O fenômeno não pode ser reduzido a modismo ideológico. Ele expressa uma necessidade humana elementar: encontrar âncoras em meio à fluidez contemporânea.
Quando instituições culturais tratam convicções tradicionais como atraso ou motivo de escárnio, fortalecem a sensação de deslocamento. Esse deslocamento alimenta reações políticas que surpreendem analistas e desorganizam prognósticos
Historicamente, sociedades que sobreviveram a grandes conflitos internos encontraram modos de preservar a dignidade do adversário político como cidadão legítimo. Não por ingenuidade, mas por pragmatismo cívico. A decepção com estereótipos e desumanizações pode gerar uma contramobilização, precisamente porque democracia não é apenas a soma de votos: é a soma de reconhecimentos mútuos.
O Brasil precisa decidir que tipo de diálogo deseja cultivar. A liberdade de expressão inclui o direito de provocar e ironizar. Também implica responsabilidade quanto aos efeitos culturais dessas escolhas.
A cultura nacional sempre se orgulhou de sua capacidade de integrar diferenças. O samba nasceu da mistura, da convivência, da criatividade coletiva. Ele floresceu como linguagem comum. Quando se converte em instrumento de segmentação, perde parte dessa vocação integradora.
Roger Scruton e o Sambódromo
No fim, a pergunta não é apenas quem ganhou ou perdeu no Sambódromo, mas que tipo de sociedade estamos construindo quando tratamos uns aos outros como latas a serem expostas, em vez de cidadãos a serem respeitados.
A obra de pensadores como Roger Scruton insistiu na importância da lealdade ao que foi herdado. Cuidar da herança cultural significa preservar instituições e costumes que sustentam a convivência. Entre esses costumes está o respeito no dissenso. A ridicularização constante corrói esse costume. A vida pública ensina que elevações e quedas raramente são acidentais no plano simbólico. Sociedades avaliam não apenas a técnica, mas o espírito.
Roger Scruton Respeito não é concessão retórica. É fundamento estrutural. Ele sustenta a possibilidade de divergência sem ruptura. Em tempos de tensão, maturidade consiste em reconhecer que o adversário compartilha o mesmo espaço cívico. A democracia exige mais do que vitória. Exige convivência.
A imagem que permanece não é apenas a da ala das latas. É a da escola deixando o Grupo Especial. Há ironias que dispensam comentários extensos. Talvez a lição deste Carnaval esteja menos na coreografia e mais na consciência. Quando o respeito perde posição, todo o desfile se fragiliza. E a democracia, diferentemente de uma escola de samba, não possui grupo inferior para onde descer sem custo coletivo.
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