Jeffrey Epstein funcionava como uma espécie de ONU da safadeza.
Por João Pereira Coutinho para a FSP:
Nosso mundo vive dividido entre esquerda e direita. De vez em quando, porém, surge uma figura capaz de unir adversários irreconciliáveis. Jeffrey Epstein é uma delas.
Sim, era um criminoso e um pedófilo. Mas impressiona a capacidade que teve de reunir inimigos políticos na mesma mesa, na mesma ilha, nos mesmos salões. Não importa se falamos de Noam Chomsky ou Steve Bannon, de Peter Mandelson ou Bill Gates. Não importa se são plebeus, presidentes ou membros de casas reais.
Epstein funcionava como uma espécie de ONU da safadeza, onde gente poderosa se encontrava sob o mesmo teto - e, muitas vezes, com o mesmo silêncio cúmplice.
Não se trata de exagero moralista. Abusos entre elites sempre existiram. O que impressiona é a extensão e a diversidade dessa fauna, que o próprio Epstein gostava de exibir nos retratos do seu escritório. Haverá aqui um cheiro a fim de ciclo?
Em 1789, outra elite foi devorada por sua própria complacência. Historiadores apontam causas econômicas, financeiras e ideológicas para a Revolução Francesa. Tudo isso é verdadeiro. Mas, antes da falência do Estado, a Monarquia já havia falido moralmente nos libelos escabrosos que circulavam em Paris sobre os Bourbons. Maria Antonieta era a estrela desses panfletos e sua reputação foi consumida por acusações tão extravagantes quanto infundadas. Até de incesto acusaram a rainha.
Algo semelhante ocorreu com os Romanovs. Lênin e seus camaradas deram o empurrão decisivo em 1917. Mas, antes disso, as supostas relações íntimas da imperatriz com o místico e charlatão Rasputin haviam lançado uma sombra corrosiva sobre o czarismo.
Para os marxistas, tudo é economia. Mas a percepção de imoralidade das elites, real ou imaginária, costuma ser o grande aperitivo das rupturas políticas.
No fundo, é uma questão de maneiras - palavra fora de moda que nossos antepassados conheciam tão bem. Um deles era John Fletcher Moulton (1844–1921), hoje esquecido, que escreveu há mais de um século um ensaio luminoso sobre o tema.
Segundo Moulton, nas sociedades humanas existem três grandes domínios. O domínio da lei, que impõe obrigações e limites aos indivíduos. O domínio da liberdade, onde cada um pode agir como quiser. E um terceiro domínio, intermediário, frequentemente ignorado: o dever de "obediência ao incontrolável", para usar a célebre expressão do autor.
O que isso significa? Que há comportamentos que não são punidos pela lei, mas tampouco pertencem ao território da escolha privada irrestrita. São deveres que devemos a nós mesmos e aos outros. Os nomes variam: autocontenção, virtude, responsabilidade, etos cívico. Ou, usando os termos técnicos, vergonha na cara.
Para evitarmos os excessos da legislação ou os excessos da anarquia - dois males do nosso tempo -, devemos fazer o que é certo, mesmo quando não somos obrigados a tal. E se isso é verdade para o cidadão comum, é especialmente decisivo para as elites de um país.
Nos arquivos de Epstein há crimes que cabem à Justiça punir. Não falo deles. Falo das zonas cinzentas: a naturalidade com que figuras influentes continuaram a frequentar o universo de Epstein mesmo depois de sua condenação, em 2008, por prostituição envolvendo menor de idade.
Parafraseando a pergunta que o advogado Joseph Welch dirigiu ao senador McCarthy durante a "caça às bruxas" nos Estados Unidos: será que os nomes mais comprometidos dessa história não tiveram o mínimo senso de decência?
Não é preciso responder. A pergunta é retórica.
Nos clichês sobre o populismo, o fenômeno costuma ser descrito como um filme de terror: o povo, ignorante e brutalizado, alimentaria sentimentos fascistas dentro do cérebro.
Um dia, por desatino, encontra um líder autoritário e vota nele por ressentimento e sadomasoquismo.
É um belo filme - para crianças até 8 anos. A realidade, como sempre, é menos confortável: democracias tendem a se desgastar de cima para baixo, não de baixo para cima - como observa o cientista político Larry Bartels. O populismo não surge no vácuo: ele floresce quando a confiança nas elites já está corroída.
Isso não absolve os demagogos que aproveitam a onda para chegar ao poder. Mas eles são a consequência, não a causa, de um incêndio anterior.
Quando um dia se escrever a história do nosso tempo, talvez se conclua que não foram as massas que queimaram as democracias - foram as elites que brincaram com os fósforos.
Fonte: https://otambosi.blogspot.com/


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