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Segunda Semana- Orient CinePlace Boulevard

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A voz iraniana da liberdade

 

A cantora Mah Mooni fugiu da tirania no Irã e, no Brasil, passou a denunciar o sangrento regime dos aiatolás. 
Eugenio Goussinsky para a Oeste:

Teerã vivia mais um dia comum em sua trajetória milenar naquele 12 de junho de 2012. Era o último mês da primavera. O comércio fervilhava em meio a gritos de vendedores e cheiro de pão quente e kebab. A atmosfera agitada escondia um drama silencioso que ainda prevalece entre as mulheres, obrigadas pelo regime do Irã a seguir uma série de regras da Sharia (lei islâmica) para não serem presas. O mesmo drama que levava, naquele dia, Mah Mooni, então com 32 anos, a se despedir da família no aeroporto e partir, ao lado do marido e da irmã, rumo ao Brasil. Ela não aguentava mais viver sob a opressão do governo.
Queria se vestir como uma mulher livre e não com os trajes obrigatórios do Islã. Sonhava em atuar como cantora, sua vocação desde a infância, mas algo proibido para mulheres no país. Até hoje, Mah, aos 46 anos, guarda na lembrança todas as vezes em que, andando na rua, era abordada pelos policiais. Ao lado de outras mulheres, era empurrada para uma van que as levava a uma delegacia, onde passavam por duros interrogatórios.

Frame do post publicado nas redes sociais da cantora iraniana Mah Mooni 

Foram pelo menos três detenções. Apenas aquelas que tinham algum homem como “protetor” se livravam da prisão ou de possíveis torturas. Pela lei, um marido ou um pai bastava para assinar um termo de responsabilidade que as livraria daqueles momentos de suplício. No termo, eles garantiam que a mulher iria se comportar, vestir-se de acordo com a lei e seguir à risca as regras da religião. O mesmo vale para uma mulher poder sair do país.
“Apesar do sofrimento, tive o privilégio de ter me casado com um homem contrário ao regime opressor”, conta Mah a Oeste. “Isso me permitiu ir embora do Irã, acompanhada de alguém do sexo masculino. Nunca me esquecerei, porém, da dor que foi deixar o país. A noite anterior foi triste, chorei muito pois sabia que, enquanto o regime islâmico estivesse no comando, não poderia visitar minha terra e minha família.”
A chegada desta ditadura teocrática ao poder ocorreu por meio da Revolução Islâmica de 1979, pouco antes do nascimento de Mah. Para as mulheres iranianas, a consequência foi devastadora. Elas se tornaram alvo de perseguição do governo. Além das restrições para cantar e viajar, na legislação de herança recebem metade da cota destinada aos homens. Em diversos processos judiciais, o testemunho feminino vale metade do masculino. Mulheres também são impedidas de ocupar cargos como os de juíza ou presidente.
Aos 14 anos, Mah foi atropelada por um ônibus. O acidente provocou a amputação de sua perna esquerda. Hoje, com prótese, ela conta que foi atendida graças à presença do seu pai no hospital e pelo fato de ser uma situação urgente. No geral, apesar de certa evolução da legislação, as mulheres também sofrem mais restrições no atendimento médico. Há barreiras que, em muitos casos, as impedem de ser examinadas por homens. Algumas decisões médicas dependem da aprovação do pai ou do marido.
Além do trauma do acidente, seu dia a dia era pesado. Ela testemunhou, na juventude, uma cena que a marcou e que se tornou constante, inclusive nas últimas manifestações, iniciadas em 28 de dezembro último: em um protesto, viu uma conhecida ser presa, enquanto participava de forma pacífica. “A acusação contra ela era ter pedido liberdade e direitos básicos”, conta Mah. Durante a detenção, a jovem sofreu pressão psicológica e ameaças. Os oficiais diziam que ela poderia pegar uma pena longa e insinuavam que seus familiares poderiam ser alvos do regime.

Frame do post publicado nas redes sociais da cantora iraniana Mah Mooni 

“Depois de libertada, ela nunca mais foi a mesma”, afirma Mah, atualizada sobre o estado da mulher. “Hoje ela vive com medo constante, cheia de traumas e sem poder falar abertamente sobre o que aconteceu”, conta. “Isso me impactou profundamente porque poderia ter sido qualquer uma de nós. No Irã, ser mulher, existir, pedir direitos básicos já pode ser visto como um crime.”
Forma de existir
À distância, a cantora viveu os últimos 14 anos obcecada em acompanhar a rotina do país. Mah passou a denunciar o regime. Pelas redes sociais, apresenta cenas fortes de corpos de manifestantes e de mulheres espancadas na rua. No Brasil, aliou seu ofício à cultura de seu país. O islamismo radical não está diretamente ligado à cultura persa, que se distingue da árabe. No Irã, a religião foi imposta pela atual ditadura, ainda que com aprovação popular naquele momento.
A ditadura islâmica deixou à margem uma riqueza cultural, marcada, por exemplo, por poesias de Rumi (1207-1273) e de Omar Khayyām (1048-1131). Até grandes cantoras, como Faegheh Atashin, conhecida como Googoosh, foram obrigadas a encerrar suas carreiras no país. Googoosh, hoje com 75 anos, foi presa durante o golpe e só deixou a cadeia depois de assinar o termo garantindo que seguiria as regras do Islã. Mesmo sendo uma celebridade, esperou muitos anos para recuperar seu passaporte. Em 2000, mudou-se para o Canadá, onde voltou a atuar, desta vez, assim como Mah, contra a opressão do governo dos aiatolás.
Radicada em São Paulo, Mah realiza apresentações de dança tradicionais do Irã, Afeganistão e Azerbaijão, entre outros países da região. Também integrou grupos que apresentam poesia de Rumi e de Khayyām, além de conteúdos ligados à cultura e à história persa.
“Cantar, para mim, é uma forma de existir”, descreve Mah. “Quando sistemas radicais e religiosos tentam silenciar a voz das mulheres, tentam silenciar a própria vida. Deixei o meu país para poder cantar livremente e viver com liberdade de expressão. Mas levo o meu país na minha voz. As músicas que lancei em persa são marcadas pelo espírito de resistência e falam sobre os direitos negados às mulheres iranianas.”
Sem apoio da esquerda
Obrigada a deixar seu país, Mah enfrenta um drama que passa despercebido por defensoras das causas feministas no Brasil. Para ela, o radicalismo ideológico domina setores da esquerda concentrados no que chamam de imperialismo dos Estados Unidos.
A questão dos direitos humanos no Irã nem é levada em conta por eles. “Nunca recebi mensagem de apoio de figuras feministas conhecidas ou de movimentos organizados em defesa da mulher.” Nem mesmo a primeira-dama, Janja Lula da Silva, que acumulou críticas a Israel durante a incursão em resposta aos terroristas do Hamas, manifestou qualquer apoio à causa de Mah. “Ela jamais me enviou alguma mensagem de solidariedade.”
O silêncio da esquerda contrasta com a gravidade do relatório da Organização das Nações Unidas (ONU). Em 2024, declara a entidade, pelo menos 31 mulheres foram executadas. Em 2023, foram 22. Foram mortos ainda, pelo Estado iraniano, 108 presos do Baloquistão - uma região do Paquistão - e 84 do Curdistão.
Até crianças são condenadas à pena de morte e executadas no país. O regime até buscou melhorar as aparências colocando mulheres no ministério. Mas as perseguições prosseguiram. Grande parte das pouco mais de 45 milhões de mulheres no Irã, metade da população de cerca de 92 milhões de pessoas, vive uma rotina de repressão, conforme relata Mah. Este cenário macabro, inclusive, a fez se afastar do islamismo, porque, segundo ela, a religião está sendo interpretada de uma maneira prejudicial ao seu povo.
“Muitos iranianos estão profundamente decepcionados com a forma como a religião é usada pelo Estado”, garante a ativista. “Relatórios de organizações de direitos humanos têm denunciado execuções frequentes de opositores e manifestantes.”
O Centro para os Direitos Humanos no Irã, com sede em Nova York, comprovou que forças de segurança iranianas usaram munição real contra manifestantes desarmados, que protestavam contra a ditadura, em janeiro. Eles estavam insatisfeitos com a inflação de 72% para os alimentos, com a desvalorização recorde do rial e com a crise hídrica. Tudo isso agravado pela corrupção e gestão ineficiente. A entidade Iran Human Rights (IHR) relata que o número de mortos pode ter ultrapassado os 25 mil. Enquanto os EUA tentam um acordo para reduzir o poderio bélico iraniano, Mah insiste em alertar que o regime teocrático é uma séria ameaça. À sua própria população.

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