Por
Osvaldo Lyra, editor de Política, e Paulo Roberto Sampaio, diretor de Redação
Prefeito de Feira de Santana, o ex-deputado
federal José Ronaldo de Carvalho (DEM) declarou, em entrevista exclusiva à
Tribuna, que alimenta pretensões políticas para 2018, caso obtenha o apoio
necessário para isso. Após desconversar sobre os rumores de que poderia
filiar-se ao PP, da base do governador Rui Costa (PT), o democrata relembrou a
época em que concorreu ao Senado, em 2010. "Foi uma campanha dificílima, sem
materiais totais, mas fizemos uma campanha digna, honrada. Conheço a Bahia
toda, lideranças de todas as regiões, me acho em condições de exercer um cargo
majoritário. Então, se eu puder disputar um pleito em 2018, não vou esconder,
vindo uma candidatura, eu iria com simpatia. Mas não pode ser um desejo meu,
não pode ser uma coisa única na minha cabeça.
A vontade eu tenho, mas tenho que ter apoio
de grupo, de políticos e da sociedade. Então, se esses apoios surgirem, eu não
tenho nenhum receio de enfrentar uma luta", disse, para emendar: "Se tiver
apoio, serei sim, candidato". Zé Ronaldo também fala sobre as ações que tem
empreendido para enfrentar o problema da seca, comenta a boa relação mantida
com o governo estadual e ainda avalia a economia e os impactos da Lava Jato na
política nacional. "Foram abertos inquéritos contra mais de 200 pessoas.
A abertura de inquérito também dá a
oportunidade para as pessoas se defenderem, mostrarem a sua verdade. Mas
acredito que com o passar do tempo as pessoas inocentes vão conseguir provar a
sua inocência. Mas vale a sociedade tomar conhecimento. Aquele que não provar,
aí é com a Justiça. Mas acho também que a política nacional passa por uma
grande transformação. A Lava Jato vem dando, ao longo desses anos, uma forte
contribuição à política nacional.
Acho que ela vai
conseguir mudar a mentalidade de muita gente que está na vida pública e pensa
em obter benefício de ordem pessoal. Acho que isso vai ajudar e muito a fazer
uma mudança na política, que quando as pessoas participarem da política a vejam
como um patrimônio da sociedade", emendou.
Confira entrevista completa:
Tribuna da Bahia - Prefeito, a seca é um problema grave no semiárido baiano, e Feira se insere
nela com maior ou menor intensidade. O que tem sido feito para enfrentar esse
drama?
Zé Ronaldo - Na verdade, a seca
vem em qualquer lugar, é difícil, complicado. Prejudica tudo, o ser humano na
questão do abastecimento, a economia, pois arrecada-se menos. Em Feira de
Santana, o abastecimento de água, eu diria que tem 80% da população na zona
rural, ela tem serviços de redes permanentes por meio da Embasa. Ao longo dos
anos, foram feitos vários investimentos, quer sejam diretamente pela empresa,
ou pela prefeitura, ou seja, o município atingiu 80%. Esses 20% ainda são
abastecidos por poços artesianos e carros-pipa. Claro que isso também afeta a
economia, porque na zona rural você tem vários mercadinhos que contribuem com a
economia local, das regiões. Então se tem menos recursos, compra-se menos. Às
vezes um mercadinho desses vai fechar, às vezes lá trabalham família e um ou
dois empregados. Estamos lutando arduamente para que esses locais que ainda não
tenham abastecimento da Embasa passem a ter. Temos construído também algumas
aguadas, transformadas em pequenas barragens. Acho que isso vai ajudar em
pequenas irrigações para produção de alimentos para o animal. Acredito nisso e
estou investindo nessas questões.
Tribuna - A economia
nacional teve um grande recuo por conta da crise. Como Feira reagiu?
Zé Ronaldo - Feira de Santana é uma cidade atípica,
só veio a sentir mesmo a crise de um ano e meio para cá. Você vê que algumas
casas comerciais fecharam, a abertura de empresas na cidade diminuiu e quase
ficou no mesmo ritmo do resto do país. O município tem leis que permitem o
incentivo para empresas que querem se instalar. Temos conversado com essas
empresas, temos recebido, mesmo com essa crise, empresas do setor atacadista.
Outras deram entrada em projetos da prefeitura, e temos lutado para agilizar
essas liberações no sentido de proporcionar empregos desde o seu início na
construção civil e depois no funcionamento dessas empresas. Temos procurado
atrair para fugir dessa crise nacional, mas acredito muito em Feira. A nível do
poder público municipal a gente conseguiu manter o volume de obras no
município. Recentemente anunciei licitações no valor de R$ 22 milhões, isso é o
objetivo de estar gerando emprego, principalmente na construção civil e em
pequenas empresas. Recentemente, um grupo empresarial esteve na cidade
reativando a ideia da construção de shopping.
Tribuna - O senhor
foi presidente da UPB duas vezes, conhece muito bem os problemas
municipalistas. Como é o principal gargalo das prefeituras hoje?
Zé Ronaldo - Quando você tem uma
crise econômica, misturada com a crise política, o ente que mais sofre é o
município, porque é o menor, o que tem os menores recursos. O governo federal
fica com 60% do que arrecada, o Estado fica com 25% e o município com uns 15%.
Mas é o município que administra todos os problemas. O cidadão vai na porta do
prefeito, no posto de saúde, na escola, pede iluminação pública, limpeza, tudo
isso é feito pela prefeitura. O município tem essas dificuldades, e a
diminuição das ações e da presença do governo, então, claro que o município
sofre, porque a economia local diminui. A sociedade cobra.
Tribuna - Como o
senhor vê o socorro que o governo tem dado às prefeituras?
Zé Ronaldo - Eu desconheço esse
socorro. Pelo menos a nível de Feira de Santana esse socorro não existe. Porque
não reconheço o recurso da repatriação como um socorro. Aquilo é uma lei que
foi aprovada no Congresso Nacional para trazer recursos que estavam lá fora que
na luta das entidades municipalistas puderam incluir os municípios. Claro que
foi um recurso extra, que entrou no final do ano passado, finalizando um
período de governo, mas, fora isso, desconheço qualquer participação mais
efetiva nos últimos anos pelo crescimento dos municípios, que lutaram por 1% no
FPM. Acho isso muito pouco. Quando foi criado o Samu, o governo bancava 60%, o
Estado 25% e o município, 15%. Hoje as coisas se inverteram. Então claro que
isso prejudica a administração municipal porque quando o serviço é implantado,
o povo quer que o serviço funcione bem, não quer saber que o recurso é pouco.
Acho que essas conquistas foram muito pequenas e que a luta deve continuar. E
acho que os municípios deveriam ter uma união mais forte.
Tribuna - O que fazer
para conter o problema da violência na cidade?
Zé Ronaldo - Isso me incomoda muito.
Constitucionalmente, as atribuições da segurança são da União e dos Estados, o
município não tem poder para tal, nem capacidade de influir. O máximo que o
prefeito pode fazer é conversar, e às vezes a conversa nem é bem-vinda. Falo
agora do prefeito de modo geral, saindo da esfera de Feira de Santana. Quando
vejo uma notícia que Feira é uma cidade violenta, me abalo muito. Quero dizer
que enquanto em outros locais do mundo a segurança é comandada por governos
municipais, acho que isso daria uma melhor segurança, mais praticidade. Quando
se faz um concurso para PMs, é para repor aqueles que estão indo para a
reserva, para a aposentadoria. Então fica aquém das reais necessidades para se
fazer a segurança pública.
Tribuna - Muito se
fala que o senhor pode passar para a base do governador Rui Costa. Qual a
possibilidade disso acontecer?
Zé Ronaldo - Aprendi ao longo da
minha vida a manter uma relação de respeito institucional com as autoridades.
Tenho com Jaques Wagner, mantenho com Rui, diria até que temos um relacionamento
pessoal bom, de homens e cidadãos, e mantemos realmente uma relação muito
respeitosa. E com certeza isso continuará, porque sempre coloquei o interesse
da administração pública acima do interesse pessoal. Agora, política nem ele
falou comigo nem eu falei com ele. Em nome da justiça e da verdade, não
tratamos desse assunto.
Tribuna - Haveria um
início de diálogo entre o senhor e o PP nacional?
Zé Ronaldo - Não, converso com todo mundo. Tenho um
relacionamento com todas as pessoas de todos os partidos que tenham
representantes na Assembleia e no Congresso Nacional. Em todos esses partidos
tem pessoas que foram meus colegas, alguns colegas como prefeito, então isso
facilita a conversa. Se eu disser que não converso com essas pessoas sobre
política de 2018, eu estaria mentindo. Converso e vou continuar conversando.
Tribuna - O senhor
acha que o prefeito ACM Neto vai ter fôlego para disputar o governo do Estado em
2018?
Zé Ronaldo - Ele tem tudo. A
juventude dele, a competência, a inteligência, o bom trabalho administrativo o
qualifica para ser candidato a governador. Agora, a decisão é da pessoa. Para
ser candidato, o cidadão tem que querer. Depois disso ele vai partir para
buscar os apoios de outros partidos e da sociedade. Aí ele lança a sua
plataforma e a sua luta. Acho que Neto sempre foi muito bem votado para
deputado federal e prefeito, e faz uma belíssima administração. É só a vontade
pessoal dele.
Tribuna - O senhor
vai colocar o seu nome para 2018?
Zé Ronaldo - Fui candidato a senador em 2010. Foi
uma campanha dificílima, sem materiais totais, mas fizemos uma campanha digna,
honrada. Conheço a Bahia toda, lideranças de todas as regiões, me acho em condições
de exercer um cargo majoritário. Então, se eu puder disputar um pleito em 2018,
não vou esconder, vindo uma candidatura, eu iria com simpatia. Mas não pode ser
um desejo meu, não pode ser uma coisa única na minha cabeça. A vontade eu
tenho, mas tenho que ter apoio de grupo, de políticos e da sociedade. Então, se
esses apoios surgirem, eu não tenho nenhum receio de enfrentar uma luta.
Tribuna - Que leitura
faz do governo Rui Costa? Qual o principal erro e o principal acerto?
Zé Ronaldo - Acho que a economia tem passado
por imensas dificuldades. A Bahia tem um déficit de quase R$ 1 bilhão. Esse é
um quadro que preocupa. Ele tem viajado muito pela Bahia, não fica no gabinete.
Acho que viajar muito ajuda a governar, mantém o cidadão sabendo da administração.
Mas houve em determinado momento uma presença melhor, hoje a presença é menor
de obras acontecendo. Mas existe um momento da política nacional acontecendo.
No momento que estamos vivendo, que não se sabe quem é um candidato à
presidência da República, fica mais difícil ter um pensamento da política mais
forte. Isso prejudica a administração pública, e isso tem que ser superado com
muito trabalho.
Tribuna - A Operação
Lava Jato atingiu o ex-presidente Lula e o PT. Depois pegou o PP e o PMDB.
Agora o DEM e PSDB. Qual a sua avaliação?
Zé Ronaldo - Essa Operação Lava Jato teve como
carro-chefe a Petrobras, construções de hidrelétricas e estádios. Um político
de oposição não tem acesso a governo. Ele não tem acesso a essas empresas. Que
acesso tinha essa oposição tão pequena que tinha no Congresso Nacional? Acho
isso um pouco estranho. Tenho o raciocínio que essas pessoas não tinham força
nenhuma para interferir nesses processos. Mas foram abertos inquéritos contra
mais de 200 pessoas. A abertura de inquérito também dá a oportunidade para as
pessoas se defenderem, mostrarem a sua verdade. Mas acredito que com o passar
do tempo as pessoas inocentes vão conseguir provar a sua inocência. Mas vale a
sociedade tomar conhecimento. Aquele que não provar, aí é com a Justiça. Mas
acho também que a política nacional passa por uma grande transformação. A Lava
Jato vem dando ao longo desses anos uma forte contribuição à política nacional.
Acho que ela vai conseguir mudar a mentalidade de muita gente que está na vida pública
e pensa em obter benefício de ordem pessoal. Acho que isso vai ajudar e muito a
fazer uma mudança na política, que quando as pessoas participarem da política a
vejam como um patrimônio da sociedade.
Tribuna - É chegada a
hora de se mudar a forma de fazer política no Brasil?
Zé Ronaldo - Com certeza. Acho que o Brasil precisa
de uma reforma política. Fazer uma reforma é complicadíssimo porque o político
que está na Câmara, quando ele vai votar, pensa se vai se eleger com a reforma.
Então fica difícil porque ele está pensando na própria sobrevivência. Mas é
importante, assim como uma reforma tributária. Está sendo debatido na Câmara.
Uma das coisas que têm acontecido é que o Congresso está debatendo todos os
assuntos. Acho que Temer, apesar de tudo, está tendo coragem para tocar à
frente assuntos polêmicos e impopulares.
Tribuna - As
investigações da Lava Jato vão atingir o presidente Michel Temer?
Zé Ronaldo - Sinceramente, acho
muito difícil. Está faltando um ano e oito meses para acabar esse período governamental.
Se você atinge o presidente nesse momento, as eleições ocorrem de maneira
indireta no Congresso. Então acho complicado. Não sei se o país está preparado.
Não seria bom para a política nem para a economia.
Colaborou: Guilherme Reis
Fonte: "Tribuna da Bahia"