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terça-feira, 25 de agosto de 2026

A arte como território em "Em espelhos partidos"

"Betina" e "Em espelhos partidos" não são continuação, são gêmeos de placentas diferentes.  Agora é a vez de comentar sobre "Em espelhos partidos". 


Por Conceição Carvalho  

Escolhi dois pintores que, à primeira vista, parecem opostos, mas que no meu livro se completam como dois espelhos - um partido no chão, outro na parede.

1. JURACI DÓREA - O SERTÃO COMO MUSEU 

Juraci aparece em dois capítulos que trato do "Projeto Terra". Não como personagem, mas como paisagem.

Juraci Dórea, feirense de 1944, arquiteto pela Ufba, começou o Projeto Terra em 1982. A proposta era radical: criar esculturas de couro, madeira e galhos e instalá-las não em galeria, mas no próprio sertão baiano - Euclides da Cunha, Canudos, Raso da Catarina. 

No romance, captei exatamente o que a crítica Frederico Morais já apontava: Juraci fazia "arte sem referências urbanas e mostrava-a no próprio ambiente que a inspirou". Quando descrevo as esculturas sendo admiradas pelos mineiros que se lembravam do "couro de boi de corte", "das alpercatas", estou usando um dado real do projeto - pela dessacralização, o couro voltava para o uso diário do sertanejo. 

Por que ele é fundamental para Leona, a personagem de "Em espelhos partidos"? Porque Juraci ensina no meu livro que o espelho partido pode ser museu. "O sertão é um grande museu", ele diz. É a primeira pista que Leona tem de que não precisa juntar os cacos - pode expor os cacos. O Projeto Terra foi para Veneza em 1988 representando o Brasil, mas nasceu na caatinga. Assim como Leona, que vai parar em Joanesburgo, mas precisa decorar a casa com quadros de Feira. 

2. GIL MÁRIO MENEZES - A PAREDE QUE GUARDA A MEMÓRIA

Se Juraci é o sertão aberto, Gil Mário é a parede fechada que guarda.

Gil Mário Menezes, baiano de Salvador (1947), formado em Desenho e Plástica pela Ufba, professor titular da Uefs desde 1976 e curador do Museu Regional de Arte de Feira de Santana.. No meu romance, ele não entra como o sertanejo, mas como o curador da memória. 

Eu o trago em um capítulo durante uma exposição na qual as pessoas tentam decifrar as obras, a arte, no MAC. Poderia haver outros capítulos na Pinacoteca da CDL e do Museu Regional. E é preciso lembrar: foi Gil Mário quem coordenou a pinacoteca de 30 artistas feirenses instalada na CDL em 2007, com curadoria de Lygia Mota, e quem organizou o catálogo do acervo do Museu Regional de Arte em 2000. Quando escrevo "Burburinho em volta da arte", onde ele mistura todas as cores, estou falando da poética real de Gil Mário Menezes - um pintor-crítico que assina coluna de arte desde 1998.

No livro, "Em espelhos partidos", Gil Mário é o antídoto de Juraci. Juraci espalha a arte no mundo para depois voltar. Gil Mário recolhe o mundo numa sala em Feira. É um gesto regional que não é regionalista - exatamente como meu romance.

Para a personagem Leona, Gil Mário representa a possibilidade de arquivo. Sua  mãe, Mavie Weber, só deixou papéis numa pasta corroída, Gil Mário ensina que é possível catalogar, preservar, pendurar na parede certa. É por isso que o último gesto do livro - comprar quadros de pintores feirenses para a casa em Joanesburgo - é um gesto gilmariano: levar o museu consigo.

CONCLUSÃO: DOIS ESPELHOS, UMA SÓ CASA

É por isso que os dois precisam estar juntos no meu livro: Juraci Dórea partiu o espelho e jogou no sertão. Gil Mário Menezes recolheu os cacos e pendurou na parede do museu.

Leona, no final, faz as duas coisas: aceita que sua vida é marcada por espelhos partidos e, mesmo assim, decora a sala. - "Em Espelhos Partidos" - FIZ o que os dois pintores fizeram a vida toda: provar que Feira de Santana não é interior. É centro. É de onde se parte e para onde se volta para se reconstruir.

E assim o livro, um ano depois, segue reconstruindo a si mesmo.

P.S: Em 31 de julho de 2025, no Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira (MAC), a escritora Conceição Carvalho lançou os livros "Betina" e "Em espelhos partidos"

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