Fui convidado pelo meu amigo Roque Araújo, para ver a sua exposição de equipamento fotográfico-cinematográfico, realizada na Dimas (quando ainda funcionava no prédio da Biblioteca Pública dos Barris). Ao passear pelos diversos aparelhos ali instalados, minha visão de repente fixou-se em uma rudimentar peça de projeção, cujos olhos imediatamente encheram-se de lágrimas, chamando à atenção do meu anfitrião.
O aparelho simplório me fez recordar e voltar ao meu tempo de criança, no final da década de 40, do século passado, quando o cinema ainda possuía tamanha força de encantar, onde o cinéfilo de então entrava num salão umbroso, sentava-se em frente de uma tela prateada vendo as imagens fluir, e assim, durante os momentos de duas ou mais horas esquecia seus dramas e suas dores.
O cinema era a catarse das multidões. A criança, que entrava pela primeira vez numa casa exibidora de filmes, ficava perdidamente apaixonada e perplexa pelo ritual de uma projeção cinematográfica. A cabine do operador que apresentava a película mexia com seus sentidos, principalmente, quando tinha a possibilidade de entrar em uma delas e presenciar o manuseio de como o técnico de projeção colocava a fita no aparelho.
E o que mais intrigava o menino (por não possuir ainda certo conhecimento de física), era o de ver a imagem invertida no projetor e ela ser mostrada com perfeição no écran. O cinema produzia no garoto um efeito de sedução sem precedentes, levando-o a sonhar acordado com os filmes de ação e seus mocinhos de "faz de conta" dos seriados do "Volte na Próxima Semana", Tarzan e os faroestes "B".
Sendo assim, surgiu naquele pretérito um projetor simples e caseiro de manivela Barlan. Na verdade, o protótipo era um brinquedo de plástico duro (baquelite) pintado de uma ou duas cores (vide figura acima), possuindo uma manivela que arrastava o filme, e se à memória não me engana, feito de papel encerado (tipo amanteigado), onde se desenhava as figuras que se mostravam movimentadas na tela.
Foi então um Barlam que meu pai Josias, deu-me de presente no dia do meu aniversário de oito anos de idade. Morava na cidade de Estância/SE., quando o pacote chegou as minhas mãos e foi aberto, vi aquela peça encantadora, a alegria foi tão intensa a ponto de querer abraçar o meu querido genitor como agradecimento, mas como era bastante tímido, ficou apenas na intenção. A emoção sentida ao possuir aquele simplório e inesquecível brinquedo só pode ser entendida por àqueles que da mesma forma tiveram um modelo de qualquer espécie de projetores, e que de fato tinham amor ao cinema.
Os filmes acompanhantes na compra da referida peça eram três - recordo-me de um deles, "Branca de Neve e os Sete Anões" entre os primeiros conseguidos. E se o adquirente quisesse outros, era obrigado a recorrer à capital do Estado, ou mandar buscar pelo correio em São Paulo ou Rio de Janeiro. Devido à dificuldade encontrada em achar um colega na minha pequena cidade, que possuísse também um Barlam, e outros títulos de filmes diferentes para trocar, recorri então ao estratagema de cortar as figuras das revistas em quadrinhos que tinham aventuras coloridas e assim adaptá-las como se fossem películas.
Naturalmente, existiam protótipos mais avançados de projetores nas bitolas de 8mm, 9,5mm, 16mm e 35 milímetros movimentados a manivela ou a motor, mas eram bem mais caros, e só os filhos de progenitores abastados podiam tê-los. O meu pai naquela época, se encaixava como de situação plausível de me comprar qualquer um desses tipos de aparelhos, porém fiquei de certa forma muito satisfeito com o meu querido Barlam, principalmente pela analogia que fiz entre este e os anteriores arcaicos projetores artesanais feitos pelas minhas próprias mãos, com caixas de sapatos, lâmpadas transparentes cheias de água que servia como lente e uma lanterna de pilhas que iluminava os fotogramas de 35 milímetros para a projeção.
Com a continuidade da vida fui conseguindo diversos modelos de aparelhos nas diversas bitolas, mas nenhum deles me proporcionou tantas alegrias como o meu inesquecível Barlam!...
FIM
Carlos Modesto é cinéfilo

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