O diretor William Witney quando jovem, com alguns dos seus famosos personagens que dirigiu na Republic Pictures. Meu ícone dos seriados
Por Carlos Modesto
Para os garotos do pretérito, vidrados em cinema, as palavras: "Volte na Próxima Semana", os fazem imediatamente, voltarem aos seus tempos de criança. Qual o garoto, frequentador assíduo das matinês esqueceram dessas formidáveis palavras? Acredito, nenhum. Esta sentença era semanalmente gravada no final de cada episódio dos seriados, que tanto marcaram a infância de cada um de nós, felizardos, que viveram naquele memorável tempo de saudade.
Eu, igualmente, aos meus contemporâneos infantis, adorava os filmes em capítulos semanais. Muitos desses filmes sempre eram exibidos depois da última película projetada de cada sessão de cinema. Gostávamos das galopantes "fitas" de faroeste, mas os seriados eram as nossas principais atenções.
Foram tantos títulos inesquecíveis que ficaram em nossos sensórios, que quando encontramos atualmente os verdadeiros cinéfilos do passado para uma conversação informal sobre os seriados, rapidamente tais nomes voltam logo à memória. Por exemplo, A deusa de Joba, O guarda vingador, Os demônios do círculo vermelho, A mulher tigre, O terror dos espiões, O maravilhoso mascarado, O falcão da floresta, O rei da polícia montada Os perigos de Nyoka, As aventuras do Capitão Marvel entre outros, de imenso sucesso, todos eles produzidos pelos estúdios da Republic Pictures, e realizados pelo magistral diretor dessa empresa, William Witney. Naquele tempo, as películas cinematográficas, só eram conhecidas pelos nomes dos atores e atrizes. Os dublês, os principais responsáveis pelas cenas de ação e perigo, seus nomes sequer apareciam na ficha técnica, Depois, com a continuidade, eles ficaram bastante conhecidos. Yakima Canutt, o rei dos dublês, David Sharpe o príncipe dos dublês, Dale Van Sickel entre tantos, foram alguns desses maravilhosos experts acrobáticos dessas películas encantadoras, que tantas emoções e saudades nos deixaram.
Conhecer uma dessas figuras pertencente ao meio artístico de Hollywood daquele tempo era sonho irrealizável para a pessoa comum daquela época. Mas, depois, houve uma mudança radical, livros e revistas começaram a contar as vidas desses personagens fantásticos, onde ficamos sabendo tudo a respeito deles. Em referência ao diretor William Witney, cuja admiração pelas suas realizações fizeram-me tornar o seu fã incondicional, no final da sua vida, durante um festival de cinema internacional nos Estados Unidos da América, quando ele estava lançando e autografando livros da sua criação, e ele sabendo através de um amigo meu daqui do Brasil, que se encontrava lá, da minha grande admiração pelo seu excelente trabalho nesses tipos de filmes, logo autografou seu livro "Relembrando Trigger" (o cavalo do cowboy Roy Rogers) e mandou para mim, cuja obra guardo com muito carinho. Quem diria que o garoto Carlos Modesto, nascido numa pequenina cidade do Sul de Sergipe, iria um dia receber este maravilhoso presente das mãos desse memorável diretor admirável da tela prateada.
Devo lembrar, que, para o menino perder um desses capítulos semanais, significava uma tristeza inconsolável. Certa vez, com a idade aproximada de oito anos de idade, num certo domingo dos anos 50 do século passado, amanheci com um mal-estar intestinal, causando idas frequentes ao sanitário, Nesse tempo morava com minha avó paterna na Praça 7 de Setembro, em Estância, Sergipe. E ela proibiu de naquela tarde eu ir para a minha ansiada matinê. Coisa que não fiquei conformado. Chorava desesperado, parecia, que o mundo tinha acabado para mim, perder o episódio do maravilhoso seriado O misterioso Dr. Satã, dirigido pelo meu ícone William Witney, era demais, mas mesmo assim, com a saída espontânea e sem controle dos excrementos intestinais, não podia deixar de assistir o meu adorado seriado. Troquei de roupa as escondidas da minha querida avó, abri a porta devagarzinho, e fugi como um relâmpago em direção da casa de projeção.
Bem, havia andado uns cinco minutos, a vontade imperiosa de evacuar apareceu de súbito, procurei um lugar solitário para fazer aquela necessidade fisiológica, não encontrei, borrei a calça curta que usava. Mas continuei em frente em direção ao meu ansiado destino. Ao chegar na Avenida Getúlio Vargas (antiga Rua Nova), novamente surgiu nova vontade incontrolável de defecar. Olhei para um lado e outro da avenida, e, então, aproximei-me de uma igreja evangélica, que ali existia, estava fechada e tinha um pequeno muro na entrada. Um esconderijo perfeito para fazer o que desejava. Acabado o ato, não encontrei papel para limpar-me, segui em frente naquele estado - nunca esqueci desse lugar, quando visito a cidade e por ele passo a lembrança vem logo à tona. Ao chegar no cinema, comprei o ingresso e entrei no salão de projeção.
No meu pensamento de criança, achava, que as pessoas não iam sentir o odor de fezes alojadas em mim. Procurei sentar numa cadeira mais afastada do local usualmente usado por mim, que era em frente da tela, indo me alojar no final da carreira das poltronas, com aquela imaginação infantil de não ir muita gente para ali, fiquei encolhidinho até o final da matinê. O cinema lotou, e eu quietamente ouvia sussurros de algumas pessoas sentido o fedor de merda. São coisa de cinema... Tenho certeza, que casos semelhantes aconteceram com outras crianças de então.
Voltando ao encanto dos seriados, devo esclarecer, que, no começo do cinema mudo, quase todos os estúdios faziam esses tipo de filme. Depois, com o tempo do cinema sonoro, foram apenas continuados com os estúdios da Universal International, (que fez três seriados fantásticos: Flash Gordon conquistando o mundo, Flash Gordon no planeta Mongo e Flash Gordon no planeta Marte), a Columbia Pictures e a memorável Republic Pictures, que tinha o símbolo de uma águia num pedestal.
Explicar a sensação que sentíamos de ver no écran aquelas cenas de ação, onde os socos dos mocinhos e vilões em suas lutas não caiam os chapéus (para não mostrar os rostos dos dublês), explosões dentro de uma cabana com o herói dentro, carruagens caindo no precipício com o corajoso intérprete em seu interior, em outros momentos, ele se encontrava numa esteira rolante desmaiado ou amarrado aproximando-se de uma serra gigantesca, explosões de cabanas e cavernas, ou com o herói desmaiado dentro de uma canoa que se aproximava de uma gigantesca cachoeira, alçapões perigosos, portas que apertavam, areia movediças, aviões caindo com o corajoso intérprete etc. etc. Esses eram os clichês usuais nesse tipo de filme, que ficaram marcado no nosso tempo de criança. Eram momentos que levávamos para fora do cinema para apostarmos com nossos amiguinhos, revistas em quadrinhos, estampas do sabonete Eucalol e soldadinhos de chumbo, para adivinhar quem acertava de como o artista conseguia escapar daquelas proezas de faz-de-conta. Esses momentos encantadores com as palavras "Volte na Próxima Semana", jamais serão esquecidos na criança, que ainda vive em nós.
Carlos Modesto é cinéfilo


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