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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Anatomia de uma sessão de cinema do passado



Por Carlos Modesto

Para o verdadeiro cinéfilo, recordar uma sessão de cinema, é voltar a um pretérito fascinante das nossas vidas. A sensação sentida dentro de um salão umbroso vendo a passagem de uma película cinematográfica ante os olhos, era pura emoção.  Algo muito difícil de explicar ao espectador atual.
Tudo começava no intervalo antes da projeção, com a chegada do público ao interior do cinema, ouvia-se melodias tocando até chegar o momento do prefixo da música, que na maioria das casas de projeção usava: a abertura da ópera O Guarany, de Carlos Gomes. Nas matinês, devido a participação maior da criançada, ecoavam gritos e assovios, peraltices e algumas vezes batidas dos assentos das cadeiras, enquanto nas soirées a plateia era mais comportada. Com a parada do prefixo musical, escutava-se o som de três batidas de tambor, ao mesmo tempo em que a cortina se abria, as luzes iam trocando de cores até o escurecimento total, quando, então, iniciava a projeção esperada na tela prateada.
Mostrava inicialmente o jornal cinematográfico com notícias muitas vezes defasadas do noticiário brasileiro, depois, em outras ocasiões, surgia outro jornal estrangeiro projetando notícias internacionais. Exibiam-se documentários sobre outros países, complementos diversos, trailer dos filmes a serem exibidos na próxima semana, e até desenhos animados. Enfim, o filme começava. E com o final da película, aparecia o ansiado seriado semanal, deixando o desfecho de cada capítulo em suspense com as famosas palavras: "Volte na próxima semana".
Com a continuidade, os cinemas começaram a exibir dois filmes e dois episódios de um seriado. E logo depois, foram criadas as sessões contínuas com apenas um filme, que foram consolidadas em todo mundo.
Dentro e fora de um templo cinematográfico aconteciam eventos formidáveis dos tipos que foram mostrados no magnifico filme Cinema Paradiso, de 1988, do diretor italiano Giuseppe Tornatore, onde muitas cenas dessa película em referência aos nossos cinemas não são meras coincidências.
No lado externo de um desses cinemas, era comum as trocas, compras e vendas de revistas em quadrinhos.  No interior do salão, havia a mocinha que ia debutar pela primeira vez, o vestidinho comprado por seus pais, ocorriam também, os namoricos inocentes, e as vezes picantes, que aconteciam nos momentos das cenas "noir" entre jovens e adultos, onde em muitos deles nasciam ali e terminavam em futuros casamentos, e, enfim, grandes amizades nasceram dentro de um cinema. Além de tudo isso, o cinema era um arauto cultural.
As deusas e os deuses do celuloide
Os atores e atrizes da tela prateada eram considerados deuses e deusas, eram estrelas inacessíveis para o homem ou mulher comum, conhecer um ator ou atriz de fama internacional, era um sonho impossível, mas o cinéfilo se conformava com uma foto do seu artista preferido, pedido aos estúdios de Hollywood, que depois era enviado pelos secretários desses artistas, e o fã embevecido se emocionava pensando que a foto tinha sido enviado pelas mãos dos seus adorados astros ou estrelas.
Quando se assistia um filme o espectador mais sensível, macho ou fêmea, muitas vezes se apaixonava pelo ator e a atriz do filme em questão. Meninos e rapazes saíam do cinema com as imagens ainda latentes projetadas em seus sensórios, levando para a cama, onde sonhavam com elas namorando, beijando e até mesmo vivendo em colóquio amoroso com essas artistas dos seus sonhos. O covarde, durante o espaço de três ou quatro horas assistindo os filmes de ação, se transformava num herói. A mocinha angelical, tímida e lânguida, vendo as cenas amorosas do seu galã preferido, tornava-se de imediato, fogosa e ardente em seus sonhos íntimos. O cinema tinha essa força de seduzir as massas, Os close-ups desses astros e estrelas projetados nas cenas dos seus filmes tinha o grande poder de hipnotizar a plateia de ambos os sexos.
O mais interessante, era, que, nesses filmes do passado, quando uma atriz entrava numa toalhete, ia apenas para retocar a maquilhagem e nunca para fazer alguma necessidade fisiológica, dando-se a entender que as mesmas não praticavam esses atos. As estrelas americanas primavam pela beleza dos seus rostos, mas corpo perfeito só de algumas delas, como por exemplo, Marilyn Monroe, Kim Novak, Hedy Lamarr, Paulette Goddard, Piper Laurie, as atrizes bailarinas Eleanor Powell e Cyd Charisse entre outras. Quando os filmes franceses e mexicanos começaram a encetar nos cinemas brasileiros, mostrando os nus das atrizes do primeiro, e as danças provocantes das rumbeiras do segundo, um novo tipo de espectador nasceu: os famosos onanistas ou "punheteiros" de cinema. O cinema francês abriu o espaço para mostrar seios e nádegas das suas estrelas, enquanto o México mostrava as lindíssimas bundas estonteantes adornadas com sensuais bíquinis das suas famosas estrelas Maria Antonieta Pons e Ninón Sevilla (primórdio do grupo O Tchan). Era uma maneira de superar a repressão sexual daquele tempo da geração Zéfiro (autor dos famosos catecismos pornográficos). Acredito, que muitos espectadores de cinema tiveram seu harém mental cheio das estrelas que idolatravam, para os momentos de autoerotismo glorioso de prazer solitário.
O glamour dos astros e estrelas de Hollywood
Outra faceta interessante que Hollywood mostrou ao mundo, foi o seu glamour desenvolvido na tela prateada, onde suas atrizes usavam vestimentas suntuosas criadas especialmente para elas, pelos mais famosos costureiros da época, era um vislumbre sem igual. Outra coisa, esses costumes muitas vezes tiravam os defeitos existentes em muitas delas. Para quem tinha corpo malfeito usava-se artifícios protésicos para corrigir o defeito. As famosas joias deslumbrantes que eram utilizadas em seus punhos e pescoços encantavam os espectadores. Os restaurantes famosos, os veículos da nova geração ajudavam a formular a fantasia de mundo de faz de conta do cinema hollywoodiano.
A mensagem que marcava
E finalmente o cinema tinha a força de ditar moda e influenciar o modo de viver do indivíduo de qualquer parte do planeta. Os veículos, modernidades eletrônicas mostradas em seus filmes, imediatamente chamavam a atenção do público, que certo presidente americanos citou em alto e bom som: "Para onde vão nossos filmes, vão o interesse em outras nações de comprarem os nossos produtos". O ator Clark Gable numa cena do Filme Aconteceu Naquela Noite, de 1934, do diretor Frank Capra, estava numa cena com a atriz Claudette Colbert, num pequeno quarto de hotel de estrada, a estrela vendo o ator sem camisa de física (muito em noda no mundo inteiro), perguntou ao mesmo se ele não usava esse tipo de camiseta, cuja resposta foi não. De repente, muitos americanos deixaram de usar a famosa vestimenta, caindo suas vendas em mais de 50%. O ator James Dean no filme Juventude Transviada, de 1955, dirigido por Nicholas Ray, usou em muitas cenas desse filme um blusão de cor vermelha que fez a cabeça dos jovens de então, do mundo inteiro, a usarem esse tipo de jaqueta. Houve um tempo em que os homens e mulheres isentos de beleza não tinham vez com seus parceiros opostos, pois a formosura primava, desenvolvida pela força do cinema. Assim quando um jovem ou uma mocinha tinha pelo mínimo que fosse em aparência, com algum ator ou atriz de cinema, tinha vez com seus parceiros. Quando o público de um país pouco desenvolvido via nos filmes os cafés da manhã do povo americano, ficava com uma inveja danada, vinha logo a vontade de morar nos Estados Unidos da américa.
Mas, também, muitas coisas belas o cinema tinha a oferecer ao cinéfilo daquele pretérito: o aprendizado pelas coisas boas que o mundo oferecia em caráter de arte, o conhecimento pelos grandes homens da história do passado, as maravilhosas músicas com seus compositores e intérpretes, como também, as importantes adaptações das famosas peças literárias e teatrais.
Entretanto o espectador de hoje é passivo vivendo dentro de um salão de cinema, apresenta-se ali para passar um momento descontraído, passatempo com a namorada ou um amigo, influenciado talvez pela propaganda de um filme de sucesso internacional, participando de um cinema moderno de um grande shopping da sua cidade, usufruindo de uma tela gigantesca, som digital, ar condicionado e imagens em terceira ou quarta dimensão, além de acompanhar durante a projeção seu copo gigantesco de pipoca e seu refrigerante preferido. Com tudo isso à sua disposição, ele não possui a sensação do antigo cinéfilo, que ia ao cinema para viver intensamente o filme que assistia, concentrava-se profundamente no enredo, mesmo sofrendo o calor e o desconforto de algumas casas de projeção, ele vivia ativamente o momento, mesmo vendo fotogramas riscados, cenas amputadas por operadores cinematográficos irresponsáveis, som inaudível em certos cinemas do interior ou das grandes cidades, ele saía dali satisfeito, preenchido pelas emoções sentidas naqueles momentos ali vividos numa sessão cinematográfica do passado.
* Carlos Modesto é cinéfilo

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