Discurso do Professor Doutor Humberto Luiz Lima de Oliveira, em 10 de julho de 2026. saudando os novos membros da Academia Feirense de Letras
Professor Doutor João Batista de Cerqueira, Presidente da Academia Feirense de Letras;
Professora Liacélia Pires Leal, Presidente do Instituto Geográfico e Histórico de Feira de Santana;
Dom Itamar Vian, arcebispo emérito de Feira de Santana;
Sr. Professor Doutor Carlos Brito, secretário municipal do Planejamento;
Sr. Professor Mestre Cristiano Lobo, secretário de Cultura de Feira de Santana;
Demais autoridades presentes ou representadas a quem estendo estes cumprimentos;
Caríssimos confrades;
Caríssimas confreiras;
Senhoras e senhores;
É inegável que estou orgulhoso de vivenciar este momento, mas permitam-me
esclarecer o que significa este sentimento, pois não pode ser confundido com a soberba.
O orgulho, para os africanos do Quênia com quem conviveu a escritora Karen Blixen é
"[…] o orgulho é a consciência que temos dos desígnios de Deus sobre nós, assim como a confiança que estes desígnios nos inspiram.
O orgulhoso (fier) tem o sentimento de que sua razão de ser é de realizá-los. Não
procura a felicidade ou o bem-estar, enquanto podem não coincidir com o conceito que Deus tem dele. Seu sucesso é o plano de Deus; ama sua sorte como os bons cidadãos acham sua felicidade na realização de seu dever cívico.
O homem orgulhoso acha seu contentamento na implementação de seu destino.
Os seres sem orgulho ignoram que uma idéia divina presidiu sua criação; talvez façam que os outros por vezes duvidem que tal plano existiu. […]"
(eu tomo esta citação do pensador Hubert Lepargneur em seu livro 'Destino e identidade'.
É consciente desta responsabilidade que, ao agradecer ao Presidente João Batista
de Cerqueira, pela honraria que me faz ao me designar para saudar os novos membros que hoje tomam posse, estendo este agradecimento a todos os antepassados e ancestrais, eu que sou um mestiço brasileiro, nascido deste surpreendente encontro de culturas e povos diversos: aos povos originários que aqui já se encontravam, aos europeus que vieram explorar estas terras e aos africanos que foram trazidos como escravos.
Imensa é minha gratidão por minha existência sobre este Mundo. E meu pedido
de perdão pelo sofrimento que possam ter vivenciado. Brasileiros, como eu, não
existiríamos sem estes encontros dolorosos, por vezes sangrentos, mas com resultados surpreendentes, por vezes maravilhosos, como nos prova a riqueza cultural desta Bahia, deste Nordeste, deste vasto Brasil.
Para cumprir a missão que me foi confiada pelo Presidente desta egrégia
Academia, tentarei seguir a orientação do filósofo Martin Buber que nos diz que
"Não podemos transmitir ao leitor, sob a forma de conceitos, aquilo de que aqui tratamos.
Podemos, entretanto, representá-lo por meio de exemplos, contanto que não tenhamos receio, quando se trata de assunto importante, de procurá-los nos nossos mais íntimos recessos da vida pessoal. Pois onde mais poderíamos encontrar exemplos semelhantes?"
(Martin Buber. Diálogo. 1982, p. 37).
Por isso esta minha fala será carregada por esta subjetividade de quem sabe que
ninguém chega sozinho a nenhum lugar, e por isso, também agradeço, de todo coração, a todos que, consciente ou inconscientemente, contribuíram para que agora eu estivesse aqui, eu que, graças à educação e ao amor aos livros, consegui fugir do círculo de ferro da pobreza.
O fato é que neste momento de agora está presente, de modo cabal, a infância na
roça onde via a fartura sem riqueza dos "bons tempos", das boas colheitas, e a violenta pobreza na cidade onde o pai, trabalhador urbano, como um mago, tentava equilibrar o orçamento familiar com seu salário mínimo e a profusão de esperanças imorredouras no olhar e no coração, aliado que estava à coragem de minha mãe que, numa véspera de Natal, fez a façanha de vender os seus cabelos, numa ousada atitude para um tempo onde ter os cabelos longos era sinônimo de “virtude moral da mulher”, a fim de que pudéssemos celebrar, “como cristãos”, - ela dizia - o nascimento do Deus Menino representando alegria e esperança.
Por isso, senhor Presidente, confrades e confreiras, senhores e senhoras presentes, quero deixar claro que se estou aqui e agora, neste momento de júbilo, neste pódio da cultura, é por ter conseguido utilizar a única magia possível para quebrar este enfeitiçamento que me condenava, como a milhões de outros e outras, ao mundo da penúria: e pobre, meus senhores e minhas senhoras, é, essencialmente, quem não sabe o quê nem quando poderá fazer refeições, como nos lembra Machado de Assis, em seu
conto 'Pai contra a Mãe' (https://dominiopublico.mec.gov.br/download/texto/bv000245.pdf )
Minha enorme gratidão à educação e aos livros, à vida da Cultura, não poderia ser
outra: sou um sobrevivente desta catástrofe naturalizada que é a fabricação da pobreza.
Incentivado pela família e pelos professores, internalizei o sonho de sair do círculo da pobreza que não era apenas material, mas também mental e espiritual. E lembro que é Benjamin, um materialista que nos lembra que "[…] Aquilo que desejamos na juventude, recebemos em abundância na idade madura [escreveu Goethe]. Na vida, quanto mais cedo alguém formular um desejo, tanto maior será a possibilidade de que se cumpra.
Quando se projeta um desejo distante no tempo, tanto mais se pode esperar por
sua realização. Contudo, o que nos leva longe no tempo é a experiência que o preenche e o estrutura. Por isso, o desejo realizado é o coroamento da experiência […]". (BENJAMIN, 1989, p. 129)
Este discurso de circunstância bem ao estilo dos velhos chefes indígenas que, como nos lembra a historiadora canadense Diane Boudreau
(https://www.erudit.org/fr/revues/etudlitt/1995-v28-n2-etudlitt2256/501126ar.pdf)
precisavam comover os colonizadores brancos para que se tornassem capazes de escutar as justas demandas das tribos indígenas, mas que é também fundamentado na melhor filosofia do Ocidente, se faz necessário para vos conclamar para os grandes desafios que deverão ser enfrentados pelos homens e mulheres de boa vontade e que se conscientizem da nobreza de sua missão enquanto militantes da Palavra, pois as palavras são nossa profissão. Afirmamo-lo sem sombra de timidez ou de ironia.
"As palavras são coisas tenras, intratáveis e vivas, mas feitas para o homem e não o homem para elas. Sentimos todos que estamos a viver num tempo em que é preciso reconduzir as palavras ao sólido e nu brilho de quando o homem as criava para delas se servir […] São
homens os que atendem as nossas palavras, pobres homens como nós quando esquecemos que a vida é comunhão. Escutar-nos-ão com dureza e confiança, prontos a incarnar as palavras que diremos. Desiludi-los seria atraiçoá-los, seria trair também o nosso passado”. (PAVESE, in https://www.redalyc.org/pdf/561/56100306.pdf)
Cada um dos senhores e das senhoras que, agora estão sendo recebidos como
novos membros, foram escolhidos com cuidado e rigor, e, confiantes de vossa grandeza, abrimos nossas portas para vos receber, meus confrades e minhas confreiras. A Academia Feirense de Letras muito espera de cada um, de cada uma de Vossas Senhorias para desenvolver e consolidar suas atividades, nestes tempos perigosos, como nos lembra Peter McLaren ao dizer que
"Em tempos perigosos, aqueles que desejam exercer liderança em prol de valores
e práticas que compreendem como eticamente importantes necessitam não apenas expressar-se, mas expressar-se bem e, com um efeito pedagógico máximo, persuadir, mas persuadir honestamente e com base em argumentos seguros e evidências fortes" (MCLAREN, 1997, p.21-22).
Perigosos são os tempos em que impera a desilusão e o desencanto do mundo,
logo onde se tem o predomínio do cinismo como modo de ser e ver o mundo em
fragmentos (GAJANIGO, 2012). Um modo de ser que pressupõe a ênfase no ter e o sufocamento dos anseios de realização do ser.
Um olhar atento ao conturbado panorama mundial, vemos que a humanidade
parece estar diante de uma encruzilhada, confrontada a caminhos que a levariam a
supostos paraísos: um, a um futuro ancorado em miríades de clivagens, puro
essencialismo, num desenfreado culto à deusa Liberdade, contraface do Deus mercado.
O outro caminho, com um forte apelo a um fantasioso paraíso perdido, repudia a
diversidade, nega o progresso, e exige obediência cega ao Deus mercado e à mesma deusa Liberdade.
No entanto, podemos vislumbrar um caminho do meio onde, recusando os
essencialismos e identidades fixas, a humanidade possa encontrar condições de descobrir e articular laços de solidariedade e pertencimento, e assim descobrir que, sob a aparência da diversidade, encontra-se a mesma humanidade.
Talvez que o papel do intelectual que milita nas Letras seja oferecer contribuições
para livrar os homens e mulheres, jovens e crianças, de uma mentalidade onde impera a desilusão, o desamor, a falta de afetividade, pois estamos mergulhados num individualismo exacerbado, onde vivemos sem conseguir sair da separatividade que nos condena à solidão e ao desencanto do viver.
Selecionados dentre centenas de outros e outras, Vossas Senhorias, em diferentes
modalidades, são profissionais qualificados no mundo do trabalho da Literatura, das Artes e da Cultura. São mais do que braços para a seara do bem, são luzes que, levantadas com o trabalho intelectual, sustentadas com dedicação e respeito contribuirão para iluminar o mundo, para reinstituir a esperança nas mentes e corações, sinalizando para possibilidades de reconstrução apesar da aparência do caos.
A minha geração tem consciência de que não fomos capazes de legar um mundo
melhor aos jovens e às crianças. Ao contrário, vejo com temor as velhas barbáries
ameaçando o mundo, lançando sombras em praticamente todo o universo e grande parte da humanidade, como que enfeitiçada, parece não ver que segue perigosamente sorrindo enquanto tropeça à beira do precipício.
Nunca, no entanto, o respeito, o cuidado com a Palavra se fizeram tão mais
necessários e urgentes, pois somente pela Palavra podemos libertar as mentes
aprisionadas no feitiço do desencanto do viver. Não um sortilégio das feiticeiras ou
bruxas, de tempos primitivos ou medievais, mas uma ideologia sofisticada que forma multidões para, pensando que são livres, viverem subservientes, desprovidos de vontade própria, zumbificados ou massificados, renunciando ao pensar, com a sensibilidade embotada ou apagada, nesta chamada “banalização do mal”, como nos lembra a filósofa Hannah Arendt.
É este o mundo em que vivemos, seja no Sertão da Bahia ou em Paris, guardadas
as devidas proporções, e para romper esta forte cerração que condena homens e mulheres a viverem desorientados, na mais completa alienação, é que esta Academia Feirense de Letras vos convoca, vos conclama, pois como nos lembra Frantz Fanon, a “humanidade espera muito mais de nós”. Não tenhais medo, pois, como nos lembra o poeta turco Nazim Hikmet: “Se eu não ardo, se tu não ardes, de nós não ardemos, como venceremos as trevas?” Sabemos que pedimos muito, pois esperamos uma entrega, uma disponibilidade para o agir coletivo.
Pois, é nosso dever, enquanto militantes da Palavra, não deixarmos esquecer a
catástrofe das barbáries, como nos lembra o filósofo francês Paul Ricœur e, como antenas da Sociedade, tentarmos, sem medo de parecer ingênuos, dizer a cada indivíduo, jovem ou idoso, homem ou mulher, “Não foste feito para bruto, mas para o conhecimento e a virtude”, como nos lembra Dante Alighieri em seu 'Canto XXVI'. Pois toda barbárie é fruto de uma ignorância, de uma cegueira.
Façamos a parte que nos cabe, saiamos do "modo barricada: ninguém solta a mão
de ninguém", para o modo afetividade, único de fato revolucionário: como na dança
sagrada do toré, fiquemos de mãos estendidas, para que possamos convidar mais gente de boa vontade a se juntar a nós, nesta sagrada missão de amar a humanidade, acordando-a deste feitiço que a faz viver distraída.
Muito obrigado.
É consciente desta responsabilidade que, ao agradecer ao Presidente João Batista
de Cerqueira, pela honraria que me faz ao me designar para saudar os novos membros que hoje tomam posse, estendo este agradecimento a todos os antepassados e ancestrais, eu que sou um mestiço brasileiro, nascido deste surpreendente encontro de culturas e povos diversos: aos povos originários que aqui já se encontravam, aos europeus que vieram explorar estas terras e aos africanos que foram trazidos como escravos.
Imensa é minha gratidão por minha existência sobre este Mundo. E meu pedido
de perdão pelo sofrimento que possam ter vivenciado. Brasileiros, como eu, não
existiríamos sem estes encontros dolorosos, por vezes sangrentos, mas com resultados surpreendentes, por vezes maravilhosos, como nos prova a riqueza cultural desta Bahia, deste Nordeste, deste vasto Brasil.
Para cumprir a missão que me foi confiada pelo Presidente desta egrégia
Academia, tentarei seguir a orientação do filósofo Martin Buber que nos diz que
"Não podemos transmitir ao leitor, sob a forma de conceitos, aquilo de que aqui tratamos.
Podemos, entretanto, representá-lo por meio de exemplos, contanto que não tenhamos receio, quando se trata de assunto importante, de procurá-los nos nossos mais íntimos recessos da vida pessoal. Pois onde mais poderíamos encontrar exemplos semelhantes?"
(Martin Buber. Diálogo. 1982, p. 37).
Por isso esta minha fala será carregada por esta subjetividade de quem sabe que
ninguém chega sozinho a nenhum lugar, e por isso, também agradeço, de todo coração, a todos que, consciente ou inconscientemente, contribuíram para que agora eu estivesse aqui, eu que, graças à educação e ao amor aos livros, consegui fugir do círculo de ferro da pobreza.
O fato é que neste momento de agora está presente, de modo cabal, a infância na
roça onde via a fartura sem riqueza dos "bons tempos", das boas colheitas, e a violenta pobreza na cidade onde o pai, trabalhador urbano, como um mago, tentava equilibrar o orçamento familiar com seu salário mínimo e a profusão de esperanças imorredouras no olhar e no coração, aliado que estava à coragem de minha mãe que, numa véspera de Natal, fez a façanha de vender os seus cabelos, numa ousada atitude para um tempo onde ter os cabelos longos era sinônimo de “virtude moral da mulher”, a fim de que pudéssemos celebrar, “como cristãos”, - ela dizia - o nascimento do Deus Menino representando alegria e esperança.
Por isso, senhor Presidente, confrades e confreiras, senhores e senhoras presentes, quero deixar claro que se estou aqui e agora, neste momento de júbilo, neste pódio da cultura, é por ter conseguido utilizar a única magia possível para quebrar este enfeitiçamento que me condenava, como a milhões de outros e outras, ao mundo da penúria: e pobre, meus senhores e minhas senhoras, é, essencialmente, quem não sabe o quê nem quando poderá fazer refeições, como nos lembra Machado de Assis, em seu
conto 'Pai contra a Mãe' (https://dominiopublico.mec.gov.br/download/texto/bv000245.pdf )
Minha enorme gratidão à educação e aos livros, à vida da Cultura, não poderia ser
outra: sou um sobrevivente desta catástrofe naturalizada que é a fabricação da pobreza.
Incentivado pela família e pelos professores, internalizei o sonho de sair do círculo da pobreza que não era apenas material, mas também mental e espiritual. E lembro que é Benjamin, um materialista que nos lembra que "[…] Aquilo que desejamos na juventude, recebemos em abundância na idade madura [escreveu Goethe]. Na vida, quanto mais cedo alguém formular um desejo, tanto maior será a possibilidade de que se cumpra.
Quando se projeta um desejo distante no tempo, tanto mais se pode esperar por
sua realização. Contudo, o que nos leva longe no tempo é a experiência que o preenche e o estrutura. Por isso, o desejo realizado é o coroamento da experiência […]". (BENJAMIN, 1989, p. 129)
Este discurso de circunstância bem ao estilo dos velhos chefes indígenas que, como nos lembra a historiadora canadense Diane Boudreau
(https://www.erudit.org/fr/revues/etudlitt/1995-v28-n2-etudlitt2256/501126ar.pdf)
precisavam comover os colonizadores brancos para que se tornassem capazes de escutar as justas demandas das tribos indígenas, mas que é também fundamentado na melhor filosofia do Ocidente, se faz necessário para vos conclamar para os grandes desafios que deverão ser enfrentados pelos homens e mulheres de boa vontade e que se conscientizem da nobreza de sua missão enquanto militantes da Palavra, pois as palavras são nossa profissão. Afirmamo-lo sem sombra de timidez ou de ironia.
"As palavras são coisas tenras, intratáveis e vivas, mas feitas para o homem e não o homem para elas. Sentimos todos que estamos a viver num tempo em que é preciso reconduzir as palavras ao sólido e nu brilho de quando o homem as criava para delas se servir […] São
homens os que atendem as nossas palavras, pobres homens como nós quando esquecemos que a vida é comunhão. Escutar-nos-ão com dureza e confiança, prontos a incarnar as palavras que diremos. Desiludi-los seria atraiçoá-los, seria trair também o nosso passado”. (PAVESE, in https://www.redalyc.org/pdf/561/56100306.pdf)
Cada um dos senhores e das senhoras que, agora estão sendo recebidos como
novos membros, foram escolhidos com cuidado e rigor, e, confiantes de vossa grandeza, abrimos nossas portas para vos receber, meus confrades e minhas confreiras. A Academia Feirense de Letras muito espera de cada um, de cada uma de Vossas Senhorias para desenvolver e consolidar suas atividades, nestes tempos perigosos, como nos lembra Peter McLaren ao dizer que
"Em tempos perigosos, aqueles que desejam exercer liderança em prol de valores
e práticas que compreendem como eticamente importantes necessitam não apenas expressar-se, mas expressar-se bem e, com um efeito pedagógico máximo, persuadir, mas persuadir honestamente e com base em argumentos seguros e evidências fortes" (MCLAREN, 1997, p.21-22).
Perigosos são os tempos em que impera a desilusão e o desencanto do mundo,
logo onde se tem o predomínio do cinismo como modo de ser e ver o mundo em
fragmentos (GAJANIGO, 2012). Um modo de ser que pressupõe a ênfase no ter e o sufocamento dos anseios de realização do ser.
Um olhar atento ao conturbado panorama mundial, vemos que a humanidade
parece estar diante de uma encruzilhada, confrontada a caminhos que a levariam a
supostos paraísos: um, a um futuro ancorado em miríades de clivagens, puro
essencialismo, num desenfreado culto à deusa Liberdade, contraface do Deus mercado.
O outro caminho, com um forte apelo a um fantasioso paraíso perdido, repudia a
diversidade, nega o progresso, e exige obediência cega ao Deus mercado e à mesma deusa Liberdade.
No entanto, podemos vislumbrar um caminho do meio onde, recusando os
essencialismos e identidades fixas, a humanidade possa encontrar condições de descobrir e articular laços de solidariedade e pertencimento, e assim descobrir que, sob a aparência da diversidade, encontra-se a mesma humanidade.
Talvez que o papel do intelectual que milita nas Letras seja oferecer contribuições
para livrar os homens e mulheres, jovens e crianças, de uma mentalidade onde impera a desilusão, o desamor, a falta de afetividade, pois estamos mergulhados num individualismo exacerbado, onde vivemos sem conseguir sair da separatividade que nos condena à solidão e ao desencanto do viver.
Selecionados dentre centenas de outros e outras, Vossas Senhorias, em diferentes
modalidades, são profissionais qualificados no mundo do trabalho da Literatura, das Artes e da Cultura. São mais do que braços para a seara do bem, são luzes que, levantadas com o trabalho intelectual, sustentadas com dedicação e respeito contribuirão para iluminar o mundo, para reinstituir a esperança nas mentes e corações, sinalizando para possibilidades de reconstrução apesar da aparência do caos.
A minha geração tem consciência de que não fomos capazes de legar um mundo
melhor aos jovens e às crianças. Ao contrário, vejo com temor as velhas barbáries
ameaçando o mundo, lançando sombras em praticamente todo o universo e grande parte da humanidade, como que enfeitiçada, parece não ver que segue perigosamente sorrindo enquanto tropeça à beira do precipício.
Nunca, no entanto, o respeito, o cuidado com a Palavra se fizeram tão mais
necessários e urgentes, pois somente pela Palavra podemos libertar as mentes
aprisionadas no feitiço do desencanto do viver. Não um sortilégio das feiticeiras ou
bruxas, de tempos primitivos ou medievais, mas uma ideologia sofisticada que forma multidões para, pensando que são livres, viverem subservientes, desprovidos de vontade própria, zumbificados ou massificados, renunciando ao pensar, com a sensibilidade embotada ou apagada, nesta chamada “banalização do mal”, como nos lembra a filósofa Hannah Arendt.
É este o mundo em que vivemos, seja no Sertão da Bahia ou em Paris, guardadas
as devidas proporções, e para romper esta forte cerração que condena homens e mulheres a viverem desorientados, na mais completa alienação, é que esta Academia Feirense de Letras vos convoca, vos conclama, pois como nos lembra Frantz Fanon, a “humanidade espera muito mais de nós”. Não tenhais medo, pois, como nos lembra o poeta turco Nazim Hikmet: “Se eu não ardo, se tu não ardes, de nós não ardemos, como venceremos as trevas?” Sabemos que pedimos muito, pois esperamos uma entrega, uma disponibilidade para o agir coletivo.
Pois, é nosso dever, enquanto militantes da Palavra, não deixarmos esquecer a
catástrofe das barbáries, como nos lembra o filósofo francês Paul Ricœur e, como antenas da Sociedade, tentarmos, sem medo de parecer ingênuos, dizer a cada indivíduo, jovem ou idoso, homem ou mulher, “Não foste feito para bruto, mas para o conhecimento e a virtude”, como nos lembra Dante Alighieri em seu 'Canto XXVI'. Pois toda barbárie é fruto de uma ignorância, de uma cegueira.
Façamos a parte que nos cabe, saiamos do "modo barricada: ninguém solta a mão
de ninguém", para o modo afetividade, único de fato revolucionário: como na dança
sagrada do toré, fiquemos de mãos estendidas, para que possamos convidar mais gente de boa vontade a se juntar a nós, nesta sagrada missão de amar a humanidade, acordando-a deste feitiço que a faz viver distraída.
Muito obrigado.


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