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sábado, 18 de julho de 2026

Discurso de posse de frei Liomar Pereira, acadêmico correspondente da Academia Feirense de Letras


Verba volant, scripta manent - "As palavras voam, os escritos permanecem"

Excelentíssimo Senhor Presidente da Academia Feirense de Letras, Dr. João Batista de Cerqueira;
Ilustres confrades e confreiras;
Autoridades presentes;
Familiares, amigos, queridos convidados.
Há instantes em que a linguagem parece regressar à sua condição primordial de humilde
serva do mistério. As palavras, que ordinariamente unem o pensamento ao ser, descobrem,
então, que existe uma esfera da realidade onde a eloquência se recolhe, porque o silêncio deixa de ser ausência de voz para converter-se na forma mais alta da linguagem.
São ocasiões em que nenhuma riqueza vocabular, nenhuma elegância retórica e nenhum
engenho discursivo conseguem abarcar ou exprimir a grandeza do acontecimento vivido. É
precisamente diante dessa realidade que hoje nos encontramos, nós, os recém-empossados,
nesta egrégia Academia Feirense de Letras: situados no limiar singular em que a honra se faz
responsabilidade, a memória impulsiona a missão, e a gratidão encontra, não na nossa voz, mas na profundidade do espírito, a sua mais perfeita expressão.
Tonar-se membro de uma Academia é possuir uma consciência que atravessa o tempo;
nela repousam vozes que recusaram o silêncio e fizeram da palavra, da arte, da cultura uma
forma de servir à sabedoria.
Recebemos esta honra com gratidão, mas também com reverência. A reverência de
quem sabe que ninguém chega sozinho a um lugar onde o saber encontrou morada.
Todo pensamento possui uma genealogia; toda ideia é filha de muitas outras; toda
palavra carrega no seu arcabouço ecos de vozes que se perpetuam no tempo e no espaço.
Platão dizia que a filosofia nasce do espanto. Santo Agostinho ensinou que ela
amadurece na interioridade. São Tomás de Aquino demonstrou que a razão não diminui a fé,
antes lhe prepara os caminhos. Blaise Pascal recordou que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Edith Stein mostrou que conhecer é também um ato de empatia. E Hans Urs Von Balthasar escreveu a verdade só permanece íntegra quando unida ao bem e ao belo.
Entendemos seja essa a missão mais alta de uma Academia: recordar que o
conhecimento jamais pode divorciar-se da verdade, da beleza nem da responsabilidade moral.
Vivemos uma época extraordinariamente rica em informações e perigosamente pobre
em contemplação. Multiplicam-se dados; escasseia-se a sabedoria. A velocidade tornou-se um valor; o silêncio, uma raridade. Entretanto, bem sabemos nenhuma civilização se sustenta
apenas sobre o acúmulo de informações.
As sociedades permanecem vivas quando conservam a capacidade de perguntar pelo
sentido. A literatura existe precisamente porque o ser humano não vive apenas de respostas.
Escrevemos porque há dores que apenas um poema suporta.
Escrevemos porque existem alegrias que a ciência mede, mas somente a arte celebra.
Escrevemos porque há perguntas que não desejam solução, mas companhia e
acolhimento.
A palavra constitui o primeiro espaço da liberdade. Antes das instituições, antes das leis,
antes mesmo das cidades, foi a linguagem que reuniu os homens em comunidade. Somos feitos de narrativas, de contos, de prosas e versos. Quando se perde uma língua e perdemos uma maneira de existir.
Por isso, uma Academia de Letras não é um museu do passado. É um laboratório da
permanência, é o local da existência. Aqui, não se preservam apenas escritos. Preserva-se a
possibilidade de o ser humano continuar sendo humano, artesão das palavras.
A tradição cristã oferece uma das mais luminosas compreensões acerca da palavra. O
prólogo do Evangelho de João inaugura sua teologia joanina com uma afirmação de insondável profundidade: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (João 1,1). Essa declaração encontra sua raiz no relato adâmico da criação, em que o universo não emerge do acaso nem de um conflito entre divindades, mas da eficácia soberana da Palavra divina. O Gênesis repete, como um refrão solene: Disse Deus: “Faça-se… E assim se fez” (Gênesis 1). Entre o dizer divino e o existir das criaturas não há intervalo, hesitação nem resistência: a Palavra de Deus é, ao mesmo tempo, expressão da inteligência infinita e ato criador. Ela não apenas comunica uma realidade; ela a faz existir.
A tradição teológica viu nesse mistério o fundamento da inteligibilidade do universo. O
mundo é racional porque provém do querer beneplácito de Deus; é belo porque procede da
Beleza do Eterno; é ordenado porque foi chamado à existência pela Sabedoria eterna; é bom
porque brota da Bondade divina; é verdadeiro porque reflete a Verdade de Deus; existe porque é sustentado pelo Amor criador, e encontra seu sentido último Naquele que é a plenitude do Ser, da Vida e da Glória. Como ensina o salmista: Pela palavra do Senhor foram feitos os céus (Salmos 33,6), e o profeta Isaías proclama: a palavra que sai da boca de Deus não volta para Ele sem produzir o seu efeito (Isaías 55,11). A criação inteira é, assim, a primeira grande obra linguística de Deus, um texto cósmico escrito pelo Logos divino e confiado à inteligência humana para ser contemplado, interpretado, cuidado e amado.
Por isso, quando homens e mulheres se dedicam às letras, à filosofia, à história, às artes
não exercem apenas uma atividade cultural; participam, em escala humana e virtuosa, dessa
vocação originária de nomear, compreender e revelar o sentido das coisas. Se, no Éden, Adão recebeu a missão de dar nome aos seres vivos (Gênesis 2,19-20), inaugurando simbolicamente a cultura como prolongamento da criação, toda autêntica atividade intelectual prolonga esse gesto primordial: ordenar o mundo pela palavra, não para dominá-lo arbitrariamente, mas para reconhecer nele os vestígios da Verdade, da Bondade e da Beleza do seu Criador.
É por isso que toda grande academia é também um monumento da razão que se põe a
servido da arte do saber.
Hoje, ao sermos acolhidos entre os confrades e confreiras, recordamos aqueles que nos
precederam. Não os consideramos apenas nomes inscritos em uma sucessão institucional.
Vimos neles companheiros desta longa conversação que atravessa gerações.
Entendemos que a cultura, a arte e as letras constituem a mais elevada forma de
comunhão entre as gerações. São a ponte que une aqueles que já concluíram a sua peregrinação histórica àqueles que ainda constroem o porvir.
Cada livro que abrimos, cada texto restitui vida a palavra que o tempo não conseguiu
reduzir ao silêncio; cada página lida faz renascer uma inteligência que continua a pensar
conosco. Assim, Academias de Letras não são depósitos de volumes inertes, mas assembleias silenciosas onde o tempo dialoga, onde a memória vence o esquecimento e onde os mortos, pela força imperecível da palavra, permanecem extraordinariamente vivos, e por isso, são imortais.
A imortalidade do acadêmico não reside na mera custódia das letras, mas na fidelidade
com que as transmite, enriquecidas pelo próprio labor intelectual, às gerações que o sucedem.
Porque a cultura do saber somente se perpetua viva quando deixa de ser patrimônio de poucos para ser herança de todos.
É por isso que a Academia Feirense de Letras ultrapassa em muito a condição de uma
instituição cultural. Ela é, em sua essência, um ato permanente de resistência: resistência contra a erosão da memória, contra a banalização da inteligência, contra a fugacidade das modas e contra a tentação de uma civilização que, fascinada pelo efêmero, pelo fake News e
frequentemente negligencia o perene. Enquanto houver esta Academia onde a palavra é
cultivada com reverência, a memória permanecerá mais forte que o esquecimento, o saber mais fecundo que a ignorância, e a cultura mais duradoura que o tempo.
A Academia Feirense de Letras foi, é e será sempre o espaço onde a palavra continuará
sendo honrada como um dos mais nobres patrimônios da dignidade humana.
A cidade de Feira de Santana ocupa um lugar singular na história baiana e no cenário
brasileiro. Nascida do encontro de caminhos, a Princesa do sertão tornou-se ela própria um
caminho: espaço de convergência, intercâmbio e permanente construção cultural. Que continue sendo, cada vez mais, uma rota para o pensamento, para as artes, para a ciência e para o diálogo fecundo entre as diversas tradições intelectuais que enriquecem a sua identidade.
É nesse horizonte que ganha especial significado a iniciativa da administração
municipal, conduzida pelo prefeito, senhor José Ronaldo, ao promover a desapropriação do
histórico prédio da antiga Filarmônica Vitória. Aquele espaço que por décadas acolheu os sons da música, a convivência e a formação artística de nossa cidade, em breve acolherá também a reflexão, a literatura, a ciência e o pensamento.
A transformação daquele casarão no futuro Palácio das Academias transcende a
dimensão material do edifício. As construções são feitas de pedra e argamassa; porém, é o
espírito que nelas habita que lhes confere permanência. Ao tornar-se casa das letras, das artes e do conhecimento, aquele espaço não abandona sua vocação original, mas a amplia: continuará sendo um espaço da vitória da cultura, dedicado a guardar e irradiar o patrimônio intelectual de Feira de Santana.
Uma cidade que honra sua memória, valoriza seus mestres e cria espaços para a
inteligência escreve novos capítulos de sua própria história. Que desse Palácio das Academias se eleve uma luz capaz de ultrapassar fronteiras, fazendo ressignificar a própria ideia de outrora "da Feira". Antes reconhecida como lugar de encontros comerciais e caminhos de negócios, revelando-se hoje e para sempre como a cidade do encontro de ideias, de saberes e de criação humana. Que "de Feira de Santana" seja, cada vez mais, um farol de arte, cultura, inteligência e humanismo, irradiando para a Bahia, para o Brasil e para o mundo, a força literária do seu povo.
Permitam-me falar em primeira pessoa, pois faço uma breve confidência. Jamais
compreendi o estudo como um instrumento de prestígio ou de poder. Embora, recordo da frase dita por Peter Parker, no filme 'Homem-Aranha': Com grandes poderes vêm grandes
responsabilidades.
Sempre compreendi o estudo como uma forma de gratidão. Estudar é agradecer aos que
vieram antes. Ensinar é repartir o saber que oportunamente recebemos. Escrever é devolver ao mundo um pouco da luz da sabedoria para aplacar as trevas do não saber.
Se hoje recebemos esta distinção, desejo compreendê-la não como um ponto de chegada,
mas como uma renovação de compromisso e de responsabilidade diante de minha família
consanguínea e minha família religiosa capuchinha.
Agradecemos profundamente às nossas famílias, aos nossos mestres, aos amigos e a
todos aqueles e aquelas que, de maneiras diversas, participaram da construção da pessoa que hoje aqui se apresenta. Cada gesto de confiança recebido ao longo da vida permanece inscrito nesta noite.
Encerramos o com uma convicção que acompanha toda a nossa caminhada:
Creio que a verdadeira grandeza de um intelectual não reside na vastidão do saber que
acumula, nem nos aplausos que este lhe possa granjear, mas na magnanimidade com que o
transforma em luz para outras inteligências, fazendo do conhecimento não um privilégio a ser
ostentado, mas um dom a ser repartido. O saber que se fecha sobre si mesmo definha na
esterilidade da vaidade; aquele que se comunica ilumina consciências, forma espíritos, desperta vocações pela arte do saber.
Que Deus nos conceda inteligência para buscar a verdade, sensibilidade para reconhecer
a beleza, humildade para acolher a sabedoria, coragem para defender o que é justo e
generosidade para transmitir, sem reservas, o patrimônio das letras, da cultura, da arte às
gerações que nos sucederão.
A arte da escrita nasce de uma profunda escuta do mistério. Se Deus, no princípio,
chamou todas as coisas à existência pela força do Verbo, também nós, ao escrevermos, somos convidados a participar desse gesto de criação, ordenando pensamentos, revelando sentidos, traduzindo e dando vida as emoções, sentimentos e as memórias. A sabedoria das letras não está apenas no domínio da linguagem, mas na capacidade de fazer da palavra um instrumento de luz, capaz de tocar consciências, elevar espíritos e deixar no tempo a marca silenciosa daquilo que o coração humano reconheceu como verdadeiro, belo e eterno, a arte.
Nesta noite, o discurso cede lugar à reverência, e a palavra encontra sua expressão mais
autêntica, a gratidão. É com esse sentimento que nós, os recém-empossados, recebemos a honra de ingressar nesta veneranda Academia, conscientes de que não herdamos apenas uma cadeira, mas uma tradição; não um status, mas um legado, não recebemos apenas um título, mas uma missão. Que sejamos dignos da confiança que hoje nos é depositada e fiéis ao compromisso de servir às letras, à cultura, a arte e à memória do nosso povo.
À Academia Feirense de Letras, nossa reverência. À cidade de Feira de Santana, nossa
gratidão. Aos imortais que nos precederam, nossa memória. Àqueles que virão depois de nós,
nosso compromisso.
Muito obrigado a todos.
Viva a Academia Feirense de Letras!
Viva Feira de Santana!


Publicado na home page da Academia Feirense de Letras - https://academiafeirensedeletras.com.br/

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