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sábado, 16 de maio de 2026

Vorcaro, Flávio e Zema: um teste para a direita


Este é um bom teste para a direita. É a hora de ver quem se guia pela lealdade cega e quem analisa fatos e pessoas pelo mérito. 

Por Adriano Gianturco para a Gazeta do Povo:


No enésimo terremoto político que sacode Brasília, ficamos sabendo que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro para Daniel Vorcaro financiar o filme sobre Jair Bolsonaro. O áudio é de setembro de 2025. Vamos por partes. Para começar, quem vazou o áudio parece ter sido ou a Polícia Federal, ou a Procuradoria-Geral da República, ou a Advocacia-Geral da União. Um jornal ligado à esquerda deu a informação e falou em R$ 134 milhões; depois, o valor efetivamente pago caiu para R$ 61 milhões; agora, falam em R$ 2,3 milhões. O financiamento pode ter sido dinheiro privado para um filme privado, ou pode haver alguma troca política envolvida.

Romeu Zema criticou Flávio imediatamente, e também foi criticado por “não ter esperado o cadáver esfriar”, enquanto outros diziam que “sobrou só um” e consideravam a possibilidade de apoiá-lo. Até que surgiu outra notícia: o pai de Vorcaro também teria financiado o Partido Novo com R$ 1 milhão em 2022.

Vorcaro também teria financiado documentários sobre Lula e Michel Temer, e Flávio Bolsonaro ainda afirmou que o Master também patrocinava programas da Rede Globo. O mais provável é que Vorcaro tenha financiado todo mundo. Sempre que surgem grandes casos de corrupção, logo se descobre que a lista de envolvidos é enorme. Todo escândalo é assim. A Lava Jato descobriu que na Petrobras havia até tabelamento de preço da propina de acordo com o poder que cada um tinha no partido. Não é o dinheiro que dá poder aos políticos, mas o inverso: quem tem mais poder recebe mais dinheiro. Os empresários molham as mãos de todos para não serem prejudicados por ninguém; se alguém não receber, ficará bravo e irá prejudicá-los se tiver a chance.

Isso não significa que o caso de Flávio Bolsonaro não seja grave, mas é preciso aguardar os desdobramentos dos próximos dias, e até o momento a Polícia Federal já descartou o cometimento de alguns crimes.

Brasília é assim, uma grande orgia político-criminosa; são poucos os que, estando lá, escapam dessas relações. O Brasil tem um regime oligárquico patrimonialista de pilhagem sistematizada, e essa é a norma. Além da dicotomia entre esquerda e direita (que também importa), a dicotomia mais importante é entre os governantes e os governados, quem manda e quem obedece, a casta e o povo. Não fiquem achando que há freiras no prostíbulo.

O verdadeiro cerne da questão, mais que os financiamentos em si, é avaliar se e o que todos esses políticos deram em troca, e se as relações que eventualmente cada um desses políticos tinha ou tem com Vorcaro são importantes. Nesse sentido, o áudio vazado mostra muita intimidade entre Flávio e Vorcaro O que mais existe por trás? O pedido de dinheiro foi feito em 2025, dois meses antes da primeira prisão do banqueiro, mas já em 2024 Jair Bolsonaro tinha criticado publicamente, nas redes sociais, o envolvimento do Banco Master com o sistema. Ninguém pode dizer que não sabia.

É preciso investigar – tanto o caso de Flávio quanto todos os outros: Guido Mantega, Ricardo Lewandoski e seu filho, a esposa de Alexandre de Moraes, a empresa de Dias Toffoli, o Novo. Todos. E, se alguém deu algum favor político ou jurídico em troca, tem de ser punido. Nesse sentido, é bastante revelador saber quem apoia a CPI do Banco Master e quem é contra a investigação.

Quanto mais tempo na política e quanto mais próximo ao poder, mais provável que alguém esteja sujo. É muito improvável que alguém que esteja há décadas na política brasileira seja perfeitamente limpo. Essas pessoas existem, mas são exceção. E por isso é muito improvável que a mudança venha de alguém de dentro do sistema.

E agora, o que fazer em outubro? Infelizmente, as eleições são sempre uma escolha pragmática entre o menos pior – ou, no caso específico, o menos envolvido com tudo isso.

Este é um bom teste para a direita. É a hora de se preparar para a luta eleitoral, a hora de melhorar o nível da informação no país; é a hora de ver quem deseja mais investigação e quem quer esconder tudo; quem justifica e relativiza, quem mente a si mesmo; quem se guia pela lealdade cega e quem analisa fatos e pessoas pelo mérito; quem é torcedor de político e quem tem uma abordagem racional da política. Veremos qual a maturidade política da direita, do eleitorado e do país.

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