Por Everaldo Góes
O centro da cidade já foi muito mais do que um espaço comercial.
Era bairro, moradia, convivência, vida noturna.
As ruas J. J. Seabra, Barão do Cotegipe, Castro Alves, Barão do Rio Branco e as antigas ruas do Pilão e da Kalilândia eram ocupadas majoritariamente por residências. A própria Avenida Getúlio Vargas, a partir da região onde hoje existe a Praça de Alimentação, também era repleta de casas.
Havia crianças nas calçadas, vizinhos conversando nas portas e pessoas circulando até tarde da noite.
Eu mesmo morei no centro, na Rua dos Contabilistas, oficialmente Professor João Alves da Costa.
O Hotel Caroá tinha a famosa Boate Terraço do Caroá. Em frente, o acarajé de Tonhão reunia gente no final da tarde. Do outro lado da rua funcionava o Sucão.
Na J. J. Seabra existiu o Batidão. Jornalistas e intelectuais frequentavam o Niko's Bar. O Ferro de Engomar reunia pessoas de diferentes classes sociais. Na Castro Alves funcionaram o Noite & Dia, o Night Day e antes deles o Esquina.
O centro também respirava cultura e educação.
A Galeria Raimundo de Oliveira promovia exposições de arte na Avenida Sampaio. Os cinemas Timbira e Íris tinham sessões lotadas até perto das 23 horas.
No início da noite era comum o desfile de estudantes para aulas nos colégios Municipal, Estadual, Gastão Guimarães, São Francisco e Super Star. Depois, quem não morava no centro seguia para pontos de ônibus. Ou ia para casa a pé, batendo papo.
Havia ainda o intenso movimento do Feira Tênis Clube, atual sede da Secretaria Municipal de Educação, com piscinas, quadras, campeonatos, salão de festas, boate, restaurante e bar funcionando também à noite.
As ruas permaneciam cheias.
Circulação humana.
Sensação de pertencimento.
Com os anos, residências deram lugar a lojas e imóveis fechados após o expediente. O centro deixou de ser moradia. E, quando as pessoas deixam de morar em um lugar, a noite vai embora junto.
Hoje, nessas ruas, o silêncio chega cedo demais.
Everaldo Goes é editor do Feira Hoje - https://feirahoje.com.br/

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