Sob os governos do PT, projetos passaram a ser criados para atender a máquina burocrática, em vez de existirem por uma demanda orgânica da sociedade.
Por Josias Teófilo para a Crusoé:
Muito se fala da Lei Rouanet no financiamento de cultura, mas a lei foi criada pelo presidente Fernando Collor e por seu ministro da Cultura, Sérgio Paulo Rouanet, com o objetivo de desestatizar o fomento.
Os petistas se opuseram à lei e tentaram repetidas vezes alterá-la porque diziam se tratar da privatização da cultura. Até hoje estão tentando descaracterizar a lei.
A principal contribuição dos governos do PT no fomento à produção artística foi a chamada "cultura dos editais".
Ou seja, todo o ecossistema de fomento direto (não indireto, como as leis de incentivo) que gera uma estrutura burocrática.
Diferente do fomento indireto, em que o governo dá autorização para captar, nos editais, o dinheiro é entregue pelo governo diretamente ao proponente.
Claro que ele precisa prestar contas de como o dinheiro foi usado, e entregar o produto final de acordo com o descrito no edital (seja um filme, um livro, uma peça, ou o que for).
O grande problema é que nos editais há uma ingerência direta do Estado na escolha dos projetos contemplados.
Surge daí o chamado dirigismo cultural, quando ele controla e influencia diretamente a produção cultural, sugere temas, legitima e até mesmo inventa artistas.
O mais importante é adequar o projeto às regras do edital - os documentos, prazos e formatos.
O que termina por acontecer é que os projetos são criados para os editais em vez de existirem por uma demanda orgânica da sociedade.
O Estado inverte a ordem natural: os projetos deveriam partir da sociedade civil e serem fomentados pelo governo.
Na realidade, o governo define os formatos, define os temas e define quem vai produzir cultura.
Define até o que é cultura e o que não é.
Para um artista, ter a possibilidade de realizar uma obra já é uma grande coisa.
A maioria faz o que for preciso para manter a máquina funcionando, incluindo realizar um projeto com o único objetivo de ganhar um edital.
Só que o que interessa à comissão do edital não necessariamente interessa à população em geral.
Sei de vários filmes feitos com dinheiro público que não chegam a ser exibidos em lugar nenhum.
São simplesmente engavetados. Outros têm um público tão pequeno que não deveriam valer o investimento do governo.
Metade dos filmes de longa-metragem brasileiros lançados em 2025 não teve nem mil espectadores de público.
Os movimentos culturais brasileiros nascem na sociedade civil e são depois legitimados e fomentados pelo Estado.
Foi assim com o modernismo, que nasceu na arquitetura civil a partir da ação de pioneiros na década de 1920.
Também foi assim com com o modernismo nas artes plásticas e na música com a Semana de Arte Moderna de 1922.
Com a cultura dos editais, o governo inverteu essa polaridade, e passou a pautar a produção artística - mas falta naturalmente organicidade, e o fomento virou uma forma de assistencialismo para com a classe artística, e a população em geral simplesmente não se interessa pelo que está sendo produzido.
Fonte: https://otambosi.blogspot.com/


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