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terça-feira, 9 de junho de 2026

Por que Rubio está certo ao dizer que o Brasil de Lula não é amigo dos EUA

Não é segredo para ninguém que Lula e o PT nunca morreram de amores pelos Estados Unidos. Desde a fundação do partido, em 1980, eles cultivam uma atitude hostil aos americanos, que culminou com a fundação do Foro de São Paulo, em parceria com Fidel Castro (1926-2016), em 1990.


Por José Fucs para a Gazeta do Povo:

O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, reagiu com indignação à afirmação do secretário de Estado americano, Marco Rubio, de que o Brasil é uma exceção na "coalizão de países amigos" dos Estados Unidos na América Latina, ao lado de Cuba, da Venezuela e da Colômbia.

"A declaração de Rubio é inédita. Nem quando o Dean Rusk (secretário de Estado de 1961 a 1969) e o Lincoln Gordon (ex-embaixador dos EUA no país de 1961 a 1966) estavam conspirando (para derrubar o presidente João Goulart), um secretário de Estado excluiu o Brasil da lista de países amigos", disse Amorim. "É uma declaração impressionante e preocupante. Precisamos ver o que ocorrerá a partir disso, mas nem quando havia conspiração essa situação foi formalizada."

Convenientemente, Amorim omitiu em sua resposta a informação essencial de que a fala de Rubio veio poucas horas depois de o presidente Lula dizer que ele é "inimigo mortal de Cuba", "anti-América Latina" e "não gosta do Brasil", o que já seria mais do que suficiente para justificá-la. Como se isso não bastasse, o presidente ainda dobrou a aposta no dia seguinte, ao chamar Rubio de "latino-americano frustrado" durante uma reunião ministerial, reforçando a percepção de que, com "amigos" como o Brasil de Lula, os EUA não precisariam de inimigos.

Com certeza, suas declarações não seriam incluídas no livro Como fazer amigos e influenciar pessoas, o eterno best-seller do escritor americano Dale Carnegie, com mais de 30 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. Ninguém que procura cultivar um relacionamento saudável e sólido com seu interlocutor - no caso, com o presidente dos EUA, Donald Trump - vai se referir assim a um de seus colaboradores mais próximos. Nem vai falar que ele agora "vai pensar duas vezes antes de tomar decisões contrárias ao Brasil", como fez Amorim logo após Trump receber Lula na Casa Branca, com surpreendente cordialidade, no início de maio.

Trata-se de uma regra básica de convivência que se torna ainda mais pertinente se você for o presidente do Brasil ou seu principal assessor na área externa e ele, o chefe da diplomacia dos EUA, a nação mais poderosa do planeta. Sobretudo quando o país tem pendências relevantes a negociar, como o tarifaço de 25% sobre produtos nacionais, recomendado pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos), e divergências significativas na forma de lidar com grupos criminosos como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), recentemente classificados como organizações terroristas pelo governo americano.

Nenhum país - e aqui "nenhum" não é só força de expressão - reagiu desta forma às medidas e ameaças de Trump. Nem a China nem a União Europeia, que são bem mais importantes para a economia e a geopolítica dos EUA e que também foram alvo do aumento de tarifas, entre outras medidas, tiveram a petulância de Amorim e de Lula, que saiu do encontro em Washington celebrando o fato de ter arrancado dele um sorriso.

Conjunto da obra

A fala de Rubio, porém, vai muito além das reações brasileiras ao tarifaço e à classificação do PCC e do CV como grupos terroristas. Vai muito além também da reação irada de Lula ao cancelamento de vistos de autoridades brasileiras e às sanções promovidas pelos EUA com base na Lei Magnitsky (norma que permite aplicar penalidades a estrangeiros envolvidos em violações a direitos humanos ou casos graves de corrupção), motivadas pelas denúncias de restrições à liberdade de expressão no país e de perseguição política contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu grupo político.

A afirmação de Rubio se deve muito mais ao conjunto da obra de Lula e Amorim ao longo do tempo do que às suas grosserias recentes contra ele mesmo e contra Trump. Diante do retrospecto da dupla petista na arena internacional, não faltam razões para o secretário de Estado americano excluir o Brasil da lista de amigos dos EUA na América Latina - e não precisa ser bolsonarista nem de "extrema direita" para se dar conta disso.

Não é segredo para ninguém que Lula e o PT nunca morreram de amores pelos Estados Unidos. Desde a fundação do partido, em 1980, eles cultivam uma atitude hostil aos americanos, que culminou com a fundação do Foro de São Paulo, em parceria com Fidel Castro (1926-2016), em 1990. O objetivo declarado da entidade, que reúne partidos políticos, ONGs, movimentos sociais e sindicalistas de esquerda e extrema-esquerda da América Latina e do Caribe, foi justamente servir como contraponto à hegemonia dos EUA na região e no mundo, após a queda do Muro de Berlim e o fim do comunismo.

Depois, com a chegada de Lula ao poder em 2003, nos quase 20 anos de governos petistas, eles seguiram na mesma toada e agiram para aplicar suas ideias retrógradas ao mundo real. Encontraram em Amorim - que se filiou à sigla em 2009 – o mais completo tradutor do antiamericanismo petista entre os diplomatas do Itamaraty.

Com a ascensão da esquerda na América Latina nos anos 2000, eles atuaram para formar um "cinturão rosa" (ou era vermelho mesmo?) na região e aproximaram-se do regime dos aiatolás do Irã e de grupos guerrilheiros islâmicos. Tiveram ainda um papel ativo na criação do bloco do Brics, ao lado da China, da Rússia, da Índia e depois da África do Sul e de outros países, para reforçar o tal do Sul Global - um eufemismo para o velho terceiro-mundismo ressentido da esquerda latino-americana - do qual eles tanto tanto falam.

Agora, com Trump na Casa Branca e Rubio à frente do Departamento de Estado, que não engolem o lero lero esquerdista de Lula e sua turma, parece que a coisa degringolou de vez. Com a chacoalhada master promovida pelo presidente americano na geopolítica predominante no pós-guerra, o embate tornou-se mais direto e ganhou contornos de um conflito ideológico explícito.

"Turma do amor"

De repente, em vez de procurar se adaptar à nova realidade mundial, que colocou em xeque o multilateralismo defendido pelo atual governo e pelo PT, o Brasil resolveu falar grosso e peitar o gigante americano de igual para igual. Em vez de buscar um entendimento, preferiu seguir a cartilha do "companheiro" Fidel, resgatando o embolorado discurso anti-imperialista, em defesa da "soberania nacional", dos anos 1950 e 1960.

O antagonismo da "turma do amor" começou ainda nas eleições americanas, em novembro de 2024, quando Lula declarou apoio à candidata democrata Kamala Harris e sugeriu que uma vitória de Trump representaria o retorno do fascismo e do nazismo "com nova cara". É uma visão que foi reforçada recentemente pelo presidente do PT, Edinho Silva, autor do seguinte "afago" a Trump: "Ele é o maior líder fascista do século 21".

Desde a posse de Trump, em janeiro de 2025, Lula já fez todo tipo de provocação contra ele. Já ironizou sua ambição pelo prêmio Nobel da Paz e sua suposta agressividade, ao dizer que iria levar um pé de jabuticaba para acalmá-lo. Também já o chamou de "imperador", "senhor da guerra" e "gringo" e afirmou que ele "não foi eleito para governar o mundo" e "não faz bem para a democracia mundial". De quebra, ainda falou que "se o Trump fosse brasileiro e tivesse feito o que fez no Capitólio estaria sendo julgado no Brasil". Como se vê, Lula foi só "carinho", de um "verdadeiro" amigo do peito, ao se referir ao presidente americano.

Desdolarização

Seus ataques a Trump, no entanto, superam de longe a retórica conflituosa e incendiária. Decorridos apenas um ano e meio desde o seu retorno à Casa Branca, Lula ampliou sua aliança com a China, a Rússia e o Irã; defendeu a desdolarização das transações comerciais entre os países do Brics e o fim do uso do dólar como padrão monetário global; e fez duras críticas às ações dos EUA contra o regime do Irã, contra a Venezuela, que levou à captura do ex-ditador Nicolás Maduro, e contra o cerco a Cuba, que ele procurou furar enviando "ajuda humanitária" ao país.

Ele ainda se negou a participar de duas grandes iniciativas lançadas por Trump: o "Escudo das Américas", que reúne 12 países latino-americanos com o objetivo de combater grupos narcoterroristas da região e conter a imigração ilegal, e o Conselho da Paz, destinado inicialmente a promover a desmilitarização e a reconstrução da Faixa de Gaza, mas desenhado para atuar também em outros conflitos globais.

Além disso, Lula ainda declarou apoio oficial à candidatura de Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, à sucessão de António Guterres na Secretaria-Geral da ONU, que deverá ocorrer no fim de 2026, opondo-se aos nomes defendidos pelo presidente americano, e articulou com governos de esquerda na região o fortalecimento da Celac (comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) como alternativa à sua influência na OEA (Organização dos Estados Americanos).

Isso sem falar da revogação do visto e da proibição da entrada no Brasil de Darren Beattie, assessor do governo Trump, em suposta retaliação pelo cancelamento do visto do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e da expulsão de um agente de imigração americano do país - uma medida que também teria sido um troco pelo revogação do visto do representante da Polícia Federal nos EUA, Marcelo Ivo de Carvalho, acusado de ter atuado fora de suas atribuições legais na prisão do ex-deputado e ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) Alexandre Ramagem, em solo americano.

Diante de todo o bombardeio de Lula, Amorim e da tropa de choque petista contra Trump e os Estados Unidos, é difícil discordar de Rubio quando ele diz que hoje o Brasil não faz parte do grupo de países amigos de Washington na América Latina.

Ao se referir ao secretário de Estado americano, o presidente afirmou que ele "não gosta do Brasil". Mas, na realidade, uma coisa é não gostar do Brasil. Outra, bem diferente, é não gostar de Lula, de Amorim e de seus aliados - e nisso Rubio não está sozinho.

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