Uma narrativa de afeto do professor Humberto de Oliveira, marcada por companheirismo e estranhamentos sociais, conduz o leitor por memórias intensas e delicadas, até uma revelação final capaz de ressignificar toda a história
Lembro-me com esta nostalgia própria de quem sabe valorizar o passado, embora sem ilusões da perda irreversível e definitiva. Quando se sabe que tudo passa, não se pode estranhar que o bem também não tenha ficado para sempre. O que não impede reconhecer, sem nenhuma ilusão, a dimensão do afeto vivido numa relação pouco conflituosa, salvo os poucos instantes de ciúme, capazes de alguma violência por agressões involuntárias, puro descontrole das emoções mal domadas diante da ameaça de possível divisão de afetos, possessividade ancorada na melhor tradição de um comprovado DNA, pois a genética, sabemos, é inescapável. Ou seja, estava inscrita em sua ancestralidade a preponderância da ausência da racionalidade, apesar dos esmeros de uma educação eficaz, já que bons professores não lhe faltaram.
Era belo e forte. Ainda recordo como me sentia vaidoso ao perceber os olhares das pessoas ao nos verem lado a lado, na praça onde morávamos, nos raros momentos em que permitia que ele se expusesse. Desde muito novo, quando chegou, já revelava a beleza que, em adulto, seria confirmada. Todo músculos sob a pele brilhante e bem hidratada, ossos fortes, andar cadenciado, voz alta e imponente, olhar perscrutante, quase arrogante ao levantar a cabeça, ele realmente intimidava. Era altivo.
Sua presença em minha casa era motivo de murmúrios, disse me disse, talvez até alguma maledicência mais cruel, pois, afinal, não era comum uma relação afetiva que extrapolava os limites dos muros.
Eu compreendia e não me aborrecia quando via que se afastavam mal nos viam juntos, fora de casa, nas ruas ou na praça. No entanto, toda a vizinhança, assim como quem nos conhecia, inclusive minha própria família, de início relutante, era unânime em reconhecer o seu comportamento impecável e probo, assim como a nossa relação. Mas, no fundo, deviam torcer por um desenlace, como se jamais pudesse ser confiável um indivíduo do seu porte ou de sua natureza, por assim dizer. Porque ele se impunha, também por ser grande e forte, e eu, aparentemente, franzino e frágil.
Compreendo, hoje, que não tivessem capital cultural suficiente para perceber a ternura sob o estereótipo da força bruta. Sei que, por demonstrarmos um forte companheirismo, por não escondermos os vínculos que cimentavam uma relação afetiva, censuravam-me. Sim, porque de mim esperavam demonstração de parcimônia, sobriedade e total controle sobre as emoções. Claro que se sentiam afrontados com a troca de carinhos em público, com o que deviam considerar até mesmo uma infantilidade de minha parte, ou falta de sensatez.
Realmente, a presença dele trazia um colorido a mais para o meu viver. Eu sorria ao falar dele. Era público e notório que ele tinha domínio sobre mim. De fato, ele me fascinava. Gostava de vê-lo. Tudo nele me agradava, exceto, claro, as crises de ciúme. Passageiras, mesmo se repetidas. Fugazes, embora temidas. Mas como esquecer o carinho cotidiano, diuturno, de como ele sabia fazer doces afagos, beijar-me as mãos, arrastar-se aos meus pés, entregar-se aos meus descuidados carinhos enquanto eu lia um livro, o jornal ou via um filme, por vezes esquecido de sua presença ao meu lado ou aos meus pés?
Não nego a vaidade que me tomava por sabê-lo meu, por tê-lo aos meus cuidados, quer dizer, sob meus domínios. Um macho sem igual naquelas redondezas. E quando, nas manhãs de domingo, passeava ao meu lado, com o gingado que era sua marca registrada, erguendo a cabeça apenas o suficiente para marcar sua presença, delimitando o território?
Sei que alguns vizinhos mais distantes, do outro lado da rua, por não conhecerem nossa intimidade, sem jamais terem testemunhado nossos diálogos, murmuravam ameaças, prognosticavam denúncias à ordem pública. Quando trocavam informações com quem verdadeiramente podia melhor informar, logo era abortado todo plano movido pela ignorância. Às vezes ocorria até mesmo de tentarem fazer-lhe um afago ao verem seu olhar calmo e prestante. Claro, eu não deixava, delicadamente atraindo-o para mim com um carinho em sua nuca. Ou simplesmente arrastando-o para casa, nossa fortaleza, abrigo, refúgio, nosso lar.
Lembro com emoção dos momentos em que, sob a força da Lua, ouvindo os clamores da Natureza, como um seresteiro ele entoava cânticos, ouvindo talvez chamados que meus ouvidos não captavam.
Vivemos dez, quase onze longos e bons anos, quase lado a lado. Ele sempre fiel, entre os muros da nossa casa, esperando, paciente, que eu voltasse de viagens, que me lembrasse de sua espera, por vezes angustiante e solitária, de sua existência de abnegação e amor.
E, quando a saudade mais me toca, recupero uma foto emblemática: nós dois na janela da cozinha, uma parede nos separando e nossos rostos quase se tocando, falando-nos sem palavras, em plena e alegre amorosidade, numa promessa de beijo malogrado.
E reconheço: nunca haverá, em minha vida, outro Titã, cachorro inigualável.
* Humberto Luiz Lima de Oliveira, professor, membro honorário da Academia Metropolitana de Letras e Artes, membro efetivo das Academia Feirense de Letras, Academia Brasileira de Artes Integradas, Academia de Cultura da Bahia, Academia internacional de Literatura Brasileira, é também colunista do Jornal Feira Hoje.


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