Nos 100 anos de Geraldo Leite, primeiro reitor da Uefs, o professor Adalberto Nunes resgata texto de 1960 em que o homenageado, já médico em Feira, defendia a interiorização da universidade
Por Adalberto Nunes
Esta semana, ao assistir às justas e emocionantes homenagens prestadas ao doutor Geraldo Leite por ocasião de seu centenário, fui tomado por uma inquietação antiga, dessas que não nos abandonam com o tempo. Voltei aos meus arquivos pessoais - todos digitalizados, é verdade, mas ainda impregnados de memória - e encontrei um texto que me fez compreender melhor a dimensão daquele homem.
Era 6 de agosto de 1960. Na capa do centenário Folha do Norte, lá estava um artigo assinado por Geraldo Leite. Não o reitor que a história consagraria anos depois, mas o médico já inquieto com os destinos da educação no interior. O tema era claro e, ainda hoje, atual a interiorização da universidade.
O que me chamou atenção, mais do que o conteúdo em si, foi a antecedência da visão. Já em 1957, quando atuava em Feira de Santana, Geraldo Leite defendia a necessidade de romper com o eixo exclusivo da capital. Em diálogo com o então reitor da Universidade da Bahia, o professor Edgard Santos, propunha algo ousado para a época, ou seja, levar a universidade ao Recôncavo e, mais além, ao sertão.
Recordo-me bem do trecho em que ele menciona a criação de bolsas, jornadas científicas e a organização de ex-alunos no interior. Meus colegas, médicos, professores e profissionais liberais, enxergavam ali não apenas um plano acadêmico, mas um projeto de transformação social. Era a tentativa de fazer com que o conhecimento deixasse o asfalto e encontrasse o pó das estradas.
Não se tratava de retórica. O próprio Edgard Santos, homem de rara sensibilidade institucional, acolheu a proposta com entusiasmo. Houve reuniões, desenhos iniciais, expectativas.
Visão antecipada
Hoje, olhando em retrospecto, é impossível não reconhecer que aquela ideia germinal encontrou, anos depois, terreno fértil. Em 1976, com a criação da Universidade Estadual de Feira de Santana, Geraldo Leite não apenas retomou aquele projeto, mas o concretizou. Tornou-se o primeiro reitor de uma instituição que, de certo modo, materializava aquele sonho antigo.
Há, nisso tudo, uma lição silenciosa. As grandes obras não nascem prontas. Elas atravessam décadas, resistem ao esquecimento e, por vezes, dependem da persistência de um mesmo espírito. Geraldo Leite foi esse espírito.
Ao celebrar seus 100 anos, não estamos apenas reverenciando um homem. Estamos reconhecendo a permanência de uma ideia, a de que a universidade deve estar onde o povo está. E que o interior não é periferia do saber, mas seu território legítimo.
Fonte: https://feirahoje.com.br/



Nenhum comentário:
Postar um comentário