Por Cintia Portugal
Aqui, abre-se o tecido "pèlerine", que significa "peregrino", em referência às capas usadas por viajantes no passado. Um convite à leitura da obra-monumento, a "História da Academia Feirense de Letras", pode-se dizer, a sala de estar da memória da instituição, na qual se apresentam cadeiras feitas de papel, de escritos de imortais, fisionomias de homens e mulheres de carne e osso, que abraçaram o ser da literatura feirense.
Ao adentrar a sala de estar, o Presidente Dr. João Batista de Cerqueira e confrade Ruy Cerqueira nos convidam a conhecer a gloriosa Casa/Academia, uma rica coleção de cadeiras e de membros de 1976 a 2026, meio século de escritos da vida acadêmica.
Afastei a porta secreta, na qual se amostrava lindamente uma estante de livros de capa dura. Entrei com cuidado, senti o perfume do espaço, fui tocada pelos registros históricos e o pelo papel de cada membro. Me emocionei. Reconheci alguns rostos que passaram por mim, em especial, de muitos que abracei em vida. Difícil conter as lágrimas.
Olha, a Confreira Sônia Pires! Eis a bela das tardes, de tantas reuniões; salta aos olhos a ternura. Sônia, da Loja Pires, com um carisma único, um jeito amoroso de quem faz as honras: chá ou café? Tintas/telas, versos, com biscoitos de nata... e ela nos faz sentir em casa. Delicadamente encanta: "Já é pequeno o nome que te dão/De formosa Princesa do Sertão!".
Menina, quanto chão, nuvens, quantas histórias, tantas risadas. Ela diz: vi-te ainda bebê de colo... e sua mãe? - Mainha partiu em 2020, durante a pandemia; ela também circula por aqui, aparece na página 63, na fotografia, junto com Lília Portugal Magnavita, no lançamento do seu livro.
A Confreira Lília ajeita o cabelo, com mãos em conchinhas, como quem apalpa algodão... - Dê cá um abraço!
Este versado pela obra "Poesia... Enquanto é tempo... - corre! "É a Rua do Meio / E de rosas era calçada", "Ali nasci, ali cresci". Festejei esta publicação aos onze anos de idade, em 1981. Lembro-me do vestido esvoaçante que a confreira usava, da cor da goiaba.
A voz cheia, de locutor, ouvia-se antes da presença do Confrade Prof. Cézar Ubaldo de Oliveira. Tinha um jeito galante de mover-se. Gentilmente sorria com as mãos, olhos e lábios. Declama um verso: "São tambores em mim / Os que batem no meu peito..." e pergunta: como vai o Museu a Céu Aberto Sales Barbosa? Guardo o calor do seu abraço, do parecer afetuoso, no lançamento do livro "Caminhando pela Cidade" - 2013.
Ao passar pela página do Confrade Dr. Outram Borges... um rosto familiar, a receita do óleo de fígado de bacalhau, "Emulsão de Scott", sulfato ferroso. O olhar à balança do tempo. A lembrança dos seus últimos versos, como quem embala um filho.
O Confrade Dr. Djalma Gomes chega impaciente, majestoso: "Ser forte é cuidar da árvore que vem nascendo..." apresenta um convite à tribuna: afinal, qual modelo de pelerine foi eleito? Um souvenir de tantos causos, com vista para os cuidados com a árvore genealógica, os preparativos para o lançamento do livro da neta. O Confrade Carlos Lima, de feição encantadoramente amarrada, circula com gestos impacientes, num canto disputado de tenores, no espaço do Amélio Amorim. Um barulhinho bom, animado pelo desfile com tantos modelos de pelerines apresentados, provas, fotos. Um dia memorável.
A cadeira do Confrade Dr. Helder Alencar parece de balanço, um corpo animado, a festa em pessoa! Assim comemorou a pesquisa sobre o estudante do curso de Direito e poeta Sales Barbosa. Entre um balanço e outro, o Dr. Helder apresentou-me o "Entrudo", uma espécie de Micareta do século XIX, do tempo do Romântico feirense. Assim comemoramos juntos a sua publicação.
O Confrade Antônio Moreira se aproxima trazendo consigo as suas batalhas, com olhar de quem mergulhou no assombro, num mar de tubarões. Um afago das tardes regadas com as suas histórias, em sua sala de estar. Então, questionou: já colocaram as placas das ruas do centro com os nomes das ruas antigas e atuais? Guarda. Não se pode negar um pedido de quem lutou na Segunda Guerra Mundial. Ele viu a boiada passar na Rua da Aurora: "Passem! Voltem!". Assim eu também testemunhei a passagem do boi do Bando Anunciador, na Aurora.
O Confrade Mons. Renato Galvão desperta em mim um folheto de missa. O papel aquece a memória da infância, o caminhar com minha avó Nair. Mais tarde, no Museu Casa do Sertão, celebro a coleta de dados em suas pastas, trazendo a Feira oitocentista. Bem como os confrades Fernando Pinto, com o livro sobre o "Menino de Preto", Filinto Bastos. Já o Confrade Antônio Lopes, leitor de Sales Barbosa, apresenta-se para mim em "Vozes do Ocaso" de 1971.
Emocionada com a presença do Confrade Dr. Milton Britto.
Parabenizo ao Presidente Dr. João Batista de Cerqueira e ao Confrade Ruy Cerqueira pelo "Presente" Imortal à Academia Feirense de Letras - 2026!
É um registro valiosíssimo da AFL.
Cintia Portugal de A. T. de Vasconcelos é Professora Mestre. Segunda vice-presidente da Academia Feirense de Letras. Cadeira n.05. Patrono Aloísio Resende.


Nenhum comentário:
Postar um comentário