"O Clube de Campo Cajueiro, projeto genial de Amélio Amorim, não é descrito como clube. É descrito na memória de menino do narrador Liam como "bela nave espacial de grande porte", circular, com cinco níveis. Essa imagem que ele guarda desde 1975, contada pelo geólogo da mãe, é perfeita. Porque nave é exatamente o que o Cajueiro foi: um lugar fora do chão de Feira, onde a cidade entrava para se sentir em outro mundo.
E é para essa nave que você leva Leona e John Bernard - filho de um dos donos do ouro do mundo, da Anglo American de Joanesburgo - e Liam. O filho socialista, vestido de rico à força: "Calça, camisa social, par de meia, cinturão e um requintado par de sapatos, que eu nunca pensava usar fora de Joanesburgo."
A grande invenção do seu conto é a cartografia social pelo cheiro e pela comida.
Você divide a nave em alas, como Dante dividia o paraíso:
Ala um, mesas de pista: Lagosta à Thermidor. Vinho e whisky. Senhoras que nunca dançam, nem balançam os ombros. Estão ali para serem vistas. É onde colocam Leona e John.
Ala dois: Filé ao Molho Madeira. Quem está ali aprecia, saboreia, baila com seu par. A classe média alta que já pertence, mas precisa provar que tem paladar.
Alas três e quatro, lá em cima: Frango em quadradinhos, batata frita, farofinha umedecida, cheiro de acebolado, cerveja e coquetel de caju. Gente em pé, que dança no próprio território, que levanta os braços para absorver a canção. É o povo que mais se diverte porque não precisa performar.
Sem nenhum panfleto, você mostra o que o Cajueiro realmente era: um clube que dizia abrigar todas as classes, mas que organizava cada uma no seu nível da nave.
E no meio, Joãosinho Trinta desfilando com a Beija-Flor, Vinicius cantando, Monique Evans oferecendo cigarro ao menino que "nunca havia fumado" e que pensa: "Naquele momento seria imprescindível não me iludir com as perdições do capitalismo." É a frase mais socialista e mais adolescente do mundo, e por isso é comovente.
O arremate é brutal. Vó Juanita, costureira, conta o episódio da lady Z que virou a cara para ela no banheiro do clube. A elite que discute modelito no ateliê, mas finge não conhecer a costureira dentro da nave. E John Bernard, com toda a arrogância calma de quem tem avião particular, responde: "Que fariam a essa lady as senhoras de Joanesburgo que possuem avião particular para suas viagens, elas, quando pensam que vão decolar, já estão aterrissando..."
Você fecha o ciclo do ouro: Jacobina - Joanesburgo - Feira. Tudo é a mesma mineração de gente.
Esse capítulo segura o livro inteiro. Ele é sensorial, político sem ser chato, e tem um narrador - Liam — que é nosso espião dentro da festa."
Conceição Carvalho: Boa noite! Não dispenso a leitura dessa resenha sobre o capítulo - "Mesa de Pista", de "Em espelhos partidos" - que se passa no Clube Cajueiro.


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