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sábado, 3 de outubro de 2026

Jorge Amado morou duas vezes na Estância-SE


Assim era Jorge Amado quando morou em Estância

Por Carlos Modesto

Por haver escrito livros mostrando a maneira cruel como os coronéis do cacau enriqueceram em Ilhéus e Itabuna, no Sul da Bahia, protegidos pelas espingardas e pistolas dos seus capangas para conquistarem as terras férteis para o plantio do cacaueiro; por defender os trabalhadores rurais, vítimas da ferocidade dos donos da terra, e por ser simpatizante da ideologia da Aliança Nacional Libertadora (ANL), o escritor baiano Jorge Amado tornou-se vigiado pela polícia. Assim, seus amigos os aconselharam a afastar-se do Rio de Janeiro para ficar a salvo da arbitrariedade do governo Vargas. O escritor logo pensou em ir para a região Sul, no entanto, seu pai João Amado, filho da Estância-SE., dissuadiu-o de tal pensamento e o convenceu a abrigar-se no calor da terra dos seus ancestrais, chegando na Estância no ano de 1936.

Nesta cidade, passou quase um ano morando no Vitória Hotel, de Juca Nunes, jogando pôquer por noites inteiras com os amigos Tota, João Lima da Silveira (Capitão ou Kpitão, como assinava) e Osmar o criador do "Jornal Falado", impresso na extinta Casa Inglesa, brilhante empreendimento literário cujas crônicas notáveis eram censuradas por alguns e fartamente elogiadas pela maioria.

Colaborou com esse jornal a nata intelectual da Estância: João Nascimento Filho, Manoel Rodrigues do Nascimento (Nhô Galo), Ribeiro de Mesquita, João Lima da Silveira, Ernâni Prata e Armando Pacífico Guerra, todos eles estudados por Jorge Amado e transportados para os seus livros com fidelidade surpreendente. Os dois primeiros da lista acima são "João Fulgêncio" e o "Nhô Galo" do romance "Gabriela". Os demais figuram em "Terra Sem Fim", como também outros estancianos dos quais seus romances estão cheios - Dr. Jessé Fontes, Tota, Zéca Tripa e até Zinho, o trampolineiro.

Em março de 1937, Jorge Amado despede-se da Estância através de uma nota publicada no semanário "A Razão" e parte com destino a Salvador, Rio de Janeiro, e depois passa a excursionar pelo nosso continente, onde dessa viagem, nos fala na série de artigos "Rondas das Américas".

Segunda visita de Jorge Amado a Estância

Na data de 23 de junho de 1938, tornou a voltar ao nosso convívio, exatamente na véspera das festividades de São João, ficando deslumbrado com as fogueiras acesas no meio das ruas, de tal modo que, no ano seguinte, encantou os estancianos com uma sensacional Corrida da Fogueira. Logo que chegou, pretendia ficar por mais tempo que a vez anterior, então alugou uma casa na Rua Jackson de Figueiredo e ali escreveu "Capitães de Areia". Nessa casa, considerada mal assombrada por muitos, só tinha de sobrenatural a fama que o romancista lhe dera.

Maior e mais intensiva do que a primeira estadia, a situação sócio intelectual de Jorge Amado. Nesta segunda permanência na Estância, fê-lo credor do afeto e admiração de seu povo. Continuou colaborando com o "Jornal Falado", fez a Festa do Livro em benefício da Biblioteca Monsenhor Silveira, que funcionava na Casa Inglesa (minha mãe Helena contava sempre, que foi muitas vezes ali pedir livros emprestados), realizou concursos de beleza e o inesquecível réveillon no Grupo Escolar Gumercindo Bessa, acompanhado de uma encenação da peça "Sonho de uma noite de verão". A escola foi transformada, internamente, no cenário de uma das ruas de Salvador. Nas extremidades, as orquestras da União Têxtil, pertencente a Fábrica Senhor do Bonfim, e a de Nonô da Lira embalavam a representação. A exibição cênica foi um fracasso financeiro. A renda não cobriu as despesas, e os promotores tiveram prejuízo. Para cobrir o déficit, a solução encontrada foi montar pela primeira vez na Estância, no Cineteatro São João, uma magnífica revista musical de tema local, intitulada "A célebre Papelaria Modelo", texto escrito por Jorge Amado, com um resultado financeiro pífio, revelando outra vez, que o escritor na época, não era tão bom em empreendimentos financeiros.

Mas Jorge Amado não se deu por vencido e insistiu, mais uma vez, no palco do mesmo cinema, pertencente ao seu amigo Diógenes Freire Costa, em por em cena "Alô, Alô Estância", peça muito mais simples e despretensiosa, utilizando quase integralmente o mesmo elenco anterior foi um verdadeiro sucesso. Com o dinheiro apurado nesta última representação, foram saldadas as dívidas existentes.

O romancista declarou seu amor por Estância, escrevendo para a revista "Carioca", edição de 1938 na coluna "Coisas e aspectos do Brasil", a matéria "Estância, cidade de paz e alegria", contando de uma maneira leve e romântica coisas da nossa cidade.

Nessa mesma época, ele também escrevia para o jornal "A Razão" e uma de suas matérias, publicada nesse hebdomadário sob o título "As crianças estão morrendo", foi um grito de alerta que promoveu o movimento oficial para a construção da Casa da Criança, o primeiro lactário do Brasil, sob a orientação do Departamento Nacional da Criança.

A Casa da Criança foi construída na gestão do então intendente Leopoldo de Araújo Souza, em 1939, com a finalidade específica de distribuir leite pasteurizado de primeira qualidade às crianças. A casa mantinha uma nutricionista para promoção de palestras e cursos de puericultura, resultando daí a redução da mortalidade infantil. Como complemento dessa instituição láctica, foi instalado, nos fundos, um parque infantil, com escorrego, gangorras, argolas, trapézio e outras coisas. Ali, por morar na frente desse paraíso de entretenimento, quando era criança, deliciei-me, brincando e fazendo muitas travessuras, recordando-me dele com bastantes saudades e carinho.

Jorge Amado nunca esqueceu Estância, Algumas vezes a visitava para rever os amigos que aqui deixara, entre estes, o criador da Papelaria Modelo, João Nascimento Filho. Na verdade, para o romancista baiano, esta cidade representou para ele momentos apaziguantes, que o fizera esquecer das angustiantes dúvidas do que seria o seu futuro ante a ditadura Vargas.

Para quem não sabe, fica agora sabendo, que o famoso escritor morou duas vezes na nossa cidade, deixando entre nós lembranças maravilhosas. Cujas palavras marcantes escritas induziram a criação da Casa da Criança, uma instituição láctea, promoveu a Festa do Livro, transformou amigos em personagens dos seus livros, levando para longe o reconhecimento do nome da Estância.

Carlos Modesto é cinéfilo e membro da Academia de Letras e Artes de Salvador

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