Artigo de Hugo Navarro, publicado na edição desta quinta-feira, 1º, do jornal "Folha do Norte":
O governo federal, já revelho conhecido, e o novo governo da Bahia, que se equivalem e se confundem (há quem dê um pelo outro sem querer volta), finalmente resolveram atuar em Feira de Santana.
O presidente Lula, antes de ir à Suíça em companhia de Romário dos mil gols e outras figuras do futebol, para tratar, na Fifa, de assuntos ligados à Copa de 2014, esteve em Salvador, em comemoração da Ford, e fez o que todo mundo esperava: renovou antigas promessas e elaborou novas. Afinal de contas há eleições se aproximando e pesquisas já abalam os alicerces dos políticos.
O que surpreendeu - não há como negar - e deve ter causado calafriuos na pseudo-esquerda que teima em sobreviver, no Brasil, por motivos variados, foi a afirmação de que o governo vai privatizar a malha rodoviárias do Estado.
Estupefaciente, entretanto, foi a garantia de que empresas privadas envolvidas no negócio, que faria o grande líder, Stalin, mandar passar pelas armas muita gente, se encarregarão de duplicar o famoso anel de contorno da cidade sem ônus, sem custos e sem despesas para o erário e para o povo. Farão, os patriotas empresários encarregados dos trabalhos, estudos, projetos, remoção de grande quantidade de material, terraplenagens e asfaltamento de cerca de doze quilômetros do contorno sem receber nenhum centavo. As obras, inclusive a duplicação de parte da BR-116, estão orçadas em mais de um bilhão de reais. Benditos sejam os empreiteiros! Há gente cobrando fortunas por lugar de certo conforto no além.
Prestigioso órgão da imprensa local chega a garantir que "não é preciso haver preocupação com pedágio", levando refrigério a muitas almas crentes.
Acredita em Lula, entretanto, aquele que tem o "acreditador" muito perto, pois esta é a segunda ou a terceira vez que o presidente promete, solenemente, duplicar a avenida de contorno.
Os temores em torno da "salvação" das estradas baianas e do anel de contorno de certo modo foram amenizados pela sensacional notícia de que o governo do Estado vai estender a cultura dos agrestes, ignaros e toscos rincões interioranos. Para esse fantástico desiderato, não vai abrir escolas nem melhorar as existentes, não construirá teatros, não vai ajudar, financeiramente, grupos teatrais, não dará aumento de salário aos prefessores, nem ajuda à Academia de Letras de Feira, não instalará novas universidades, não distribuirá livros, nem ao menos o de Caetano Veloso, nem facilitará a escolas, professores e alunos o acesso à Internet.
É um louvável e brasileiríssimo movimento verboso, cujo ponta-pé inicial (futebol também é cultura, haja vista Garrincha e o Fluminense de Feira), ocorreu, com grandes e sinceras demonstrações de babaquice, na Uefs, atraindo para esta cidade, o ministro da cultura, Gilberto Gil, o secretário de cultura do Estado, e outras pessoas de somenos importância, que debateram todos os aspectos da cultura interiorana e os meios de sua maior e mais abrangente propagação sob aplausos gerais, dizem, principalmente quando se abordou a importância da capoeira de Angola e da "bata-do-feijão" em São José. Foi um delírio! Todos saíram do memorável conclave certos de que baiano burro nasce morto e de outras profundas, filosóficas e semelhantes verdades.
E assim vai vivendo a Pátria. Muita conversa, discursos idiotas à espera de qualquer crise internacional abale o chamado equilíbrio das finanças.
Tudo são palavras, palavras, palavras, como disse Hamlet, que ninguém mais quer saber em que padaria trabalhou.