*

*

sexta-feira, 24 de março de 2017

"Je Vous Salue, Marie" 30 anos depois

Com o DVD, a oportunidade de ver e rever filmes. Na coleção de filmes que estamos formando, exemplar de "Je Vous Salue, Marie" (Eu Vos Saúdo, Maria), de Jean-Luc Godard, 1985, que em meados dos anos 80 (1986) foi proibido no Brasil, sob a alegação de que a história era uma ofensa aos dogmas da Igreja Católica. 
O polêmico filme atualizava então o mito da imaculada conceição de Maria e seu filho Jesus no século XX. A revisão tanto tempo depois mantém a impressão de há pouco mais de 30 anos. Em dezembro de 1985, assisti ao filme em Portugal, mais precisamente em Lisboa, no Cine N'Gola. Na coluna "Comentando", do jornal "Gazeta Feirense", que era editado por Egberto Costa, escrevi na edição de 1º a 7 de fevereiro de 1985:
(...) quem assistir ao filme verá que a polêmica (censura ou não) de tantos meses não tinha tanta razão de ser. (...) Fala-se que não se pode permitir num país católico a exibição do filme porque a Igreja considera a aviltante a aparição na tela de uma Maria atual, jovem, bonita e que fica nua. Não cabe à Igreja censurar filmes, no caso, um que nem teve oportunidade de visão. Estão criando um fantasma em torno do filme. Ao cinema vai quem quer e pode pagar por isso.
Em Portugal - país eminentemente católico -, eu quis e pude ir ao cinema para ver "Je Vous Salue, Marie". E fui duas vezes. Na primeira, cheguei com a sessão iniciada e dormi em algumas partes, pelo cansaço dos compromissos turísticos cumpridos no dia anterior. Então, voltei no outro dia e assisti do princípio ao fim.
Em "Je Vous Salue, Marie", Maria é uma jogadora de basquete que namora o casto José, um motorista de táxi. Um desconhecido anuncia que ela espera uma criança. Virgem, ela consulta seu médico, afirmando que não manteve relações sexuais. A sinceridade da jovem mulher acaba por vencer o legítimo ciúme de José, que deve se contentar em olhar a nudez de Maria. Os intérprtetes Myriem Roussel e Thierry Rode e a natural fremência participante à ambientação do sagrado que precede o nascimento valorizam a obra.
Jean-Luc Godard não perdeu nada de sua originalidade de estilo. Cada vez mais, os códigos da narração tradicional são inteligentemente desprezados. Os atores em sua maior parte desconhecidos são transfigurados pelo esplendor das imagens e pela riqueza da trilha sonora (Bach, Dvorak, Coltrane).
Os ataques de intolerância são pelo fato de "Je Vous Salue, Marie" ser um acontecimento marcante que guarda de hoje em diante seu lugar na história do cinema, no capítulo vergonhoso da censura. Os cruzados da Virgem Maria (Janio Quadros, a Tradicional Família Mineira, a TFP) que não vão ao cinema, mas que não impeçam a livre vontade.
O filme de Godard é um ensaio espiritualista que deveria confortar os católicos no seu amor e nos dogmas. Desde que o espectador seja impermeável às numerosas conotações religiosas do filme verá não apenas um exercício de estilo à serviço de uma proposta em que o cineasta exprime através um brusco retorno do "cinema vertical" (aquele que sempre olha para o céu) a nostalgia dos valores religiosos de uma sociedade em busca de refúgios ilusórios. É isso aí.


Nenhum comentário: