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quinta-feira, 31 de março de 2016

Poema da Feira de Sant'Ana

Escrito em Salvador, há 90 anos, em março de 1926, "Poema da Feira de Sant'Ana", de Godofredo Filho, foi publicado em livro em 1977, com capa ilustrada por Carybé, sob os auspícios da Fundação Cultural do Estado da Bahia, como parte da edição das Obras Completas do autor.

Trecho do longo poema

Feira de Sant'Ana do grande comércio de gado
nos dias poeirentos batidos de sol compridos
Feira de Santa’ Ana
Das segundas feiras de agitações mercenárias
correrias de vaqueiros encourados
tabaréus suarentos abrindo chapéus enormes
barracas esbranquiçadas à luz
e as manadas pacientes que vêm para ser vendidas
de bois do Piauí de Minas do Sertão brabo
                                    até de Goiás
(meu bisavô Zé carneiro era o bicho em negócio e gado
meus parentes todos ricos que hospedaram o Imperador
quando ele foi à Feira ver a feira
seu Pedreira
meu tio Cerqueira)
ali eu tive tudo
meus cinco anos
meus brinquedos todos
o automovinho que papai trouxe quando veio na Bahia
a roça de meu avô com os carneiros as cabras os tanques
[...]
meus tios engraçados
casa da Rua Senhor dos Passos da minha meninice
que fontes eu cavei nos fundo do teu quintal
[...]
também a casa da minha tia Pombinha com corredor escuro
lá eu morei
a vizinha era D. Olívia professora
o sobrinho dela Genaro
tinha um outro que esqueci do nome
[...]
minhas primas filhas de meu tio que eu tinha medo dele
deslumbramento do meu primeiro beijo escondido
                          gostinho quente da primeira namorada
                                                                  prima
foi numa volta de picula
                           você lembra?
Feira de Sant'ana
a de hoje tão diferente
também é boa
riscadinha de eletricidade
torcida esticada retesada de fios aéreos longos
Fords estabanados raquíticos
levando no bojo viajantes de xarque
ó Fords arados desvirginadores de sertão
horizontes da minha terra que me educaram
Ainda quero ser limitados por eles
minha terra boa boa
minha terra minha
É lá que eu quero dormir ao acalento daquele céu tão manso
dormir o meu grande sono sem felicidade ou tortura de
                                                                   sonho

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