Há mais ou menos quarenta anos, o cineasta e
crítico José Umberto, numa noite de insônia e febre, deitou no papel um
conjunto de imagens delirantes, fruto de dois anos de reflexões agora
transformadas em sintomas de uma virose repentina. Tinha 19 anos quando
escreveu seu longa de estreia: "O Anjo Negro".
Entre 1968 e 1972, o autor realizava críticas
cinematográficas diárias para o "Jornal da Bahia". Assistir aos filmes
e, logo em seguida, analisá-los para a publicação, deu ao jovem José Umberto a
certeza de que toda a realização fílmica sustentava-se através de elaborações
prévias de ideias, de conceitos. Provavam isto a Nouvelle Vague e suas
lideranças, cujos talentos dividiam-se entre os textos publicados na "Cahiers
du Cinéma" e as películas exibidas nos festivais e salas de cinema.
Enquanto escrevia para a afamada folha baiana, o cineasta ia amadurecendo o seu
projeto de, um dia, oferecer ao público sua interpretação particular do Brasil
através de texto, imagem e som.
Para levar o projeto até o fim, a experiência
como crítico somou-se à formação acadêmica. Quando José Umberto começou a
escrever "O Anjo Negro", tinha acabado de concluir a licenciatura em
Ciências Sociais pela Ufba. Lá entrou em contato com autores fundamentais para
o entendimento da formação da sociedade brasileira, como Gilberto Freyre,
Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., dentre outras inspirações para a
composição de suas personagens arquetípicas. Sua paixão pela antropologia,
especialmente pelos estudos sobre a cultura afrobrasileira, fez com que
conhecesse Mário Gusmão - o futuro protagonista de seu filme - em um curso
sobre diáspora africana.
Para completar este mix de referências, temos
o contexto da época. Inspirações aparentemente mais óbvias foram minimizadas,
ou completamente descartadas, por José Umberto no momento de listar as
influências diretas para a concepção do roteiro. Ele desconhecia a peça
homônima de Nelson Rodrigues e, apesar do universo fílmico esbarrar diversas
vezes em um humor trágico tipicamente rodrigueano, a presença do dramaturgo
carioca não foi considerada na origem da ideia central do filme. A influência
de "Teorema", de Pasolini, apontada por muitos como a base dramatúrgica
de "O Anjo Negro", é igualmente desconsiderada. Elencar a obra dentro do
movimento udigrudi baiano também trás certo desconforto para o autor.
Referências diretas e conscientes de "O Anjo Negro", segundo as palavras do próprio José Umberto, foram, como dito
anteriormente, as leituras dos sociólogos brasileiros. Isto fica bastante claro
no modo como o autor constrói suas personagens no roteiro. Todos são concebidas
a partir de uma tipologia sociológica, ou seja, para caracterizá-las, contou
menos uma rigorosa constituição psicológica do que uma aderência alegórica,
capaz de criar um microcosmos ilustrativo das transformações da sociedade
patriarcal no âmbito da narrativa. Dentro desta perspectiva, Hércules, o juiz
de futebol, representa o poder e, de certa forma, a indústria de massa; o
rebelde Carlinhos, a revolução comportamental vinda da juventude; o velho
Getúlio, a decadência do patriarcalismo baiano; Calunga, o anjo negro, as
forças elementares provindas da senzala, reprimidas, que emergem na superfície
do substrato social brasileiro para impor sua presença criadora.
Vemos também, mesmo quando atenuadas pelo
universo rural, as referências tropicalistas presentes no roteiro, mesclando o
tradicionalismo de uma temática brasileira com citações ao universo pop das
histórias em quadrinhos e da cultura de massa. Igualmente confessadas pelo
autor, as subversões construídas pela narrativa devem-se não somente à imersão
no universo elementar dos orixás, mas ao boom do realismo fantástico
latinoamericano chegado ao Brasil na época - leitura de nomes importantes desta
corrente literária, como Gabriel Garcia Marquez, ajudaram a compor a atmosfera
irreal e delirante de "O Anjo Negro".
O filme "O Anjo Negro" manteve-se fiel
ao roteiro, destacando suas intenções alegóricas e as aprofundando ao nível da
imagem, sobretudo na confecção dos figurinos e no uso da cor. Algumas
sequências perderam um pouco da dramaticidade, como, por exemplo, o momento em
que o Anjo Negro é atropelado por Hércules - no filme, a cena constrói-se de
forma fragmentada, prejudicando o entendimento da ação. Também perdeu um pouco
do impacto a transposição cênica do momento central do filme, onde a personagem
de Mário Gusmão invade a casa burguesa, subvertendo a ordem patriarcal. Nem
sempre se consegue transpor integralmente as idéias escritas para o suporte
fílmico, ainda mais em uma obra de baixo orçamento. Houve um contratempo nas
filmagens, forçando a conclusão da importante cena no período de uma única
noite.
Enfim, para entender melhor o roteiro, nada
melhor do que lê-lo e tirar suas próprias conclusões. Acesse-o clicando abaixo
e boa leitura.

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