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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

"Tropa de Elite 2": Verdade sem poesia

Comentário de Maria do Carmo Vieira:

Acabei de chegar do cinema e, antes que o meu entusiasmo vá pro espaço - é, porque sou muito esquecida e distraída -, resolvi escrever logo sobre o filme que vi, "Tropa de Elite 2", apesar da tempestade que cai lá fora e da vontade enorme que estou de cair na cama e pegar no sono, embalada por esse barulho delicioso de chuva.
Bem, como já disse aqui outras vezes, eu resisto a filmes com temáticas miseráveis (em todos os sentidos possíveis) como violência urbana, miséria social, dramas policiais e, principalmente, quando a ação, ou parte dela, se passa em favelas, porque me sinto incomodada com o modo como a vida que se leva nesses lugares é retratada. Foi por isso que não assisti "Cidade de Deus" e "Carandiru" quando foram exibidos nos cinemas. Mas, depois de ler e ouvir falar a respeito desses filmes, tive a felicidade de assistir e adorei. Ambos! A temática que me incomoda estava lá, muito presente até, mas as qualidades técnicas, e a poesia com a qual a história - comovente em ambos - foi contada, me encantaram.
Com "Tropa de Elite 2" foi "quase" assim. Digo quase porque eu não ia repetir a mesma burrada. Então, seduzida pelo número de expectadores (10.736.995 até agora, segundo o Blog Demais - o filme mais visto da história do cinema brasileiro) pelo tempo em cartaz (está entrando em décima semana) e pelos comentários de quem viu, fui assistir. Afinal, que tipo de cinéfila sou eu?!!!!
Gostei muito! E contrariando o meu pré-julgamento (sou mestra nessa horrível arte) de que o filme estaria fazendo sucesso porque a maioria das pessoas gosta mesmo é de ver violência no cinema, o filme prima pela coerência do roteiro, pela verossimilhança com tudo aquilo que ouvimos falar sobre o "sistema" e que não gostaríamos de acreditar, pelas boas atuações, principalmente do nosso Wagner Moura (fiquei fã do capitão Nascimento), e pela competência com que José Padilha manteve a atenção do espectador até o fim, em sequências vibrantes, sem lançar mão de tantos apelos visuais como aconteceu no primeiro filme.
"Tropa de Elite 2" tem um bom ritmo, não cansa, não é enfadonho, não agride aos nossos ouvidos com palavras de baixo calão como é praxe em filmes nacionais, embora tenha alguns palavrões que, na verdade estão bem contextualizados nas cenas em que aparecem, não afetando a qualidade da obra.
Além disso, "Tropa de Elite 2" tem duas características que adoro num filme: é narrado em primeira pessoa, o que dá um toque literário, e a história não é linear, ou seja, não começa no começo (adoro isso). No caso do filme em questão, a história começa ser contada quando já está chegando ao final. A partir desse ponto, há um salto de tempo para quatro anos antes, chegando ao ponto onde o filme começou e avançando um pouco mais adiante, até a cena que considero uma das mais impactantes do filme: o depoimento do capitão Nascimento na Assembleia, fazendo o que todo brasileiro honesto gostaria de fazer: denunciando políticos e políciais bandidos, para acabar logo depois. Outra cena que destaco, mostra o mesmo personagem numa outra ação que alguns brasileiros mais esquentadinhos gostariam de protagonizar: enchendo um corrupto de porrada (rs rs).
Ao mostrar na tela a verdade nua e crua da realidade política brasileira, mesmo empunhando a bandeira da ficção, José Padilha conquista para o capitão Nascimento a empatia imediata do expectador, sobretudo quando nos damos conta de que o herói está sozinho.
Enfim, "Tropa de Elite 2" não é um filme para entreter, apesar de algumas cenas de humor; ele informa, esclarece e faz pensar. Pensar no papel de cada um de nós para mudar o que não está legal. Meu filho mais velho, Acauã, assitiu o filme comigo, gostou muito, e disse que chegou a conclusão de que a solução para essa tragédia toda é cada um agir com honestidade, fazendo a sua parte. Concordo, mesmo que os resultados demorem a aparecer.
"Tropa de Elite 2" é bom, muito bom. Nota 10.
Fonte: "Blog de Maria Duth"

2 comentários:

Mariana disse...

Ter um "Capitão Nascimento" como secretário de segurança, como no filme, é o que todos nós, de qualquer estado brasileiro, gostaríamos de ter, já que a criminalidade está contaminando tudo, até quem deveria nos defender. Muito bom o comentário de Maria do Carmo.

Maria do Carmo Vieira disse...

Obrigada, Dimas, pelo destaque do meu post. Quero apenas acrescentar que cometi o pecado de não registrar aí a participação marcante - e muito convincente - do ótimo Seu Jorge, atuando numa das melhores sequências do filme. Esse Seu Jorge é o cara! Só perde pro Capitão Nascimento. rs rs